Perigo do chá de poejo: a conta da pulegona, em mg
O poejo (Mentha pulegium) é um caso raro entre as plantas de chá: o risco dele tem número. O comitê de fitoterápicos da Agência Europeia de Medicamentos publicou um parecer inteiro dedicado a uma molécula sua — a pulegona — e fixou um teto de exposição diária em miligramas.
O poejo não está entre as 85 espécies avaliadas pelo Formulário de Fitoterápicos da Anvisa. Não há dose nem indicação registrada para ele no Brasil.
De onde sai o número
O limite não foi arbitrado: foi calculado. O parecer parte do NOAEL de 37,5 mg/kg por dia, obtido no estudo de toxicidade de repetição de três meses do NTP, aplica um fator de incerteza de 50 e chega a 0,75 mg/kg por dia. Para uma pessoa de 50 kg — peso adotado no documento porque cerca de 18% da população europeia, e até 30% das mulheres, pesa menos de 60 kg — isso dá 37,5 mg por dia.
Repare que o teto é do conjunto: pulegona mais mentofurano, somando todas as fontes. Bala de menta, chiclete, bebida com sabor de hortelã e chá entram na mesma conta.
O que aconteceu com quem passou muito desse número
Aqui a diferença de escala é o que importa, e o parecer separa as duas coisas com honestidade. Os casos graves de intoxicação humana revisados são de óleo essencial de poejo, não de infusão:
| Quantidade de óleo ingerida | Desfecho descrito |
|---|---|
| 10 mL (cerca de 5,4 a 9 g de pulegona) | toxicidade moderada a grave |
| acima de 15 mL (cerca de 8 a 13 g) | morte |
A patologia clínica descrita: necrose centrolobular maciça do fígado, edema pulmonar e hemorragia interna. Em um paciente que morreu, a análise do soro 26 horas após o óbito encontrou 18 ng/mL de pulegona e 1 ng/mL de mentofurano.
Dez mililitros de óleo essencial são cerca de duas colheres de chá. É por isso que o parecer observa que a dose máxima proposta para medicamento em tratamento curto — 75 mg — fica de 72 a 120 vezes abaixo da dose que produziu toxicidade moderada a grave nos casos documentados.
A conclusão prática não é que o chá mata. É que a infusão e o óleo essencial da mesma planta são produtos de escalas diferentes, e confundir os dois é o erro que produz os casos.
Como a pulegona machuca o fígado
O mecanismo está descrito e é útil porque explica a forma do risco. A pulegona é bioativada: o organismo a converte em mentofurano e, deste, em um gama-cetoenal — um metabólito eletrofílico reativo. Esse metabólito se liga covalentemente a macromoléculas celulares ou é capturado pela glutationa.
Quando a glutationa hepática se esgota, a ligação com as proteínas da célula segue livre. Foi essa depleção que o grupo de trabalho da IARC apontou, em 2015, ao classificar a pulegona no grupo 2B — possivelmente carcinogênica para humanos —, registrando ao mesmo tempo que ela não é mutagênica nos ensaios bacterianos padrão. Ou seja: a hipótese de mecanismo não é dano direto ao DNA, e sim proliferação celular regenerativa crônica.
O uso abortivo, no registro do documento
O parecer descreve o histórico do óleo de poejo em uma frase: foi usado como agente de fragrância e como medicamento para induzir menstruação e aborto — e acrescenta que não é mais utilizado assim. É uma constatação sobre o mercado farmacêutico regulado europeu, não uma afirmação sobre o que circula fora dele.
A outra planta brasileira de fama abortiva que também ficou de fora das 85 espécies está em perigo do chá de arruda — lá, a documentação é de outro tipo: relatos de caso e monográfico de toxicologia, sem limite numérico.
