Chá faz mal ao rim? O caso que a Anvisa proibiu
Algumas fazem, e existe um caso documentado o bastante para ter virado proibição. O gênero Aristolochia está no Anexo I da Instrução Normativa nº 410, de 17 de dezembro de 2025 — a lista de espécies que não podem entrar em medicamento tradicional fitoterápico no Brasil. A agência de câncer da Organização Mundial da Saúde classifica plantas contendo ácido aristolóquico no Grupo 1: carcinogênicas para humanos.
O episódio belga: 39 pacientes, 18 cânceres
O motivo dessa proibição foi um acidente industrial, e é isso que torna o caso tão instrutivo. Entre 1990 e 1992, uma clínica de emagrecimento em Bruxelas prescreveu pílulas com ervas chinesas. Por erro de fabricação, uma das ervas — Stephania tetrandra — foi inadvertidamente substituída por Aristolochia fangchi. As duas têm nomes chineses parecidos.
O resultado foi descrito no New England Journal of Medicine em 2000. Depois que apareceu uma lesão neoplásica em uma transplantada renal, a equipe propôs a retirada profilática dos rins e ureteres nativos de todos os pacientes com nefropatia terminal por erva chinesa. Entre os 39 pacientes que aceitaram a cirurgia:
- 18 tinham carcinoma urotelial — prevalência de 46% (intervalo de confiança de 95%: 29% a 62%);
- 19 dos restantes tinham displasia urotelial leve a moderada;
- apenas 2 tinham urotélio normal;
- todas as amostras analisadas continham adutos de DNA relacionados ao ácido aristolóquico;
- a dose acumulada foi fator de risco significativo, com totais acima de 200 g de aristolóquia associados a risco maior.
Não era planta desconhecida usada de forma exótica. Era erva trocada por outra parecida — exatamente o que acontece quando a matéria-prima não tem identificação botânica confiável. É por isso que o parágrafo único do artigo 2º da IN nº 410/2025 estende a proibição às sinonímias botânicas das espécies citadas: o nome popular não basta.
No Brasil, o gênero Aristolochia é conhecido por nomes como cipó-mil-homens e papo-de-peru, e tem dezenas de espécies nativas. Asarum spp., outro gênero com ácido aristolóquico, também está no Anexo I.
Treze monografias falam de rim — e nenhuma promete proteção
Das 85 monografias do Formulário de Fitoterápicos, 13 mencionam rim, função renal ou nefropatia. Em todas, a menção é de cautela ou contraindicação, nunca de benefício renal comprovado. Os casos mais úteis:
| Espécie | O que a monografia registra |
|---|---|
| Estigma de milho (Zea mays) | “Não utilizar como diurético em caso de edema decorrente de insuficiência renal ou cardíaca, salvo em caso de prescrição médica”; evitar em síndrome nefrótica |
| Cavalinha (Equisetum arvense) | não recomendada quando a ingestão de líquidos deva ser reduzida, como em doença cardíaca ou renal severa e obstrução das vias urinárias |
| Cranberry (Vaccinium macrocarpon) | quem tem litíase urinária, insuficiência renal ou pielonefrite só deve usar após consultar médico |
| Dente-de-leão (Taraxacum officinale) | pessoas com patologias renais devem evitar, pelo risco de hipocalemia |
| Salgueiro (Salix spp.) | contraindicado em comprometimento renal ou hepático e em menores de 18 anos |
| Hortelã-pimenta (Mentha x piperita) | em altas dosagens, associada a nefrite intersticial e insuficiência renal aguda |
| Castanha-da-índia (Aesculus hippocastanum) | não administrar com fármacos potencialmente nefrotóxicos, como a gentamicina |
| Camomila (Matricaria chamomilla) | interações via CYP450 relatadas após transplante renal, com altas doses por cerca de dois meses |
A tabela inverte o senso comum de duas maneiras. Primeiro: o chá diurético é justamente o que tem contraindicação em doença renal. Segundo: a espécie mais associada a “limpar o rim” no Brasil, a cavalinha, tem a advertência mais restritiva de todas nesse ponto. O detalhamento está em cavalinha e em chá de cavalinha.
Por que o rim é vulnerável a isso
O rim recebe cerca de um quinto do sangue bombeado a cada batimento e concentra na urina o que filtra. Substância diluída no sangue pode chegar concentrada ao túbulo renal — é a mesma razão pela qual muitos medicamentos comuns têm ajuste de dose por função renal. Quanto o órgão filtra por dia está em quantos litros de sangue os rins filtram por dia, e o que ele faz além de filtrar está em para que servem os rins.
