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Guia da Saúde

Chá de capim-limão: a proporção que a Anvisa registra

A preparação registrada do capim-limão tem quatro números, e só quatro: 1 a 3 g de folha, 150 mL de água, infusão de 5 a 10 minutos e três a quatro tomadas por dia. O quinto detalhe é o que quase ninguém segue: a monografia manda usar a folha seca.

A fórmula, transformada em medida de cozinha

O documento trabalha em gramas, e a cozinha trabalha em colheres. A conversão é o passo em que a maioria das receitas erra, porque copia um número de xícara sem saber a que peso ele corresponde.

O que a fórmula dizO que isso significa na prática
Folha: 1 a 3 ga faixa inteira cabe numa colher de sopa de folha seca picada, mas o peso varia com o corte
Água: q.s.p. 150 mLquantidade suficiente para 150 mL — o volume final, não o volume que você ferve
Infusão: 5 a 10 minutostampado, fora do fogo
3 a 4 vezes ao diacada tomada é uma preparação de 150 mL

Duas ferramentas resolvem a tradução de uma vez por todas: a equivalência de xícara de chá em gramas e mL para acertar o volume, e a de colher de chá em gramas para entender por que a mesma colher pesa coisas diferentes conforme o que está dentro dela. Pesar uma vez, em balança de cozinha, e anotar quantas colheres deram 2 g resolve o problema para sempre.

Folha seca, não folha do quintal

A frase da monografia é literal: “Devem ser utilizadas as folhas secas”. É a instrução mais ignorada da planta, porque o capim-limão é justamente a erva que se corta na hora, verde, ao lado de casa.

Isso não transforma a folha fresca em algo perigoso — transforma em algo fora da fórmula. Ao secar, a folha perde água e concentra massa: 2 g de folha seca não são 2 g de folha fresca em quantidade de planta. Quem usa a folha verde e pesa o mesmo número está tomando uma dose menor de droga vegetal do que a registrada; quem usa o mesmo punhado de folhas frescas de sempre não sabe qual dose está tomando. A faixa de 1 a 3 g só significa alguma coisa se o material for o mesmo que o documento descreve.

O abafado, e a ambiguidade dos cinco minutos

O nome técnico dessa preparação em português é abafado: água fervente despejada sobre a folha, recipiente tampado, tempo de espera. O termo não é folclórico — ele aparece na literatura científica brasileira sobre a espécie, incluindo o estudo de 1986 do Journal of Ethnopharmacology que testou exatamente essa preparação em animais.

Há um ponto do documento que merece leitura atenta, porque ele diz duas coisas que não se encaixam perfeitamente:

  • em ORIENTAÇÕES PARA O PREPARO: “Preparar por infusão, durante 5 a 10 minutos”;
  • em MODO DE USAR: “Tomar 150 mL do infuso, 5 minutos após o preparo”.

Se a infusão dura de 5 a 10 minutos, “5 minutos após o preparo” não pode ser o tempo de infusão — ou seria o mesmo número dito duas vezes, com o teto de 10 minutos virando letra morta. A leitura que respeita as duas frases é a mais conservadora: abafe de 5 a 10 minutos, coe, e beba assim que estiver morno. Nenhuma das duas instruções autoriza deixar o chá pronto esperando na garrafa.

Quantas xícaras por dia, e o teto que ninguém calcula

Multiplicar é o exercício que a monografia não faz e que muda a percepção do chá:

  • por tomada: 1 a 3 g de folha em 150 mL;
  • no máximo do máximo: 3 g × 4 tomadas = 12 g de folha por dia, em 600 mL de infuso;
  • no mínimo: 1 g × 3 tomadas = 3 g por dia, em 450 mL.

A distância entre o piso e o teto é de quatro vezes. Não existe, no documento, nenhum critério para escolher onde ficar dentro dessa faixa — o que existe é a frase “não utilizar em doses acima das recomendadas”, seguida da observação de que doses elevadas podem causar síncope e sedação. Os detalhes dessa advertência estão em capim-limão: efeitos colaterais.

Uma quinta xícara não é “reforçar o chá”. É sair da fórmula.

Antes de preparar, veja se você pode tomar

Esta é a parte que costuma vir depois da receita e deveria vir antes. O capim-limão é de uso adulto, contraindicado na gestação, na lactação e abaixo de 18 anos, e o documento também o contraindica para quem tem doença cardíaca, renal, hepática ou qualquer doença crônica — além de mandar não associar a planta a depressores do sistema nervoso central. A lista inteira, com o que sustenta cada item, está em quem não pode tomar capim-limão.

O que o chá é indicado para aliviar, e o que a pesquisa mostrou sobre cada uma dessas finalidades, está em capim-limão: para que serve e em capim-limão para cólica intestinal.

Perguntas frequentes

Pode ferver as folhas junto com a água?

A orientação do documento é infusão, que é despejar a água fervente sobre a folha e abafar. Ferver a folha dentro da água é decocção, técnica que a monografia reserva a outras partes da planta em outras espécies, como raiz e casca. Para folha rica em óleo essencial, a fervura prolongada trabalha contra: o composto aromático é volátil e sai com o vapor.

Quantas folhas correspondem a 1 grama?

A monografia não converte grama em número de folhas, e não teria como: folha larga e folha estreita, seca há uma semana ou há seis meses, pesam diferente. A única forma de acertar a faixa de 1 a 3 g é pesar uma vez, em balança de cozinha, e transformar o resultado na medida caseira que você usa todo dia.

Dá para adoçar ou misturar com outra erva?

A fórmula registrada tem dois componentes: folha e água. Qualquer outra coisa é escolha sua e sai do que o documento descreve. Misturar ervas é o ponto em que se perde o controle da dose, porque cada espécie tem faixa própria e cada uma traz sua lista de contraindicações.

Chá de capim-limão tem cafeína?

Não. O capim-limão é uma gramínea, da mesma família botânica do arroz e da cana, e não tem relação com a Camellia sinensis, a planta que dá origem ao chá preto e ao chá verde. A sensação de leveza depois da xícara não vem de estimulante.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT022, Cymbopogon citratus: a fórmula de 1 a 3 g de folha para 150 mL de água, a orientação de preparar por infusão durante 5 a 10 minutos utilizando as folhas secas, e o modo de usar de 150 mL do infuso três a quatro vezes ao dia
  2. Carlini EA, Contar JDP, Silva-Filho AR, Silveira-Filho NG, Frochtengarten ML, Bueno OF — Pharmacology of lemongrass (Cymbopogon citratus Stapf). I. Effects of teas prepared from the leaves on laboratory animals (Journal of Ethnopharmacology, 1986; 17(1):37-64): a descrição do abafado como a forma usual de uso, obtido despejando água fervente sobre as folhas frescas ou secas, e o cálculo da dose humana correspondente que permitiu testar múltiplos dela em animais

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026