O parente que tem monografia
A hortelã-pimenta (FT049) é da mesma família e também contém pulegona, em teor bem menor. Ela tem monografia brasileira, com dose, prazo e faixa etária — e, mesmo assim, uso contraindicado durante a gestação e a lactação, com fórmula pediátrica só a partir dos 4 anos. Ter monografia não é sinônimo de liberado; é sinônimo de ter os limites escritos. O quadro está em quem não pode tomar hortelã-pimenta.
Quando procurar atendimento
Procure emergência se, após ingestão de poejo — e sobretudo de óleo essencial —, aparecerem: vômitos persistentes, dor abdominal forte, pele ou olhos amarelados, sonolência ou confusão, falta de ar, convulsão ou sangramento. Leve o frasco ou a embalagem. O Disque-Intoxicação da Anvisa (0800 722 6001) funciona 24 horas e é gratuito.
Óleo essencial nunca deve ser ingerido por conta própria: a escala de dose dele não é a do chá. O que a dose alta faz nas plantas que têm monografia está em excesso de chá faz mal?, e o mapa geral em quem não pode tomar chá.
Perguntas frequentes
O chá de poejo é tão perigoso quanto o óleo?
Não na mesma escala, e vale dizer isso com clareza. As mortes descritas na revisão europeia envolvem ingestão de óleo essencial, em que a pulegona chega a 97% do conteúdo. A infusão da folha traz uma fração disso. O que o limite europeu faz é somar todas as fontes e fixar um teto para o conjunto.
Poejo é usado para tosse de criança. Pode?
Não há dose pediátrica registrada, porque a espécie não está entre as 85 avaliadas no Brasil. O parecer europeu, quando trata de criança, ajusta o limite pelo peso: para 20 kg, 15 mg de pulegona e mentofurano por dia em uso prolongado. Tosse persistente em criança é avaliação médica.
A pulegona causa câncer?
A IARC classificou a pulegona em 2015 no grupo 2B, possivelmente carcinogênica para humanos. O grupo de trabalho concluiu que ela não é mutagênica nos ensaios bacterianos padrão, e que o mecanismo provável passa por metabólitos que depletam a glutationa hepática e se ligam a proteínas celulares.
Por que o parecer diz que o óleo 'não é mais utilizado'?
Porque o texto está descrevendo o histórico do produto na Europa: o óleo de poejo foi usado como agente de fragrância e como medicamento para induzir menstruação e aborto, e deixou de ser empregado assim. É uma constatação de mercado regulado, não uma garantia sobre o que se vende fora dele.
Fontes
- European Medicines Agency, Committee on Herbal Medicinal Products — Public statement on the use of herbal medicinal products containing pulegone and menthofuran, EMA/HMPC/138386/2005 Rev. 1, adotado em 12 de julho de 2016: o NOAEL de 37,5 mg/kg de peso por dia com fator de incerteza 50, resultando no limite aceitável de 0,75 mg/kg por dia, equivalente a 37,5 mg por pessoa de 50 kg ao dia em exposição vitalícia e 75 mg por dia em tratamento de menos de um ano; o ajuste para criança de 20 kg (15 mg/dia vitalício, 30 mg/dia curto prazo); o teor de pulegona de 62% a 97% no óleo de poejo; a revisão de casos humanos em que 10 mL do óleo causaram toxicidade moderada a grave e mais de 15 mL causaram morte, com necrose centrolobular maciça do fígado, edema pulmonar e hemorragia interna; a classificação da pulegona pela IARC em 2015 como grupo 2B, possivelmente carcinogênica para humanos; e o registro de que o óleo de poejo foi usado como medicamento para induzir menstruação e aborto e não é mais utilizado
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — o índice das 85 espécies avaliadas, em que Mentha pulegium não consta: não há fórmula, dose, indicação nem faixa etária registrada para o poejo no documento oficial brasileiro. A hortelã-pimenta (FT049), da mesma família e também fonte de pulegona, tem monografia própria, com uso contraindicado durante a gestação e a lactação
- Anvisa — Disque-Intoxicação: canal gratuito 0800 722 6001, 24 horas por dia, atendido pelos centros da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026