Capim-limão: para que serve segundo a Anvisa
O capim-limão é reconhecido pela Anvisa como antiespasmódico, como auxiliar no alívio da cólica menstrual leve e das cólicas intestinais leves, e como auxiliar no alívio da ansiedade e da insônia leves. É o conjunto de indicações mais largo entre as plantas calmantes já publicadas aqui — e vem com a advertência mais dura de todas: uso adulto.
Quatro indicações — e uma delas nenhuma outra planta daqui tem
A seção INDICAÇÕES da FT022 é uma frase só, e vale desmontá-la:
“Como antiespasmódico, auxiliar no alívio de sintomas decorrentes da dismenorreia leve (cólica menstrual leve) e cólicas intestinais leves; como auxiliar no alívio da ansiedade e insônia leves.”
São dois territórios diferentes numa monografia só: o da musculatura lisa e o do sistema nervoso. A palavra dismenorreia, escrita com todas as letras e traduzida entre parênteses pelo próprio documento, é o que distingue esta espécie — nenhuma das outras quatro plantas já publicadas neste cluster registra cólica menstrual como indicação. O que a fonte sustenta nesse ponto está em capim-limão para cólica menstrual.
Repare também no que aparece duas vezes: auxiliar e leve. Auxiliar é coadjuvante, não tratamento. Leve delimita o quadro. As duas palavras estão em cada uma das quatro indicações.
Onde o capim-limão fica no quadro das plantas calmantes
Este cluster já publicou quatro espécies do eixo calmante, e nenhuma delas se comporta igual no documento oficial. Colocadas lado a lado:
| Planta | Ansiedade | Sono | Cólica |
|---|---|---|---|
| Camomila (FT047) | não registrada | não registrada | espasmos gastrintestinais leves |
| Erva-cidreira de arbusto (FT044) | ansiedade leve | não registrada | antiespasmódico |
| Melissa (FT048) | ansiedade leve | insônia leve | queixas gastrintestinais leves |
| Valeriana (FT082) | não registrada | indutor do sono | não registrada |
| Capim-limão (FT022) | ansiedade leve | insônia leve | intestinal e menstrual |
O capim-limão é o único da lista que cobre os três territórios ao mesmo tempo. E é justamente ele que tem o ensaio clínico mais incômodo do grupo, tratado em capim-limão para ansiedade e em capim-limão para insônia.
O capim que virou cidreira
Cymbopogon citratus é uma gramínea — família Poaceae, a mesma do arroz e da cana. Cresce em touceira, com folha longa, fina e de borda cortante. Não tem nenhum parentesco botânico com as outras plantas que o Brasil chama de cidreira, e ainda assim a monografia registra capim-cidreira entre os nomes aceitos.
O que aproxima essas plantas é química, não parentesco: todas produzem citral, o aldeído que dá o cheiro de limão. O nome popular seguiu o cheiro, e não a planta — o mapa completo das espécies vendidas com esse nome está em erva-cidreira.
A consequência prática é numérica, e é aqui que a confusão de nomes custa caro:
| Espécie | Faixa de folha por 150 mL | Tomadas por dia |
|---|---|---|
| Lippia alba | 0,4 a 0,6 g | 2 a 3 |
| Melissa officinalis | 1,5 a 4,5 g | até 3 |
| Cymbopogon citratus | 1 a 3 g | 3 a 4 |
Três monografias, três faixas que quase não se sobrepõem. A dose de uma não vale para a outra, e o teto diário do capim-limão é o mais alto dos três em número de tomadas. Sem o nome científico no rótulo, não dá para saber qual número se aplica ao saquinho que você comprou.
O respaldo é nacional
O capim-limão não tem monografia da União Europeia: o comitê de medicamentos à base de plantas da EMA não publicou avaliação da espécie, e por isso não existe aqui a distinção europeia entre uso bem estabelecido e uso tradicional que serve de segunda opinião nas outras páginas deste cluster.
O que existe é o documento brasileiro — e o que ele cita para sustentar as indicações são seis referências que, abertas uma a uma, são livros de fitoterapia, mementos e artigos de revisão. Nenhum ensaio clínico. Isso não anula a indicação registrada; localiza o que ela é: uso tradicional aceito pela autoridade nacional, não eficácia demonstrada em ensaio.
Uso adulto, e a lista de exclusão mais larga do cluster
A seção de advertências abre com duas palavras: “Uso adulto.” Em seguida contraindica a planta na gestação, na lactação e abaixo de 18 anos, por falta de dados adequados de segurança. E depois vai além do que qualquer outra monografia deste cluster faz — proíbe o uso por quem tem afecções cardíacas, renais, hepáticas ou é portador de doenças crônicas.
É uma lista larga o bastante para excluir boa parte de quem toma o chá todo dia sem pensar duas vezes. O que está por trás dela, e o quanto ela se sustenta, está em quem não pode tomar capim-limão; a proibição abaixo de 18 anos, que contraria o costume mais difundido da planta no Brasil, está em capim-limão para crianças.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e nesta as três estão escritas. A proporção do preparo fica em chá de capim-limão, as reações descritas em capim-limão: efeitos colaterais, e o índice das espécies publicadas em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Capim-santo e capim-limão são a mesma planta?
São. A monografia FT022 registra quatro nomes populares para a mesma espécie: capim-santo, capim-limão, capim-cidró e capim-cidreira. Todos designam Cymbopogon citratus, e a mesma dose e as mesmas advertências valem para os quatro nomes.
Que parte do capim-limão vai no chá?
A folha, e a monografia é específica ao dizer que devem ser utilizadas as folhas secas. A fórmula registrada é de 1 a 3 g de folha para 150 mL de água. Raiz e bulbo, que aparecem na culinária asiática, não fazem parte da preparação descrita no documento brasileiro.
Capim-limão e citronela são a mesma coisa?
Não. As duas são do gênero Cymbopogon e as duas cheiram a cítrico, mas a espécie desta monografia é Cymbopogon citratus. A citronela usada como repelente é outra espécie do gênero e não é a que o documento descreve — o que importa porque dose e advertência valem para a espécie nomeada, não para o gênero inteiro.
Existe estudo com capim-limão feito em pessoas?
Existe, e é brasileiro. Em 1986, no Journal of Ethnopharmacology, um grupo da Escola Paulista de Medicina publicou um ensaio duplo-cego com voluntários sadios que tomaram o infuso das folhas secas. O trabalho avaliou toxicidade, sono e ansiedade. É a peça de evidência humana mais relevante que existe sobre esta planta, e ela não consta na bibliografia da monografia.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT022, Cymbopogon citratus (DC.) Stapf: os quatro nomes populares aceitos, a fórmula de 1 a 3 g de folha seca em 150 mL por infusão de 5 a 10 minutos, as indicações de antiespasmódico, dismenorreia leve, cólicas intestinais leves, ansiedade e insônia leves, e as advertências de uso adulto e de contraindicação em doença cardíaca, renal, hepática e crônica
- Leite JR, Seabra ML, Maluf E, Assolant K, Suchecki D, Tufik S, Klepacz S, Calil HM, Carlini EA — Pharmacology of lemongrass (Cymbopogon citratus Stapf). III. Assessment of eventual toxic, hypnotic and anxiolytic effects on humans (Journal of Ethnopharmacology, 1986; 17(1):75-83): o ensaio duplo-cego brasileiro com voluntários sadios que não encontrou alteração laboratorial, de eletroencefalograma ou de eletrocardiograma, nem efeito hipnótico ou ansiolítico do infuso das folhas
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026