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Guia da Saúde

Quem não pode tomar canela: a lista oficial

A canela é contraindicada para quem tem hipersensibilidade aos componentes da formulação ou ao bálsamo-do-peru, durante a gestação e a lactação, e para menores de 18 anos. É uma lista curta — e traz uma restrição que não aparece em nenhuma outra planta do Formulário brasileiro.

Bálsamo-do-peru: a contraindicação que ninguém explica

O texto brasileiro diz: “Uso contraindicado para pessoas que apresentam hipersensibilidade aos componentes da formulação ou ao bálsamo-do-peru”. O europeu diz a mesma coisa em inglês — “Hypersensitivity to the active substance or to Peru balsam” — e nenhum dos dois explica por quê.

Bálsamo-do-peru é a resina da Myroxylon pereirae. Ela não tem nada de canela no nome, mas tem no conteúdo: uma revisão crítica publicada em 2019 na Contact Dermatitis lista entre os seus ingredientes alergênicos o álcool cinâmico, substância da mesma família química que dá nome ao gênero Cinnamomum. É por isso que quem reage a um pode reagir ao outro.

O tamanho do grupo não é desprezível: a mesma revisão registra sensibilização ao bálsamo-do-peru em 4% a 8% dos pacientes testados rotineiramente por suspeita de dermatite de contato. Quem já fez teste de contato e apareceu positivo para bálsamo-do-peru está, por escrito, fora da lista de quem pode usar canela — e provavelmente nunca foi avisado disso.

As três fases da vida em que não se usa

Gestação, lactação e menores de 18 anos aparecem na mesma frase da monografia brasileira, com o mesmo verbo: contraindicado. O motivo declarado no documento europeu é o mesmo para os três — falta de dado adequado, não dano demonstrado. Isso muda a leitura, mas não a conduta, e os dois casos estão abertos em canela na gravidez e em canela para crianças.

”Nenhuma interação relatada” — e a ressalva sobre tetraciclina

Aqui a canela contraria a expectativa. A seção 4.5 da monografia europeia, sobre interações com outros medicamentos, tem duas palavras: “None reported”. É pouco comum — o gengibre, do mesmo Formulário, tem proibição expressa de uso com anticoagulante.

Só que o relatório de avaliação que sustenta essa monografia registra um ensaio que não virou advertência. Em laboratório, 2 g de casca de cássia em 100 mL retardaram de forma marcada a dissolução de cloridrato de tetraciclina em cápsula de gelatina: apenas 20% se dissolveram em 30 minutos, contra 97% com água pura. O relatório atribui o efeito à adsorção do antibiótico nas partículas e conclui que, como dose de 1 a 2 g de canela não é incomum, convém não tomar tetraciclina junto com canela nesse nível de dose.

Três ressalvas honestas: o ensaio é in vitro, foi feito com cássia e não com a canela-do-ceilão, e a recomendação não foi incorporada à monografia final. Ainda assim, quem está em tratamento com tetraciclina tem um motivo documentado para separar os horários — e nenhum motivo para tomar os dois juntos.

O que o relatório pediu e a monografia não adotou

A conclusão de segurança do relatório de avaliação propunha uma lista maior do que a que foi publicada: além de gestação, lactação e alergia, ela incluía febre de origem desconhecida e úlcera gástrica ou duodenal. Nenhuma das duas chegou às contraindicações da monografia final.

Registrar isso não é motivo para relaxar: febre sem causa conhecida é situação de investigação médica, não de chá. Vale como aviso de leitura — listas de contraindicação que circulam pela internet às vezes reproduzem o rascunho, não o documento vigente.

A proporção correta do preparo está em chá de canela e as reações descritas, em canela: efeitos colaterais. Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e no caso da canela a lista é curta, mas específica, como mostra o conjunto em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Quem tem gastrite ou úlcera pode tomar chá de canela?

A monografia brasileira não cita úlcera entre as contraindicações. O relatório de avaliação europeu, porém, propôs que a canela não fosse usada em úlcera gástrica ou duodenal — proposta que não entrou na monografia final. Quem tem úlcera ativa está diante de uma restrição sugerida por um regulador e não adotada pelo outro, e essa é uma conversa para quem acompanha o caso.

Canela corta o efeito do anticoncepcional?

Nenhum dos dois documentos oficiais registra isso. A monografia europeia escreve 'None reported' no campo de interações, e a brasileira não abre seção de interação para esta espécie. Ausência de relato não é prova de ausência de efeito, mas também não existe fonte oficial afirmando essa interação.

A canela usada como tempero também está proibida para esse grupo?

O Formulário regula preparações medicinais, com massa e posologia definidas — não o uso culinário. Quem tem alergia à canela ou ao bálsamo-do-peru é a exceção clara: nesse caso a restrição é ao contato com a substância, e vale também para a comida e para cosméticos perfumados.

Existe alguma doença que impeça o uso por causa do fígado?

O relatório de avaliação europeu é ambíguo aqui e vale saber disso. Na seção de populações especiais ele restringe o óleo essencial de canela por via oral em doença hepática; na conclusão geral de segurança, amplia para a canela em geral. Duas leituras no mesmo documento — e a conservadora é a que serve a quem tem doença de fígado.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT017, Cinnamomum verum J. Presl: a advertência de uso adulto, a contraindicação para hipersensíveis aos componentes da formulação ou ao bálsamo-do-peru, a contraindicação durante a gestação, a lactação e para menores de 18 anos, e a instrução de não utilizar em doses acima das recomendadas
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Cinnamomum verum J.S. Presl, cortex (EMA/HMPC/246774/2009, 10 de maio de 2011): a seção 4.3, que registra como única contraindicação a hipersensibilidade à substância ativa ou ao bálsamo-do-peru, e a seção 4.5, que registra 'None reported' para interações com outros medicamentos
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Cinnamomum verum J. S. Presl, cortex and corticis aetheroleum (EMA/HMPC/246773/2009, versão em consulta pública de 15 de julho de 2010): a seção 5.7, com o ensaio de dissolução em que 2 g de casca de cássia em 100 mL retardaram a liberação de tetraciclina de cápsula de gelatina (20% em 30 minutos contra 97% com água); a seção 5.5, que desaconselha o óleo de casca por via oral em doença hepática, alcoolismo e uso de paracetamol; e a seção 5.13, que propõe evitar a canela em febre de origem desconhecida e em úlcera gástrica ou duodenal
  4. de Groot AC — Myroxylon pereirae resin (balsam of Peru): a critical review of the literature (Contact Dermatitis, 2019; 80(6):335-353): a frequência de sensibilização ao bálsamo-do-peru de 4% a 8% entre pacientes testados por suspeita de dermatite de contato e a identificação do álcool cinâmico entre os seus ingredientes alergênicos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026