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Guia da Saúde

Cavalinha: para que serve, segundo Anvisa e EMA

A cavalinha tem duas indicações registradas, e nenhuma delas é a que vende o produto no Brasil: por via oral, auxiliar no aumento do fluxo urinário em queixas urinárias menores; por via externa, auxiliar no tratamento de pequenas lesões cutâneas superficiais. Unha, cabelo, colágeno e emagrecimento não aparecem em nenhum dos dois documentos oficiais.

As duas indicações, e o degrau de evidência em que elas estão

IndicaçãoViaComo o documento a classifica
Aumentar a quantidade de urina para lavar o trato urinário, como adjuvante em queixas urinárias menoresoraluso tradicional
Tratamento de apoio de feridas superficiaisexternauso tradicional

A monografia europeia é organizada em duas colunas: uso bem estabelecido e uso tradicional. Na cavalinha, a coluna do uso bem estabelecido está vazia da primeira à última seção — não há uma linha nela. Isso significa algo específico: as duas indicações foram aceitas pelo tempo de uso documentado, não porque ensaios clínicos demonstraram eficácia. Existe um ensaio clínico com a planta, e ele está descrito em cavalinha para infecção urinária — mas não foi ele que sustentou a indicação.

O silício que quase não sai no chá

A promessa popular da cavalinha se apoia quase inteira num mineral: o silício. E aqui o relatório de avaliação da EMA traz um número que muda a conversa.

  • a planta inteira tem cerca de 5% de silício;
  • o máximo extraível em água medido experimentalmente foi de 0,3% da planta — cerca de 6% do total, em chá preparado sem fervura.

Os avaliadores registram que o alto teor de sílica não se extrai de fato fazendo chá do jeito usual, e que deixar a planta seca de molho e depois ferver por várias horas aumentaria bastante o rendimento. Só que esse não é o preparo registrado: a monografia manda infundir ou cozinhar de 5 a 15 minutos, e nada mais. Ou seja, o preparo oficial e o rendimento de silício estão em desacordo, e quem toma o chá pensando em mineral está contando com uma fração pequena do que o rótulo anuncia que a planta contém.

A resposta que a EFSA já deu sobre pele, cabelo, osso e peso

Não é que o assunto nunca tenha sido examinado. Segundo o relatório da EMA, o painel da EFSA avaliou o tema em 2009 e concluiu que a Equisetum arvense não havia sido suficientemente caracterizada para revigoramento do corpo, manutenção da pele, manutenção do cabelo, manutenção do osso e manutenção ou obtenção de peso corporal normal. Cinco alegações, cinco respostas negativas, uma delas exatamente a de peso.

Vale registrar que essas alegações já circularam por textos oficiais: um caderno da agência francesa do medicamento, de 1998, admitia a cavalinha como adjuvante em dietas de emagrecimento, complementar a medidas dietéticas. A monografia europeia de 2016 não adotou essa indicação, e o Formulário brasileiro tampouco. Quando um uso some entre uma versão e outra do documento, isso é informação, não esquecimento.

Os assuntos de cabelo e unha têm causas próprias, descritas em queda de cabelo: o que pode ser e em unha fraca e descascando: causas. Sobre o mineral que a fama associa à planta, vale ler também o que é colágeno — são coisas diferentes.

A única evidência clínica sobre unha é um produto que se passa na unha

Existe pesquisa clínica de cavalinha e unha, e ela merece ser lida com atenção ao desenho. São dois ensaios de 2006 com uma formulação de Equisetum arvense mais um doador de enxofre, em solução hidroalcoólica, aplicada sobre a unha à noite:

  • 36 mulheres com alterações da lâmina ungueal, aplicação em uma das mãos por 28 dias: redução dos sulcos longitudinais e queda de 85% nos casos de descamação lamelar da unha tratada, sem mudança significativa no controle não tratado;
  • 22 mulheres, aplicação em dias alternados por 14 dias: queda de 82% na descamação lamelar.

O relatório da EMA arquiva os dois sob a rubrica de estudos feitos com preparações diferentes das cobertas pela monografia. É uma distinção que muda tudo: passar na unha uma solução com dois ativos não é o mesmo que beber chá, e nenhuma das duas coisas virou indicação registrada. O ritmo real de crescimento da unha está em quanto a unha cresce por mês.

