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Guia da Saúde

Castanha-da-índia e remédios: 3 vetos, e um vazio

O Formulário de Fitoterápicos veta três combinações com a castanha-da-índia: anticoagulantes orais, outros medicamentos com atividade anticoagulante e fármacos potencialmente nefrotóxicos, com a gentamicina citada como exemplo. A monografia europeia da mesma planta preenche a seção de interações com duas palavras — nenhuma relatada — nas duas colunas e nas duas partes da planta. Essa distância entre os documentos é o assunto desta página, e ela não afrouxa a regra brasileira.

As três advertências brasileiras, e a fonte de cada uma

O detalhe que muda a leitura é que nenhuma das três advertências é creditada à EMA. O Formulário cita outras fontes, e vale ver quais:

AdvertênciaO documento dizFonte citada pelo Formulário
Anticoagulantes oraisnão administrar junto; pode potencializar o efeitobula padrão brasileira
Outros medicamentos com atividade anticoagulantenão utilizar concomitantementebula padrão brasileira
Fármacos nefrotóxicos, como a gentamicinanão administrar juntoBlumenthal (1998), Mills e Bone (1999), OMS (2004)
Interferência na distribuição de outros fármacos86 a 94% da escina ligam-se a proteínas plasmáticasbula padrão brasileira, 2014

São referências de compêndio e de bula, algumas com quase três décadas. Isso não as invalida — o conhecimento de farmacologia de plantas se sustenta bastante em fontes desse tipo —, mas explica por que elas não aparecem no texto europeu, que trabalha com um critério de evidência diferente.

O que significa “86 a 94% ligam-se às proteínas plasmáticas”

Esse é o número mais citado e o menos explicado das advertências. Ele diz que a maior parte da escina que entra na circulação viaja presa a proteínas do sangue, principalmente à albumina, e que só a fração livre é a farmacologicamente ativa.

A consequência que o Formulário aponta é de competição: a escina pode interferir com a distribuição de outros fármacos que também circulam altamente ligados. Medicamentos com margem terapêutica estreita são os que mais sentem esse tipo de deslocamento, e os anticoagulantes orais clássicos estão exatamente nessa categoria.

Vale registrar o limite dessa explicação: a monografia europeia da semente preenche a seção de propriedades farmacocinéticas com a frase “nenhum dado relevante disponível”. Ou seja, o raciocínio de ligação proteica está no documento brasileiro, mas não há estudo de cinética humana no documento europeu para confirmá-lo ou negá-lo. O tema geral, com outras espécies, está em interações entre chá e remédio.

A seção 4.5 europeia está vazia — e isso não é permissão

Nas duas monografias europeias, da semente e da casca, a seção de interações tem uma linha só: nenhuma relatada. Inclusive na revisão da casca publicada em novembro de 2023, a mais recente dos dois lados do Atlântico.

“Nenhuma interação relatada” quer dizer que a revisão não encontrou relato publicado que sustentasse uma advertência formal — o mesmo tipo de vazio que aparece na farmacocinética e nos estudos de toxicidade reprodutiva descritos em castanha-da-índia na gravidez. Não quer dizer que a combinação foi testada e considerada segura. Quando um documento adverte e o outro se cala, o que está em jogo é o padrão de prova de cada um, e a conduta prudente é a do que adverte.

Na prática brasileira, portanto: as três combinações vetadas pelo Formulário seguem vetadas.

O que fazer se você toma medicamento contínuo

  • Não interrompa anticoagulante, anti-hipertensivo ou qualquer medicamento contínuo para poder usar a planta. A troca não é equivalente, e a interrupção tem risco próprio.
  • Leve a lista completa — receitas, produtos de venda livre, chás e suplementos — a quem prescreve. É a orientação que o próprio NIH dá a quem usa produto de origem vegetal junto com medicamento.
  • Se você faz controle de INR, informe antes de começar qualquer produto novo, e não depois do próximo exame.
  • Se toma antibiótico da família dos aminoglicosídeos, como a gentamicina, ou qualquer medicamento com alerta renal, a combinação está entre as que o Formulário veta. O tema, ampliado, está em planta medicinal faz mal ao rim.

Procure atendimento se aparecer sangramento que não para, sangue nas fezes ou na urina, hematomas sem trauma ou queda importante do volume de urina. As demais restrições da planta estão em quem não pode tomar castanha-da-índia, e o panorama da espécie em castanha-da-índia: para que serve.

Perguntas frequentes

Quem toma varfarina pode usar o gel de castanha-da-índia?

A advertência do Formulário é sobre administração conjunta com anticoagulantes orais e não separa a via. Como o gel e a pomada também carregam extrato de semente, a decisão não é de leitura de rótulo: é de conversa com quem acompanha a anticoagulação, que conhece a meta de INR e o histórico de sangramento.

Castanha-da-índia corta o efeito do anticoncepcional?

Não há registro disso em nenhuma das monografias, brasileira ou europeia. A interação descrita para a planta é com anticoagulantes orais e com fármacos nefrotóxicos, por dois mecanismos diferentes. Ausência de registro não é garantia, mas é o que os documentos oficiais trazem hoje.

Posso tomar junto com anti-inflamatório?

Anti-inflamatórios não estão nomeados nas advertências. O que merece atenção é a soma com qualquer medicamento que aumente risco de sangramento e o uso prolongado de anti-inflamatórios em quem já tem função renal comprometida, situação em que a própria planta exige avaliação médica prévia.

E os suplementos, precisam entrar na conta?

Precisam. Vitamina E em dose alta, óleo de peixe e outras ervas com efeito sobre coagulação entram na mesma conversa dos anticoagulantes. A regra prática é levar à consulta a lista completa do que se toma, incluindo o que foi comprado sem receita, porque o profissional só avalia o que enxerga.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT003 (córtex) e FT004 (semente) de Aesculus hippocastanum L.: a advertência de que não deve ser administrado juntamente a anticoagulantes orais por poder potencializar o efeito anticoagulante, o dado de que cerca de 86 a 94% de escina se ligam às proteínas plasmáticas podendo interferir com a distribuição de outros fármacos, atribuído à bula padrão brasileira de 2014, e a advertência de não administrar com fármacos potencialmente nefrotóxicos como a gentamicina, atribuída a Blumenthal e colaboradores (1998), Mills e Bone (1999) e à OMS (2004)
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Aesculus hippocastanum L., semen (EMA/HMPC/638242/2018, revisão 1, 2020), seções 4.5 e 5.2: a entrada de interações preenchida com nenhuma relatada tanto na coluna de uso bem estabelecido quanto na de uso tradicional, e a seção de propriedades farmacocinéticas preenchida com nenhum dado relevante disponível
  3. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Aesculus hippocastanum L., cortex (EMA/HMPC/596130/2022, revisão 1, 2023), seção 4.5: a entrada de interações da casca também preenchida com nenhuma relatada, na revisão de novembro de 2023
  4. National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Horse Chestnut: Usefulness and Safety: a recomendação de conversar com o profissional de saúde antes de usar qualquer produto de origem vegetal quando se toma algum medicamento, porque ervas e medicamentos podem interagir de formas prejudiciais

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026