Castanha-da-índia: para que serve e por que não vira chá
A castanha-da-índia tem uma indicação registrada no Brasil: auxiliar no alívio dos sintomas de desconforto e peso nas pernas relacionados a distúrbios circulatórios venosos leves. E tem uma ausência que surpreende quem chega procurando receita: nenhuma das seis fórmulas oficiais é chá. São cápsulas, géis e pomadas — não há uma única preparação por infusão ou decocção nas duas monografias brasileiras nem nas duas europeias da espécie.
Duas monografias, duas partes da planta, seis fórmulas
O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira dedica duas monografias separadas à espécie, e elas não são intercambiáveis: a FT003 trata da casca (córtex) e a FT004, da semente. Parte diferente, preparação diferente, dose diferente.
| Monografia | Fórmula | O que é | Quanto |
|---|---|---|---|
| FT003 (casca) | única | cápsula com casca seca pulverizada | 275 mg por cápsula |
| FT004 (semente) | 1 | cápsula com extrato seco aquoso, RDE 3–6:1 | 99 mg por cápsula |
| FT004 (semente) | 2 | gel com extrato seco hidroalcoólico | 0,4% de glicosídeos triterpênicos |
| FT004 (semente) | 3 | gel com tintura da semente | 20 mL por 100 g |
| FT004 (semente) | 4 | pomada lano-vaselina com extrato seco | 0,4% de glicosídeos triterpênicos |
| FT004 (semente) | 5 | pomada lano-vaselina com tintura | 20 mL por 100 g |
Repare no que a tabela não tem: nenhuma linha com água quente, gramatura de erva por xícara ou tempo de infusão. Nas espécies que têm chá registrado, o Formulário abre um bloco chamado preparação extemporânea e fixa massa, volume e minutos — é o que acontece no chá de cavalinha. Na castanha-da-índia esse bloco não existe em nenhuma das duas monografias.
Por que a castanha-da-índia não vira chá
A razão é química e é de segurança, e as duas se somam.
A primeira: as saponinas triterpênicas responsáveis pelo efeito venoso não são obtidas jogando água fervente sobre a semente. As preparações registradas são extratos — massa de planta processada com água ou álcool e depois concentrada até uma relação droga-extrato definida. A cápsula da FT004, por exemplo, usa extrato seco aquoso com RDE de 3 a 6 para 1: são de 3 a 6 partes de semente para chegar a 1 parte de extrato. Isso não se reproduz numa xícara. A diferença entre as duas coisas está explicada em tintura e extrato.
A segunda é mais direta. O NIH afirma que sementes, casca, flores e folhas cruas da castanha-da-índia são inseguras por via oral porque contêm um componente tóxico, e que os extratos padronizados — dos quais esse componente foi removido — foram usados com segurança em pesquisa por até 12 semanas. Um chá caseiro é, por definição, planta crua em água. Quem procura por “chá de castanha-da-índia” está procurando a única forma da planta que nenhum documento registra e que o NIH classifica como insegura.
A escina, e o número que mudou sem que a dose mudasse
A castanha-da-índia é vendida com o teor de escina estampado no rótulo, e aqui há uma armadilha de leitura que vale entender antes de comparar produtos.
A monografia europeia da semente explica: em 2017, a Farmacopeia Europeia trocou o método de dosagem dos glicosídeos triterpênicos nas monografias 1829 (do extrato) e 1830 (da droga vegetal). Saiu o ensaio de absorção, entrou a cromatografia líquida, e o referencial de cálculo passou de escina para protoescigenina. O efeito no papel:
- o extrato padronizado, antes declarado com 16 a 28% de glicosídeos triterpênicos como escina, passou a ser declarado com 6,5 a 10% calculados como protoescigenina;
- a dose, antes descrita como 50 mg de glicosídeos como escina duas vezes ao dia, passou a ser 21 mg calculados como protoescigenina duas vezes ao dia.
É a mesma dose com dois nomes. O documento faz a conversão explicitamente, em nota de rodapé, e essa é a única equivalência com fonte: não dá para converter escina em massa de semente por conta própria. Vale registrar ainda que o Formulário brasileiro não expressa dose em escina em lugar nenhum — a escina só aparece nas advertências, na frase sobre ligação a proteínas plasmáticas descrita em castanha-da-índia e remédios.
O que o Brasil trouxe da Europa, e o que ficou lá
A monografia europeia da semente tem duas colunas: uso bem estabelecido, sustentado por ensaios clínicos, e uso tradicional, sustentado por tempo de mercado. E a castanha-da-índia é uma das poucas plantas do Formulário em que a coluna de uso bem estabelecido está preenchida.
| Uso bem estabelecido (EMA) | Uso tradicional (EMA) | Veio para o Brasil? | |
|---|---|---|---|
| Indicação | tratamento da insuficiência venosa crônica | alívio de desconforto e peso nas pernas | só a tradicional |
| Preparação oral | extrato seco, etanol 40–80%, padronizado | extrato seco aquoso, RDE 3–6:1 | só a aquosa |
| Dose | 21 mg de glicosídeos, 2 vezes ao dia | 99 mg de extrato, 2 vezes ao dia | só a de 99 mg |
| Prazo | pelo menos 4 semanas até haver efeito | procurar médico após 2 semanas | só o de 2 semanas |
A cápsula da FT004 é, letra por letra, a preparação i da coluna tradicional europeia: extrato seco aquoso com RDE 3–6:1, 99 mg duas vezes ao dia, dose diária de 198 mg. O extrato padronizado da coluna de uso bem estabelecido — o que a meta-análise avaliou — não foi reproduzido no Brasil. O desdobramento clínico disso está em castanha-da-índia para má circulação.