Uma planta sem flor, e uma parente tóxica

A cavalinha não é uma erva comum: é uma pteridófita, aparentada das samambaias, sem flor e sem semente. A droga vegetal é a parte aérea estéril — os ramos verdes, não os caules férteis que trazem os estróbilos.

Isso importa porque a identificação é difícil e o gênero tem espécies parecidas. A adulteração descrita é com E. palustre, E. hyemale, E. fluviatile e E. sylvaticum, e o problema não é só de rótulo: a E. palustre contém palustrina, um alcaloide potencialmente tóxico. A Farmacopeia Europeia traz um teste de cromatografia em camada delgada para identificar a erva e especificar a ausência da espécie errada, e o Formulário brasileiro é direto: o fitoterápico só deve ser liberado para consumo com resultado negativo nesse teste.

Um estudo de 2015 comparou os dois caminhos possíveis de checagem — a cromatografia em camada delgada da farmacopeia e o DNA barcoding — em material de herbário e em produtos comerciais. Os dois distinguem as espécies e identificam positivamente a E. arvense; a cromatografia é mais barata e mais rápida, e o barcoding é melhor para dizer qual foi o adulterante. A conclusão dos autores é confortadora e incômoda ao mesmo tempo: o método já usado pela farmacopeia funciona tão bem quanto a técnica moderna — desde que alguém o aplique.

Há ainda uma curiosidade química com consequência prática: a espécie tem dois quimiotipos. As variedades asiáticas e norte-americanas contêm luteolina-5-glicosídeo, ausente nas plantas europeias. Nem toda cavalinha do mundo tem a mesma composição de flavonoides — e a monografia foi escrita a partir do material europeu.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação. A dose e o preparo estão em chá de cavalinha, a lista de quem deve evitar em quem não pode tomar cavalinha, e o índice das espécies já publicadas em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Cavalinha e cauda-de-cavalo são a mesma planta?

São. A monografia europeia lista os nomes populares em cada idioma e registra cavalinha como o nome português, cola de caballo como o espanhol e horsetail como o inglês. Todos designam a mesma espécie, Equisetum arvense. O nome vem do formato da parte aérea, ramificada em verticilos que lembram a cauda do animal.

A cavalinha tem nicotina?

O relatório de avaliação da EMA descreve pequenas quantidades de nicotina entre os alcaloides da planta, junto de 3-metoxipiridina, com a ressalva de que as fontes se contradizem no ponto. Isso tem uma consequência prática registrada: há relato de reação de pele em pessoa com histórico de atopia à nicotina do cigarro que manuseava a erva.

O chá e a cápsula de cavalinha são a mesma coisa?

Não. O Formulário registra sete fórmulas diferentes: chá, dois extratos fluidos e três cápsulas, cada uma com dose própria. As cápsulas de extrato seco trabalham com 600 a 1.110 mg por dia, os extratos fluidos são de uso exclusivamente adulto, e só o chá tem a água do próprio preparo entrando na conta do líquido ingerido.

Cavalinha precisa de receita?

A droga vegetal seca vendida a granel não exige receita. Já o produto industrializado registrado como fitoterápico tem a categoria de venda definida na bula. Independente disso, o Formulário exige que a matéria-prima passe por teste de detecção de adulteração e só seja liberada para consumo com resultado negativo para Equisetum palustre.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT027, Equisetum arvense L.: as sete fórmulas registradas, a indicação de auxiliar no aumento do fluxo urinário, a indicação externa para pequenas lesões cutâneas superficiais, a exigência de teste de adulteração com Equisetum palustre e a advertência de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Equisetum arvense L., herba (EMA/HMPC/278091/2015): as duas indicações classificadas como uso tradicional, a coluna de uso bem estabelecido vazia da primeira à última seção, e a posologia de 1 a 4 g em 150 mL, três a quatro vezes ao dia
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Equisetum arvense L., herba (EMA/HMPC/278089/2015): o teor de silício de 5% da planta contra 0,3% de máximo extraível em água (Bye et al., 2010), a posição da EFSA de 2009 sobre pele, cabelo, osso e peso corporal, os dois ensaios de Sparavigna et al. (2006) com formulação tópica para unha, os quimiotipos e os traços de nicotina descritos na composição
  4. Saslis-Lagoudakis CH et al. (2015), Scientific Reports 5:11942 — identificação de Equisetum arvense por cromatografia em camada delgada e por DNA barcoding: a adulteração com Equisetum palustre, que produz alcaloides tóxicos, e a comparação de custo e poder de discriminação entre os dois métodos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026