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Guia da Saúde

Chá de canela: dose, preparo e para que serve

O chá de canela tem duas indicações registradas no Formulário de Fitoterápicos: queixas gastrointestinais leves — cólica, distensão abdominal e flatulência — e diarreia leve não infecciosa. A fórmula é 0,5 a 1 g de casca em infusão de 10 a 15 minutos, até quatro vezes ao dia, de preferência depois das refeições. É uso adulto.

A fórmula, e o que “rasurada” quer dizer

A monografia FT017 escreve a fórmula em duas linhas: casca de 0,5 a 1 g e água q.s. — quantidade suficiente. Não há volume fixado em mililitros, o que é incomum no Formulário: a maior parte das espécies traz “em 150 mL”. Aqui o documento fixa a massa da droga vegetal e deixa o volume por conta de quem prepara.

O estado da casca, ao contrário, é fixado: seca e rasurada. Rasurada quer dizer cortada em fragmentos — nem a lasca inteira que se vende como pau de canela, nem o pó fino do potinho de tempero. A superfície exposta muda a extração, e a gramatura foi escrita para esse fragmento. Se você precisa converter gramas em medida caseira, veja colher de chá em gramas e xícara de chá em gramas e mL.

O preparo, então, é: ferver a água, desligar, despejar sobre a casca rasurada, tampar, esperar de 10 a 15 minutos e coar. O infuso se toma logo depois — a monografia diz “10 a 15 minutos após o preparo”.

Os 10 a 15 minutos não estão na monografia europeia

Um detalhe que quase ninguém publica: o Formulário brasileiro credita as orientações de preparo a duas referências, Wichtl 2004 e a monografia da EMA de 2011. Aberto o documento europeu, o tempo de infusão não está lá. A EMA escreve apenas “0,5-1 g comminuted herbal substance as an infusion, up to 4 times daily” — quantidade e frequência, sem cronômetro.

Ou seja: a gramatura e o número de vezes ao dia são idênticos nos dois documentos, mas os 10 a 15 minutos vêm do manual de Wichtl, não do regulador europeu. Isso não invalida o número — é o tempo que o Formulário brasileiro adotou e o que vale para quem prepara aqui. Só significa que quem quiser conferir a origem precisa procurar na referência certa.

As duas indicações registradas — e as que não existem

O que consta como indicação, com todas as letras, é isto:

Indicação registradaCategoriaLimite de uso
Queixas gastrointestinais leves: cólicas, distensão abdominal, flatulênciauso tradicionalreavaliar em 2 semanas
Alívio sintomático da diarreia leve não infecciosauso tradicionalreavaliar em 2 dias

As duas são de uso tradicional — e no caso da canela isso é mais forte do que o normal. Na monografia europeia, a coluna “well-established use” está vazia da primeira à última seção: composição, forma farmacêutica, indicação, posologia, farmacodinâmica, tudo em branco do lado do uso bem estabelecido. O texto fecha a questão em uma frase: “The product is a traditional herbal medicinal product for use in a specified indications exclusively based upon long-standing use”.

Fora dessas duas linhas não há indicação registrada. Não há dose para emagrecer, não há dose para glicemia e não há dose para ciclo menstrual em nenhum dos dois documentos. O NIH americano chega ao mesmo lugar por outro caminho: “Research doesn’t clearly support using cinnamon for any health condition”. As páginas deste site tratam das duas queixas que existem — canela para cólica intestinal e canela para diarreia.

Ceilão ou cássia: a monografia é de uma espécie só

O documento é sobre Cinnamomum verum, a canela-do-ceilão, que o NIH chama de canela “verdadeira”. A canela mais comum no comércio é outra: Cinnamomum aromaticum, a canela-cássia ou canela-da-china. As duas são vendidas com o mesmo nome popular e o mesmo aspecto de pó marrom, mas só uma tem monografia — e a diferença entre elas tem consequência prática, tratada em canela: efeitos colaterais.

A composição nutricional da canela usada como tempero, com calorias e minerais por colher, está em canela: quantas calorias tem uma colher de chá. Antes de começar, confira quem não pode tomar canela: a lista inclui uma contraindicação que não aparece em nenhuma outra planta do Formulário. Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — é o que este site publica espécie por espécie em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Pau de canela inteiro serve, ou tem de ser em pó?

Nenhum dos dois é exatamente o que está escrito. A fórmula pede casca seca e rasurada — cortada em fragmentos, um estado intermediário entre a lasca inteira e o pó fino. O pau inteiro cede pouco em 15 minutos de infusão; o pó ultrafino atravessa o coador. Fragmento é o que a monografia especifica, e é sobre ele que a gramatura foi escrita.

Quantas xícaras posso tomar por dia?

Até quatro preparos ao dia, cada um com 0,5 a 1 g de casca. O teto de vezes é da monografia; o que ela não faz é somar isso com a canela que você põe no café, na fruta ou no bolo. A regra do documento vale para a preparação medicinal, e a instrução que acompanha é não usar acima da dose recomendada.

Chá de canela ajuda a controlar a glicose?

A revisão Cochrane de 2012 reuniu 10 ensaios randomizados com 577 pessoas com diabetes tipo 1 e tipo 2 e concluiu que a evidência é insuficiente para sustentar o uso. Não houve diferença significativa em hemoglobina glicada, insulina sérica ou glicemia pós-prandial, e o efeito sobre a glicemia de jejum ficou inconclusivo. O NIH resume a mesma coisa: não está claro se a canela ajuda no diabetes.

Por quanto tempo posso tomar?

Depende da queixa, e os dois prazos são curtos. Para sintoma digestivo, se persistir por mais de duas semanas durante o uso, o tratamento deve ser suspenso e um médico consultado. Para diarreia, o limite cai para dois dias. São prazos de reavaliação, não de renovação automática.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT017, Cinnamomum verum J. Presl: a fórmula de 0,5 a 1 g de casca com água q.s., a orientação de preparar por infusão durante 10 a 15 minutos com a casca seca e rasurada, o modo de usar oral até quatro vezes ao dia, a recomendação de tomar após as refeições e as duas indicações registradas (queixas gastrointestinais leves e diarreia leve não infecciosa)
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Cinnamomum verum J.S. Presl, cortex (EMA/HMPC/246774/2009, 10 de maio de 2011): a posologia de 0,5 a 1 g de droga vegetal rasurada em infusão até quatro vezes ao dia, a ausência de tempo de infusão no texto europeu, a coluna de uso bem estabelecido vazia em todas as seções e a frase de que o produto se baseia exclusivamente no uso prolongado
  3. National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Cinnamon: a distinção entre a canela-do-ceilão (Cinnamomum verum) e a canela-cássia (Cinnamomum aromaticum), a posição de que a pesquisa não sustenta claramente o uso da canela para nenhuma condição de saúde e a incerteza sobre diabetes e perda de peso
  4. Leach MJ, Kumar S — Cinnamon for diabetes mellitus (Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012; CD007170): a revisão de 10 ensaios randomizados com 577 participantes, a dose média de 2 g ao dia de preparações predominantemente de Cinnamomum cassia e a conclusão de que a evidência é insuficiente para sustentar o uso da canela no diabetes tipo 1 ou 2

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026