A monografia da casca brasileira reproduz um texto que a Europa já substituiu
A FT003 cita como fonte a monografia europeia da casca de 2012, e copia a posologia dela: 275 mg, de três a seis vezes ao dia. Só que a EMA revisou esse documento em 22 de novembro de 2023, e a versão vigente traz outros números:
- casca pulverizada: 550 mg, de duas a três vezes ao dia — dose diária de 1.100 a 1.650 mg;
- uma preparação nova, extrato seco aquoso RDE 7,0–8,5:1, 200 mg duas vezes ao dia;
- uma segunda indicação: alívio sintomático de coceira e ardor associados a hemorroidas, depois que um médico tiver excluído condições graves.
O Formulário brasileiro, publicado em 2026, fica com a dose de 2012, cujo piso diário — 825 mg — é mais baixo que o piso europeu atual, e não registra o extrato aquoso de casca. Sobre hemorroidas há um detalhe curioso: a indicação não atravessou, mas a advertência atravessou. A seção de advertências da FT003 manda procurar médico “se no uso para alívio dos sintomas relacionados a hemorroidas ocorrer sangramento retal” — uma frase que cuida de um uso que a própria monografia não autoriza.
Quando parar e procurar um serviço de saúde
As duas monografias listam sinais que pedem avaliação antes de continuar com a planta: inflamação da pele, tromboflebite, varicoses, endurecimento subcutâneo, dor, úlceras, edema súbito de uma ou de ambas as pernas, insuficiência cardíaca ou renal. Inchaço em uma perna só, com dor, calor ou vermelhidão, é o quadro que mais exige pressa — as causas possíveis estão em inchaço nas pernas: causas.
A lista completa de quem fica de fora está em quem não pode tomar castanha-da-índia, e o índice das espécies já publicadas, em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Castanha-da-índia e castanha portuguesa são a mesma coisa?
Não são nem parentes próximas. A castanha-da-índia é a semente da Aesculus hippocastanum, uma árvore do sudeste da Europa, e o NIH descreve suas sementes como parecidas com as da castanha comestível, porém de sabor amargo. É exatamente essa semelhança que produz casos de confusão alimentar registrados em centros antiveneno.
Precisa de receita para comprar castanha-da-índia?
As formulações do Formulário são feitas em farmácia de manipulação e seguem a prescrição. Já os produtos industrializados registrados como fitoterápicos têm a categoria de venda definida na bula. Em qualquer caso, o rótulo precisa declarar a parte da planta, o solvente do extrato e a relação droga-extrato, porque é isso que define a dose.
Qual a diferença entre a cápsula e o gel de castanha-da-índia?
Além da via, muda a idade e a indicação. A cápsula de extrato de semente é de uso exclusivamente adulto e serve ao desconforto nas pernas. O gel e a pomada servem também aos sinais de contusão, e nessa segunda indicação são liberados a partir dos 12 anos. São documentos diferentes dentro da mesma monografia.
A castanha-da-índia é a mesma coisa que escina?
Escina é o nome do conjunto de saponinas triterpênicas da semente, usado historicamente para padronizar extratos. A Farmacopeia Europeia trocou esse referencial em 2017: o teor passou a ser calculado como protoescigenina, por cromatografia líquida, e os números do rótulo mudaram sem que a dose real mudasse.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT003, Aesculus hippocastanum L. (córtex), e FT004, Aesculus hippocastanum L. (semente): a cápsula de 275 mg de casca seca pulverizada tomada de três a seis vezes ao dia, a cápsula de 99 mg de extrato seco aquoso de semente com dose diária de 198 mg, os quatro semissólidos de uso externo com 0,4% de glicosídeos triterpênicos ou 20 mL de tintura por 100 g, a indicação de alívio do desconforto e peso nas pernas em distúrbios circulatórios venosos leves e a ausência de qualquer preparação por infusão ou decocção nas duas monografias
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Aesculus hippocastanum L., semen (EMA/HMPC/638242/2018, revisão 1, 15 de janeiro de 2020): a coluna de uso bem estabelecido para insuficiência venosa crônica, o extrato seco padronizado em 6,5 a 10% de glicosídeos triterpênicos calculados como protoescigenina, a dose de 21 mg desses glicosídeos duas vezes ao dia, a nota de que a mesma dose era antes declarada como 50 mg de escina pelo método fotométrico e o prazo de pelo menos quatro semanas até qualquer efeito benéfico
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Aesculus hippocastanum L., cortex (EMA/HMPC/596130/2022, revisão 1, 22 de novembro de 2023): a posologia revisada de 550 mg de casca pulverizada de duas a três vezes ao dia, o extrato seco aquoso de 200 mg duas vezes ao dia e a segunda indicação, de alívio sintomático de coceira e ardor associados a hemorroidas depois de excluídas condições graves por médico
- National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Horse Chestnut: Usefulness and Safety: a afirmação de que sementes, casca, flores e folhas cruas da castanha-da-índia são inseguras por via oral por conterem um componente tóxico, e de que os extratos padronizados de semente, dos quais esse componente foi removido, foram usados com segurança em pesquisa por até 12 semanas
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026