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Guia da Saúde

Efeitos colaterais da canela: dois documentos, duas listas

Os dois documentos oficiais da canela discordam sobre efeitos colaterais. A monografia europeia escreve, no campo de reações adversas, duas palavras: “None known”. O Formulário brasileiro, na mesma espécie, adverte que podem ocorrer reações cutâneas e em mucosas. Vale conhecer a divergência antes de decidir o que fazer com ela.

Onde as duas listas se separam

A monografia da EMA é econômica em três seções seguidas: efeitos indesejáveis, “None known”; superdosagem, “No case of overdose has been reported”; interações, “None reported”. Lida isolada, ela passa a impressão de uma planta sem qualquer registro de reação.

O Formulário brasileiro escreve outra coisa, e cita quem sustenta: “Podem ocorrer reações cutâneas e em mucosas”, creditado a Wichtl (2004) e a Carvalho & Silveira (2010). Não é contradição de mérito — é diferença de critério. O campo europeu registra reações relatadas em uso de medicamento com aquela preparação; a advertência brasileira recolhe também o que a literatura farmacognóstica descreve sobre a droga vegetal, incluindo o eixo de contato.

A leitura útil é a brasileira, e ela é coerente com a própria monografia europeia num ponto: a única contraindicação registrada pela EMA, além da hipersensibilidade à substância, é ao bálsamo-do-peru — uma resina que só entra numa lista de contraindicação por causa de alergia de contato. Um documento que contraindica por reatividade cruzada de pele e depois escreve “nenhuma reação conhecida” está descrevendo o mesmo terreno com duas réguas. O detalhe está em quem não pode tomar canela.

O que os dois documentos concordam em não ter visto

Vale registrar o outro lado com o mesmo cuidado, porque ele também é dado:

  • Anafilaxia não foi relatada — o relatório de avaliação europeu diz que reações graves como anafilaxia não apareceram na literatura reunida;
  • todos os casos com efeito colateral se recuperaram quando a preparação com canela foi retirada;
  • nenhum caso de superdosagem consta na monografia final.

Nada disso é atestado de inocuidade — é o retrato do que foi observado até a data do documento. E ele explica a conduta que o Formulário prescreve: em caso de evento adverso, suspender o uso e procurar um médico. A resposta descrita na literatura é a retirada, não o ajuste de dose.

O eixo do fígado: é sobre cumarina, e depende de qual canela

A pergunta “canela faz mal ao fígado” não se responde pela monografia — ela nem toca no assunto. O tema pertence a outra literatura, e o sujeito dela não é a casca em si: é a cumarina.

O NIH resume o achado: há relatos de interação entre a cumarina, substância presente na canela-cássia, e o fígado. E acrescenta a proporção — o consumo de cássia habitualmente não fornece cumarina suficiente para causar problema significativo, mas alguns produtos de cássia contêm níveis altos, enquanto a canela-do-ceilão contém apenas traço.

O trabalho que fixou o limite acrescenta a parte incômoda. Ao rever os dados humanos, os autores chegaram à mesma ingestão diária tolerável de 0,1 mg de cumarina por kg de peso obtida a partir de animais — e registraram que os dados clínicos revelaram um subgrupo da população humana mais suscetível ao efeito hepatotóxico do que as espécies animais estudadas, por causa ainda desconhecida. A conclusão prática do artigo: consumidores intensos de canela-cássia podem chegar a uma ingestão diária correspondente ao limite.

Traduzindo para a xícara: a fórmula registrada é de Cinnamomum verum, que praticamente não tem cumarina. O risco hepático descrito não é o da monografia — é o da espécie errada, aquela que está na maioria dos potes de tempero. Os números por peso corporal, inclusive para criança, estão em canela para crianças.

A distância entre a dose registrada e o limiar de irritação

Um último número, para dimensionar. O relatório europeu situa as propriedades irritantes do óleo de casca e do cinamaldeído em doses acima de 0,2 g ao dia, equivalentes a 15 a 20 g de droga vegetal. A fórmula do chá é de 0,5 a 1 g por preparo.

