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Guia da Saúde

Cavalinha: efeitos colaterais e casos já relatados

As reações registradas para a cavalinha são poucas e específicas: desconforto gastrintestinal leve por via oral e reações alérgicas — rash e inchaço da face — nas duas vias. A monografia europeia acrescenta um dado que muda a leitura de todas elas: a frequência é desconhecida em todos os casos. Há ainda duas advertências brasileiras que dependem do tempo de uso, e é nelas que mora a parte interessante.

O que está listado, e com que peso

ReaçãoViaFrequência declarada
Queixas gastrintestinais levesoralnão conhecida
Reação alérgica: rash e inchaço da faceoral e externanão conhecida
Superdosenenhum caso relatado

“Frequência não conhecida” não é rodeio de linguagem: significa que não existe base de dados que permita dizer se isso acontece com uma pessoa em cem ou uma em cem mil. É o padrão de quase toda planta de uso tradicional, e é honesto que esteja escrito.

O Formulário brasileiro acrescenta três advertências que a lista europeia de reações não traz: carência de vitamina B1 em caso de excesso, hipocalemia com uso prolongado e, para o uso externo, rash cutâneo e edema facial.

Os casos que existem, um a um

O que sustenta a lista acima são relatos individuais, e vale conhecê-los pelo tamanho real que eles têm — nenhum é uma estatística:

  • inchaço de mão e rosto: mulher de 28 anos, após dois dias de uso oral de cápsulas com 225 mg de extrato seco, três vezes ao dia. Recuperou-se com o tratamento dos sintomas (caso 10032351 da base de farmacovigilância alemã);
  • reação alérgica local após banho com a planta (caso 91009533);
  • rash após consumo oral que, em reexposição, não se confirmou — o caso foi considerado não relacionado ao produto (caso 03015301);
  • náusea, diarreia, distúrbio do sono e cansaço em duas pessoas idosas depois de tomar chá; a adulteração por Equisetum palustre foi descartada, mas o caso foi julgado insuficientemente documentado para se atribuir à planta (caso 97001924);
  • dermatite em mãos e rosto em pessoa com histórico de reação atópica à nicotina do cigarro que tinha contato regular com a erva — a hipótese dos autores é a nicotina descrita na composição da planta;
  • hepatite aguda grave em homem de 52 anos com doença hepática crônica por hepatite B, que bebeu 500 mL por dia de suco fervido da planta durante duas semanas — cerca de oito vezes a dose diária tradicional dessa preparação. As provas de função hepática voltaram ao valor anterior oito semanas depois de suspender.

A conclusão dos avaliadores europeus, depois de examinar todos: não recomendar rotulagem de hepatotoxicidade no momento. O que não significa “não faz nada” — significa que o único caso bem descrito envolvia oito vezes a dose e um fígado já doente.

A contradição do potássio: hipo num documento, hiper no outro

Aqui está a divergência mais concreta entre as duas fontes, e ela merece ser publicada como é.

FonteO que adverte sobre potássio
Formulário da Anvisao uso prolongado pode causar hipocalemia — potássio baixo
Relatório da EMAcautela em quem tem manejo renal de potássio comprometido, pelo risco de hipercalemia — potássio alto —, porque a planta contém grande quantidade de potássio
Ensaio clínico (4 dias, 36 voluntários)nenhum efeito significativo sobre a excreção urinária de sódio e potássio

São três posições diferentes sobre o mesmo eletrólito. Elas não são irreconciliáveis: o risco de queda vem do efeito diurético mantido por semanas, o risco de alta vem do potássio contido na própria planta somado a um rim que não o elimina bem, e o ensaio mediu apenas quatro dias em gente saudável — tempo curto demais para testar qualquer das duas hipóteses.

Nada disso afrouxa a conduta. Pelo contrário: os dois riscos apontam para a mesma pessoa — quem tem doença renal não usa cavalinha, seja porque não elimina o potássio que a planta traz, seja porque não tolera a perda que o uso prolongado pode causar. E quem usa por semanas está no território onde nenhuma das duas hipóteses foi medida. Os alimentos que mais contribuem para esse eletrólito estão em tabela de alimentos ricos em potássio, e o que a falta dele costuma provocar, em cãibra por falta de magnésio ou potássio.

