Canela na gravidez: a fama de abortiva e o dado
Grávida não deve tomar chá de canela — a contraindicação está escrita nos dois documentos oficiais e vale também para a amamentação. O que quase ninguém publica é o motivo: não é aborto. Os reguladores contraindicam por ausência de dado, e o relatório europeu chega a rastrear a fama de abortiva até uma confusão entre duas plantas diferentes.
O que está escrito, e o que não está
A monografia europeia dedica uma seção inteira ao assunto, e ela cabe em duas frases: “Safety during pregnancy and lactation has not been established. In the absence of sufficient data, the use during pregnancy and lactation is not recommended”. A brasileira converte isso em contraindicação direta, junto com a lactação e os menores de 18 anos.
Repare no que não está em nenhuma das duas: efeito uterino, ação emenagoga, ação abortiva. Nenhum dos documentos afirma que a canela provoca contração, antecipa sangramento ou interrompe gestação. A restrição nasce de outro lugar — e o próprio texto europeu diz de onde, na seção de dados pré-clínicos: “Adequate tests on reproductive toxicity, genotoxicity and carcinogenicity have not been performed”.
Testes adequados não foram feitos. É essa frase, e não um dano comprovado, que fecha a porta.
De onde vem a fama de abortiva
O relatório de avaliação da EMA faz algo raro: em vez de ignorar a crença popular, ele investiga a origem dela. E encontra duas coisas.
Primeira: uma troca de plantas. O relatório registra que a canela foi usada como abortivo na Antiguidade e na Idade Média, e acrescenta a ressalva decisiva — nas fontes antigas, a canela (cássia) era confundida com a Cassia fistula, que contém antraquinonas. Antraquinona é um laxante estimulante, de uma família química que nada tem a ver com a casca de Cinnamomum. A fama atravessou séculos colada ao nome errado.
Segunda: o que os relatos realmente descrevem. O mesmo relatório reúne o que se publicou sobre gestantes que ingeriram quantidade grande e não especificada de canela. O que apareceu foi metemoglobinemia, hematúria, albuminúria e cilindrúria — alteração do transporte de oxigênio pelo sangue e sinais de acometimento renal. E a frase seguinte é literal: “Abortion was not reported”. Consta ainda que a ingestão diária de 100 gotas de uma tintura não especificada de canela não resultou em aborto.
Por que isso não afrouxa nada
A leitura preguiçosa desse achado seria: “então pode”. É o contrário.
O que os relatos descrevem em gestantes que consumiram muita canela não é um evento neutro — é sangue e rim alterados. A fama que não se sustenta foi substituída por um risco pior documentado do que ela. Somem-se dois pontos do mesmo relatório: doses altas foram teratogênicas em embrião de galinha, e testes de toxicidade reprodutiva em modelo adequado nunca foram feitos.
O NIH americano fecha o quadro do lado da quantidade: “Ceylon cinnamon in larger amounts during pregnancy is considered unsafe” — a canela-do-ceilão, em quantidades maiores, é considerada insegura na gestação. O mesmo texto separa isso do uso como tempero em alimento, que trata como provavelmente seguro.
Conclusão de conduta, sem meio-termo: na gestação e na amamentação não se toma chá de canela. A justificativa muda — não é abortiva, é não testada e com relatos de dano em outro eixo —, o veredicto não.
O contraste que mostra que a regra é por espécie
No mesmo Formulário, a camomila é permitida na gestação, com uma ressalva apenas sobre aplicação no mamilo. Duas plantas, o mesmo documento, veredictos opostos — porque a decisão é tomada monografia por monografia, conforme o dado que existe para cada uma.
Se a dúvida for sobre o bebê depois do nascimento, a resposta está em canela para crianças. A lista completa de quem não deve usar está em quem não pode tomar canela, e a fórmula registrada, em chá de canela. Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e na gravidez a canela está do lado de fora.
Perguntas frequentes
E se eu já tomei chá de canela sem saber que estava grávida?
A leitura honesta dos documentos é esta: não existe relato oficial de aborto atribuído à canela, e o relatório europeu diz expressamente que aborto não foi relatado nos casos que reuniu. Isso não autoriza continuar tomando, e a conduta a partir de agora é suspender. A informação existe para tranquilizar sobre o que passou, não para liberar o que vem.
Canela na comida também está proibida na gravidez?
O Formulário regula a preparação medicinal, com massa e posologia definidas, não o tempero do bolo. O NIH separa as duas coisas do mesmo jeito: considera a canela segura nas quantidades usadas como especiaria em alimentos, e insegura em quantidades maiores na gestação. O que não tem respaldo é a xícara diária com finalidade medicinal.
Posso usar canela para induzir o parto no fim da gestação?
Não há nada nos documentos oficiais que sustente isso. A monografia não registra ação uterina de nenhum tipo, nem para provocar nem para inibir contração, e a contraindicação vale para a gestação inteira. Indução de parto é procedimento com indicação, monitorização e ambiente definidos.
Por que a lactação também entra na proibição?
Pelo mesmo motivo da gestação, e a monografia trata as duas na mesma frase: a segurança não foi estabelecida e não há dados suficientes. Não há estudo sobre passagem para o leite nem sobre efeito no lactente. É restrição por falta de informação, e ela vale enquanto a informação não existir.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT017, Cinnamomum verum J. Presl: a advertência de que o uso é contraindicado durante a gestação, a lactação e para menores de 18 anos, creditada à monografia da EMA de 2011
- European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Cinnamomum verum J.S. Presl, cortex (EMA/HMPC/246774/2009, 10 de maio de 2011): a seção 4.6, que declara que a segurança na gestação e na lactação não foi estabelecida e que, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado, e a seção 5.3, que declara que testes adequados de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade não foram realizados
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Cinnamomum verum J. S. Presl, cortex and corticis aetheroleum (EMA/HMPC/246773/2009, versão em consulta pública de 15 de julho de 2010): a seção 5.8, que registra o uso histórico como abortivo, a confusão de fontes antigas entre a canela e a Cassia fistula, o relato de metemoglobinemia, hematúria, albuminúria e cilindrúria em gestantes que ingeriram grande quantidade sem que aborto tenha sido relatado, e o achado de teratogenicidade em embrião de galinha com doses altas
- National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Cinnamon: a posição de que a canela-do-ceilão em quantidades maiores durante a gestação é considerada insegura
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026