Some-se a isso o efeito de perda de potássio de espécies diuréticas usadas por semanas — quatro monografias citam hipocalemia — e a interação com digitálicos que a monografia da cavalinha registra, “devido à perda de potássio associada ao efeito diurético”.
Regras práticas
- Não use planta para tratar doença renal. Nenhuma das 85 monografias tem indicação registrada para insuficiência renal.
- Não trate inchaço com chá. Edema é sintoma, e pode ser de rim, coração ou fígado.
- Desconfie de erva importada sem identificação botânica, principalmente em fórmulas de emagrecimento. Foi assim que a nefropatia belga aconteceu.
- Se você usa medicamento contínuo, principalmente diurético, digitálico, imunossupressor ou antibiótico nefrotóxico, trate qualquer chá medicinal como interação em potencial.
O quadro geral do risco em planta medicinal está em planta medicinal é segura?; o outro órgão-alvo clássico, em chá faz mal ao fígado?.
Quando procurar serviço de saúde
Procure atendimento no mesmo dia se, durante o uso de qualquer chá, aparecer: sangue na urina, dor ao urinar, febre com dor lombar, redução importante do volume de urina, inchaço de pernas ou rosto que não cede. A monografia da cavalinha e a do dente-de-leão listam exatamente esses sinais — febre, disúria, cólica e hematúria — como motivo para consultar médico.
Suspenda o produto antes de procurar atendimento e leve a embalagem ou a erva. Em suspeita de intoxicação, o Disque-Intoxicação da Anvisa atende no 0800-722-6001, 24 horas por dia.
Perguntas frequentes
Chá diurético ajuda quem tem insuficiência renal?
É o contrário do que se imagina. A monografia do estigma de milho manda não utilizar como diurético em caso de edema decorrente de insuficiência renal ou cardíaca, salvo prescrição médica. Inchaço causado por rim doente exige diagnóstico e conduta médica, não aumento de fluxo urinário por conta própria.
Chá de cranberry previne infecção urinária em criança?
A monografia é direta ao contrário: o uso em população pediátrica é ineficaz no tratamento de doenças do trato urinário e, por isso, não recomendado. Ela também pede que quem tem litíase urinária, insuficiência renal ou pielonefrite use produtos com a espécie apenas após consultar médico.
Quem faz hemodiálise ou transplantou pode tomar chá?
Só com autorização da equipe. O Formulário registra interações via CYP450 relatadas em pacientes após transplante renal que tomaram altas doses de camomila por cerca de dois meses. Imunossupressor tem margem estreita, e qualquer coisa que altere seu metabolismo pode custar o enxerto.
Beber muito chá sobrecarrega o rim de quem é saudável?
Xícara ocasional de espécie alimentar não é o problema. O que as monografias sinalizam é outra coisa: uso diário prolongado de espécie diurética pode causar perda de potássio, e quatro monografias citam hipocalemia. Em quem usa diurético ou digitálico, essa perda deixa de ser detalhe.
Fontes
- IARC Monographs Volume 100A (International Agency for Research on Cancer / WHO) — Plants Containing Aristolochic Acid: a avaliação final de que plantas contendo ácido aristolóquico são carcinogênicas para humanos (Grupo 1) e a série belga de pacientes com nefropatia submetidos a nefroureterectomia profilática
- Nortier JL, Martinez MC, Schmeiser HH, Arlt VM, Bieler CA, Petein M, et al. Urothelial carcinoma associated with the use of a Chinese herb (Aristolochia fangchi). N Engl J Med 2000;342(23):1686-92 (PMID 10841870) — os 18 carcinomas uroteliais entre 39 pacientes operados, a substituição acidental de Stephania tetrandra por Aristolochia fangchi em pílulas para emagrecer e a dose acumulada como fator de risco
- Instrução Normativa Anvisa nº 410, de 17 de dezembro de 2025 — Anexo I: a proibição de Aristolochia spp. e Asarum spp. na composição de medicamentos tradicionais fitoterápicos, com a extensão da proibição às sinonímias botânicas
- Sociedade Brasileira de Plantas Medicinais — revisão 'Aristolochia não é planta medicinal de uso interno': os nomes populares brasileiros do gênero (papo-de-peru, cipó-mil-homens), a ocorrência de dezenas de espécies no país e o histórico da nefropatia por ácido aristolóquico
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT027 (cavalinha), FT047 (camomila), FT049 (hortelã-pimenta), FT080 (cranberry) e FT084 (milho): as advertências de uso em doença renal, a contraindicação do estigma de milho como diurético em edema por insuficiência renal e a interação relatada em pacientes após transplante renal
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026