Chá de cavalinha: dose oficial e por quanto tempo
A dose registrada é de 1 a 4 g de parte aérea estéril seca em 150 mL de água, preparada por infusão ou decocção de 5 a 15 minutos, tomada três a quatro vezes ao dia, respeitando a dose máxima diária de 3 a 12 g. É a fórmula 1 do Formulário de Fitoterápicos, e o uso tradicional descrito é de duas a quatro semanas.
Passo a passo
- Pese de 1 a 4 g da parte aérea seca e rasurada para cada 150 mL de água. Rasurada quer dizer picada — nem inteira, nem em pó.
- Escolha a técnica. Infusão: ferva a água, desligue, despeje sobre a erva e tampe. Decocção: leve erva e água ao fogo juntas e mantenha em fervura branda.
- Conte de 5 a 15 minutos. É a mesma janela para as duas técnicas.
- Coe e beba os 150 mL. A dose é a xícara, não o bule.
- Repita três a quatro vezes ao dia, sem passar de 12 g de planta no total do dia.
A conversão de peso para medida caseira está em xícara de chá em gramas e mL e colher de chá em gramas — na cavalinha ela importa mais do que o normal, porque a erva rasurada é leve e ocupa muito volume para pouco peso.
Por que aqui valem as duas técnicas
Quase toda planta do Formulário tem uma técnica só: flor e folha vão para infusão, raiz e casca para decocção. A cavalinha é uma exceção declarada — a fórmula 1 admite infusão ou decocção, com o mesmo tempo. A justificativa aparece no relatório europeu: o preparo documentado na tradição é a fervura da erva por 5 a 15 minutos, e a infusão também está tradicionalmente registrada, então o comitê recomendou as duas.
A fórmula 2, a de uso externo, é diferente e não admite escolha: 10 g em 1000 mL, só por decocção. Ela não se bebe, e o que ela trata está em cavalinha para cicatrização.
A tiaminase, o calor e a cápsula
O Formulário traz uma advertência que assusta e quase nunca é explicada: “em excesso pode provocar carência de vitamina B1 (tiamina)”. O mecanismo é uma enzima, a tiaminase, que destrói a tiamina — o mesmo problema que intoxica cavalos alimentados com feno contaminado por Equisetum.
O relatório de avaliação da EMA traz a medida que falta nessa frase. A tiaminase da cavalinha é termolábil:
| Condição | O que acontece com a enzima |
|---|---|
| Perto de 70 °C | 50% de desnaturação |
| A 80 °C | inativação total |
| Extratos secos aquosos industriais | nenhuma atividade detectada |
| Extrato fluido a 30% de álcool | nenhuma atividade detectada |
Ou seja: a água fervente do chá e o álcool do extrato desmontam a enzima. Os avaliadores europeus concluíram, por isso, que não era necessário advertir sobre tiamina nas preparações da monografia — e registraram a exceção com todas as letras: para o pó da planta, que não é aquecido nem passa por extração alcoólica, a toxicidade não pode ser excluída, embora não seja esperada nas quantidades de uso tradicional.
Isso inverte a intuição de quem escolhe entre formas. A cápsula com a planta rasurada crua — fórmula 5, de 500 a 570 mg três vezes ao dia, 1,5 a 1,7 g diários — é justamente a preparação em que a enzima chega inteira ao estômago. O chá fervido é a que menos preocupa nesse quesito específico. Isso não torna o chá inofensivo: todas as demais advertências continuam valendo, e elas estão em cavalinha: efeitos colaterais.
O ensaio clínico não foi feito com chá
Vale saber de onde vem a evidência que se costuma atribuir à xícara. O único ensaio clínico randomizado e duplo-cego do efeito diurético usou extrato seco padronizado, 900 mg por dia, dividido em três tomadas, durante quatro dias, em 36 voluntários saudáveis. Não foi chá, não foi por semanas, e não foi em pessoas com queixa urinária.
Na direção oposta, a única avaliação da infusão citada no relatório é um estudo em ratas: uma infusão de 3 g por litro foi testada quanto aos fatores de risco de cálculo renal e não produziu diferença relevante na diurese, nem alterou calciúria e citratúria. É animal, é sobre pedra nos rins e não sobre diurese em gente — mas é o que existe sobre a infusão, e é honesto dizer que a distância entre o chá e o extrato testado ainda não foi medida.
Quando parar
Duas datas importam mais que a duração total:
- uma semana: se o sintoma persistir durante o uso, a orientação é consultar um médico;
- duas a quatro semanas: é o período pelo qual as preparações são tradicionalmente usadas.
E há uma exigência de líquido que costuma passar despercebida: para preparações que não sejam chás, a monografia manda garantir ingestão satisfatória de líquidos. O sentido da indicação é lavar o trato urinário, o que só acontece bebendo mais — não menos. No chá, a água do preparo já entra nessa conta; na cápsula e no extrato, não. O raciocínio completo está em cavalinha para infecção urinária, e a ficha da espécie em cavalinha.
Perguntas frequentes
Pode tomar chá de cavalinha todos os dias?
A monografia registra um uso tradicional de duas a quatro semanas, e não um uso contínuo. Antes disso, há um limite mais curto: se o sintoma persistir por mais de uma semana durante o uso, a orientação é procurar um médico. Chá que se toma todo dia por meses saiu do que o documento descreve.
Serve cavalinha fresca, colhida na hora?
A droga vegetal registrada é a parte aérea estéril seca e rasurada, e as sete fórmulas partem dela. Há um motivo além da tradição: a tiaminase foi medida em alta presença tanto na planta fresca quanto na seca, e o material colhido por quem não sabe identificar é justamente onde entra a espécie errada.
Dá para guardar o chá pronto na geladeira?
A monografia trata de preparação extemporânea, isto é, feita na hora e tomada em seguida. Ela não autoriza guardar, e não há dado sobre o que acontece com o preparo depois de horas. A dose é a xícara de 150 mL do infuso ou decocto recém-feito.
Quantas gramas tem uma colher de cavalinha seca?
A fórmula é por peso, não por colher, e a cavalinha rasurada é leve e volumosa, o que engana a medida caseira. Para converter com alguma segurança, use as equivalências de xícara e de colher deste site antes de assumir que uma colher de sopa corresponde à dose.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT027, Equisetum arvense L.: a fórmula 1 (1 a 4 g de parte aérea em 150 mL de água), o preparo por infusão ou decocção de 5 a 15 minutos com a parte aérea estéril rasurada, a posologia de 150 mL de três a quatro vezes ao dia com dose máxima diária de 3 a 12 g e a orientação de procurar médico se os sintomas persistirem por mais de uma semana
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Equisetum arvense L., herba: a dose única de 1 a 4 g em 150 mL com dose diária de 3 a 12 g, a duração tradicional de duas a quatro semanas, a exigência de garantir ingestão adequada de líquido nas preparações que não são chá e a dose diária de 1,5 a 1,7 g da planta rasurada em forma sólida
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Equisetum arvense L., herba: a termolabilidade da tiaminase medida por Fabre et al. (1993), com inativação total a 80 °C e 50% de desnaturação perto de 70 °C, a ausência de atividade da enzima nos extratos secos aquosos industriais e no extrato fluido a 30%, e o estudo de Grases et al. (1994) com infusão de 3 g/L em ratas Wistar
- Carneiro DM et al. (2014), Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine 2014:760683 — ensaio clínico randomizado e duplo-cego do efeito diurético agudo da Equisetum arvense: o uso de extrato seco padronizado a 900 mg por dia durante quatro dias em 36 voluntários saudáveis, e não de chá
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026