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Guia da Saúde

Quais chás não pode na gravidez: 82 das 85 restringem

As 85 monografias do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa tratam de gestação — todas elas. E o placar é este: 82 restringem (81 contraindicam ou não recomendam, e o cranberry exige “extrema precaução”), uma diz que não há dados, e duas liberam.

As duas que liberam são as que menos se esperaria:

  • Camomila (FT047): “O uso durante a gestação e lactação é permitido”;
  • Mirtilo (FT081): “Ambas as formulações apresentam segurança durante gestação e lactação”.

O contraste que está dentro do mesmo documento

A camomila é da família Asteraceae. A mil-folhas (FT001) também é — e a monografia dela diz o oposto: “O uso é contraindicado durante a gestação, lactação e para menores de 12 anos, devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações.”

Mesmo documento, mesma família botânica, decisões inversas. A diferença não é a planta: é o tamanho do dossiê. A camomila tem monografia europeia com avaliação de uso em gestantes; a mil-folhas, não. O que decide a linha da bula, na maioria dos casos, é quanto se estudou — e é disso que trata o resto desta página. Os detalhes de cada uma estão em camomila na gravidez.

A frase que se repete em quase todas

“…devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações.” Ela aparece dezenas de vezes, com pequenas variações, e é a justificativa dominante das contraindicações na gestação.

Vale entender o que ela significa e o que não significa. Significa que ninguém demonstrou segurança — e em gestação isso é quase inevitável, porque não se faz ensaio clínico com grávidas por razão ética. Não significa que houve dano comprovado.

E aqui vai a parte que este site não vai suavizar: descobrir que a proibição nasce de ausência de dado não é motivo para tomar. É motivo para saber que a decisão precisa ser individual, feita no pré-natal, e não resolvida por um rótulo.

As contraindicações que têm mecanismo escrito

Uma minoria das monografias não se apoia em falta de dado — descreve por que. Essas merecem leitura à parte:

PlantaO que a monografia registra
Gengibre (FT085)contraindicado na gestação por inibir a enzima tromboxano sintetase, podendo afetar a ação da testosterona no concepto
Estigma de milho (FT084)contraindicado para gestantes, pois promove estimulação da contração uterina
Polígala (FT065)contração uterina observada em estudos com animais; por esse risco, o uso por gestantes é contraindicado
Salgueiro (FT069)contraindicado porque os salicilatos atravessam a barreira placentária
Guaraná (FT057)a cafeína atravessa a placenta; em doses superiores às terapêuticas demonstrou efeito embriotóxico e teratogênico
Erva-doce (FT061)em gestantes pode ocasionar alterações hormonais

O paradoxo do gengibre

Vale parar no primeiro item da tabela. O gengibre é o chá mais recomendado no mundo para enjoo de gravidez — e a monografia brasileira o contraindica na gestação, nominalmente, com mecanismo descrito e referência citada.

Isso não é um detalhe menor nem um erro de digitação: é uma divergência real entre a prática corrente e o documento oficial brasileiro, e ela existe porque a avaliação da Anvisa incorporou uma preocupação específica com a tromboxano sintetase. O texto completo está em gengibre na gravidez, e o que fazer com náusea no primeiro trimestre, em náusea matinal na gravidez.

As plantas que nem entraram na lista

As 85 espécies do Formulário são as que foram avaliadas. Duas das plantas mais associadas a gravidez no imaginário brasileiro ficaram de fora — e o que existe sobre elas não é ausência de dado, é dado de dano: perigo do chá de arruda e perigo do chá de poejo.

A cafeína é conta separada

Café, chá-preto, chá-verde, mate e refrigerante de cola não estão no Formulário de Fitoterápicos — a cafeína tem limite próprio na gestação, e ele é numérico. Está em cafeína na gravidez: limite diário.

Quando procurar atendimento

Procure o pré-natal ou a emergência obstétrica se, após qualquer chá, aparecerem sangramento vaginal, cólica forte ou rítmica, perda de líquido, dor abdominal intensa, vômitos que impedem comer e beber, dor de cabeça forte com alteração visual ou redução dos movimentos do bebê. Diga qual planta foi usada e por quanto tempo.

A fase seguinte — que tem restrições diferentes destas, e por motivos diferentes — está em chás que não pode amamentando. O quadro geral, em quem não pode tomar chá.

Perguntas frequentes

Se a contraindicação é por falta de dado, o risco é teórico?

O risco é desconhecido, que não é a mesma coisa que pequeno. Em gestação não se testa em ensaio clínico por razões éticas, então a ausência de dado é a regra, não a exceção. Reconhecer que a proibição nasce de ignorância não a transforma em permissão — muda apenas o que se pode afirmar sobre ela.

Chá de camomila na gravidez é liberado mesmo?

É a única das 85 espécies com a palavra permitido escrita na seção de gestação e lactação. A ressalva registrada é sobre uso externo: se a preparação for aplicada nos mamilos, eles devem ser higienizados antes de amamentar, para não sensibilizar a criança.

Existe chá que provoca aborto?

Plantas com efeito documentado sobre a musculatura uterina existem, e as mais associadas a isso no Brasil nem sequer entraram nas 85 espécies avaliadas — caso da arruda, cujo monográfico de toxicologia registra a indução de aborto como o uso intencional mais frequente da planta.

E os chás que eu já tomei antes de saber que estava grávida?

Leve a informação ao pré-natal — que planta, que quantidade, por quantos dias e em que semana. Consumo eventual de infusão comum raramente muda a conduta, mas quem decide isso é quem acompanha a gestação, com o quadro completo na mão.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — as 85 seções de ADVERTÊNCIAS, todas com menção ao uso na gestação: 81 contraindicam ou não recomendam, a FT080 (cranberry) exige extrema precaução, a FT025 (equinácea, pomada de planta inteira) registra que não há dados, a FT047 (camomila) declara que o uso durante a gestação e lactação é permitido e a FT081 (mirtilo) declara que ambas as formulações apresentam segurança durante gestação e lactação. Entre as contraindicações com mecanismo nomeado estão a FT085 (gengibre), por inibir a tromboxano sintetase e poder afetar a ação da testosterona no concepto, a FT084 (estigma de milho) e a FT065 (polígala), por estimulação da contração uterina, a FT069 (salgueiro), porque os salicilatos atravessam a barreira placentária, a FT057 (guaraná), porque a cafeína atravessa a placenta e em doses supraterapêuticas mostrou efeito embriotóxico e teratogênico, e a FT061 (erva-doce), por alterações hormonais
  2. European Medicines Agency — Committee on Herbal Medicinal Products (HMPC), monografia europeia de Matricariae flos: a fonte citada pela monografia brasileira da camomila ao declarar permitido o uso na gestação e na lactação

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026