O inchaço no rosto não é exclusividade do uso externo

Uma diferença sutil entre os textos vale correção. O Formulário brasileiro coloca rash cutâneo e edema facial sob o título “cuidados adicionais em relação ao uso externo”, o que dá a entender que só quem usa a compressa corre esse risco.

A monografia europeia registra as reações alérgicas — rash e inchaço da face — para a indicação 1 e a indicação 2, isto é, também para quem bebe. E o caso mais bem documentado de inchaço de rosto na base alemã foi por cápsula, via oral, não por compressa. Quem toma o chá ou a cápsula deve conhecer esse sinal tanto quanto quem aplica na pele.

Quando suspender

O Formulário é direto: em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso e consultar um médico. E há sinais que pedem avaliação mesmo sem parecerem reação ao produto — febre, disúria, cólica ou sangue na urina durante o uso, e sinais de infecção de pele quando se usa a fórmula externa. O motivo de esses quatro sintomas estarem ali está explicado em cavalinha para infecção urinária.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação. As interações com medicamentos estão em cavalinha e remédios, e a ficha completa da espécie em cavalinha.

Perguntas frequentes

Cavalinha faz mal ao fígado?

A monografia europeia decidiu não incluir advertência de hepatotoxicidade. Existe um relato de hepatite grave, mas em circunstância extrema: um homem com doença hepática crônica por hepatite B que bebeu 500 mL por dia de suco fervido da planta, oito vezes a dose tradicional. No ensaio clínico, as provas de função hepática não se alteraram, e houve até queda de GGT e ALT.

Chá de cavalinha dá dor de cabeça?

No único ensaio clínico randomizado da planta, a cefaleia foi o sintoma mais frequentemente relatado — mas ocorreu em todos os grupos, inclusive no que tomava amido de milho como placebo e no que tomava hidroclorotiazida. É o tipo de sintoma que aparece em qualquer estudo e que, sozinho, não se atribui ao produto.

Quanto tempo depois de começar aparece reação?

Não há padrão registrado, e a frequência de todas as reações é declarada como desconhecida. O caso mais bem documentado de reação alérgica na base alemã aconteceu após apenas dois dias de uso oral de cápsulas de extrato seco, com inchaço de mão e de rosto que regrediu com tratamento dos sintomas.

Dá para tomar cavalinha por meses seguidos?

O uso tradicional descrito é de duas a quatro semanas, e as duas advertências mais sérias do texto brasileiro dependem justamente do tempo: a carência de vitamina B1 é ligada ao excesso, e a alteração de potássio ao uso prolongado. Passar meses tomando é sair do que qualquer um dos dois documentos descreve.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT027, Equisetum arvense L.: o registro de que a via oral pode gerar desconforto gastrintestinal e reações alérgicas, a advertência de que o excesso pode provocar carência de vitamina B1, a advertência de que o uso prolongado pode causar hipocalemia e os cuidados adicionais do uso externo, com rash cutâneo e edema facial
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Equisetum arvense L., herba: a seção 4.8, que lista queixas gastrintestinais leves na indicação oral e reações alérgicas como rash e inchaço da face nas duas indicações, sempre com frequência não conhecida, e a seção 4.9, que registra nenhum caso de superdose relatado
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Equisetum arvense L., herba: os casos individuais das bases de farmacovigilância alemã, o relato de hepatite aguda associada a 500 mL diários de suco fervido da planta, a recomendação de cautela de Perazella (2002) pelo risco de hipercalemia em quem tem manejo renal de potássio comprometido e a nota de Sandhu et al. (2010) sobre problemas digestivos com uso prolongado
  4. Carneiro DM et al. (2014), Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine 2014:760683 — ensaio randomizado duplo-cego em 36 voluntários saudáveis: a ausência de efeito significativo sobre a excreção urinária de eletrólitos, a ausência de alteração nos exames de função hepática, renal e hematológica e o registro de que a cefaleia foi o sintoma mais relatado, em todos os grupos do estudo

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026