Ou seja, a dose registrada está bem longe do limiar descrito — o que é uma boa notícia e também a razão de a instrução “não utilizar em doses acima das recomendadas” existir por escrito. A margem é uma característica da fórmula, não da planta.

A proporção correta está em chá de canela. Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e no caso da canela boa parte do que se atribui a ela pertence, na verdade, a uma espécie parecida, como mostram as fichas de plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Chá de canela pode causar alergia na boca?

É exatamente o tipo de reação que a advertência brasileira antecipa quando fala em reações em mucosas: ardência, formigamento ou lesão na mucosa oral após o contato. A conduta registrada é a mesma para qualquer evento adverso — suspender o uso e procurar um médico, não reduzir a dose e insistir.

Quanto é 'dose alta' de canela, em gramas?

O relatório europeu dá uma referência indireta e útil: propriedades irritantes aparecem com óleo de casca e cinamaldeído acima de 0,2 g ao dia, o equivalente a 15 a 20 g de droga vegetal. É de 15 a 40 vezes a fórmula registrada de 0,5 a 1 g. O número serve para dimensionar a distância entre a dose oficial e o território de irritação — não como permissão para chegar perto dele.

Já tomei durante meses. Devo fazer exame de fígado?

Essa é uma decisão de quem acompanha o seu caso, não de um texto. O que a literatura sustenta é o contexto: o risco hepático descrito está ligado à cumarina, que é abundante na cássia e apenas traço na canela-do-ceilão, e existe um subgrupo de pessoas mais suscetível cuja causa ainda não é conhecida. Leve a informação de qual canela você usou e por quanto tempo.

Canela em cápsula tem os mesmos efeitos que o chá?

Não são equivalentes e não devem ser tratados como se fossem. O Formulário registra para esta espécie uma preparação extemporânea, o infuso, e nada de cápsula. Suplemento concentrado entrega outra quantidade de droga vegetal por dose e, se for de cássia, outra quantidade de cumarina — fora do que qualquer uma das duas monografias avaliou.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT017, Cinnamomum verum J. Presl: a advertência de que podem ocorrer reações cutâneas e em mucosas, creditada a Wichtl (2004) e a Carvalho & Silveira (2010), a instrução de não utilizar em doses acima das recomendadas e a orientação de suspender o uso e consultar um médico em caso de evento adverso
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Cinnamomum verum J.S. Presl, cortex (EMA/HMPC/246774/2009, 10 de maio de 2011): a seção 4.8, que registra 'None known' para efeitos indesejáveis, e a seção 4.9, que registra que nenhum caso de superdosagem foi relatado
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Cinnamomum verum J. S. Presl, cortex and corticis aetheroleum (EMA/HMPC/246773/2009, versão em consulta pública de 15 de julho de 2010): a seção 5.3.1, segundo a qual reações graves como anafilaxia não foram relatadas e todos os casos com efeito colateral se recuperaram com a retirada da preparação, e a seção 5.9, que situa a irritação a partir de doses de óleo e cinamaldeído acima de 0,2 g ao dia, equivalentes a 15 a 20 g de droga vegetal
  4. Abraham K, Wöhrlin F, Lindtner O, Heinemeyer G, Lampen A — Toxicology and risk assessment of coumarin: focus on human data (Molecular Nutrition & Food Research, 2010; 54(2):228-39): a derivação da ingestão diária tolerável de 0,1 mg de cumarina por kg de peso corporal, a existência de um subgrupo humano mais suscetível ao efeito hepatotóxico do que as espécies animais estudadas, e a constatação de que consumidores intensos de canela-cássia podem atingir a ingestão correspondente ao limite
  5. National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Cinnamon: o registro de interações relatadas entre a cumarina presente na canela-cássia e o fígado, a observação de que o consumo de cássia habitualmente não fornece cumarina suficiente para causar problema significativo, mas que alguns produtos de cássia contêm níveis altos, e a informação de que a canela-do-ceilão contém apenas traço de cumarina

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026