Quais chás não pode amamentando: as 3 rotas do risco
Amamentar é, na prática, uma via de administração. O bebê recebe a dose sem nunca ter tomado o chá. É por isso que a lista da amamentação não é a mesma da gestação: aqui o Formulário de Fitoterápicos descreve três caminhos distintos pelos quais uma planta chega à criança — e cada um deles aparece nomeadamente em monografias diferentes.
Das 85 espécies avaliadas, 84 dizem alguma coisa sobre a lactação. O que vale a pena não é o número: é separar por qual dessas três rotas cada advertência se justifica.
Rota 1 — a substância passa para o leite
| Planta | O que a monografia registra |
|---|---|
| Salgueiro (FT069) | contraindicado a lactantes porque os salicilatos são excretados no leite |
| Guaraná (FT057) | contraindicado porque a cafeína atravessa a placenta e é distribuída no leite |
| Boldo (FT059) | “É contraindicado às lactantes devido à presença de alcaloides e risco de neurotoxicidade” |
O boldo é o caso mais direto: a advertência não fala de falta de dado, fala de neurotoxicidade no lactente. E é justamente a planta que carrega a fama de “assentar o estômago” depois de comer demais — o que a torna comum na casa em que se está amamentando. O quadro completo está em quem não pode tomar boldo do Chile.
Rota 2 — o leite diminui
Esta é a rota que ninguém procura, porque o efeito não aparece no bebê: aparece na produção.
- Sálvia (FT070): “Evitar o uso durante a lactação, pois diminui substancialmente a produção de leite.”
- Hortelã-pimenta (FT049): “Estudos recentes demonstram diminuição da produção de leite materno.” A mesma monografia contraindica o uso na gestação e na lactação.
Duas plantas absolutamente banais na cozinha brasileira. Uma queda de produção que começa poucos dias depois de alguém adotar “um chazinho de hortelã à noite” dificilmente é associada ao chá — costuma ser atribuída a estresse, cansaço ou “leite fraco”. Os detalhes da segunda estão em quem não pode tomar hortelã-pimenta.
Quanto líquido a lactante realmente precisa, e por que o volume não substitui a demanda da mamada, está em água diária na amamentação.
Rota 3 — o contato com o mamilo
Preparação aplicada na aréola vira ingestão direta na mamada seguinte. As monografias tratam disso explicitamente, e com respostas diferentes:
- Equinácea (FT025): “A pomada não deve ser aplicada nos mamilos das lactantes.” Proibição simples.
- Camomila (FT047): o uso na lactação é permitido — mas “quando a preparação for aplicada nos mamilos, esses devem ser higienizados antes da amamentação para que não haja a sensibilização da criança”. Permissão com procedimento.
A palavra usada na camomila é sensibilização, não intoxicação: o risco é alérgico, e alergia se constrói com exposição repetida. Higienizar antes de cada mamada é a barreira que a monografia considera suficiente. É também o motivo pelo qual, na camomila, o uso na pele é liberado só a partir dos 12 anos, enquanto beber pode a partir dos 6 meses — camomila para crianças detalha a escala.
A janela é mais longa do que a da gravidez
A recomendação do Ministério da Saúde é manter a amamentação até os dois anos de idade ou mais, com alimentação complementar a partir dos seis meses. Ou seja: as advertências desta página valem por um período três vezes maior que o da gestação — e é comum que a atenção da família se concentre nos nove meses e relaxe justamente no trecho mais longo.
O que muda para o bebê que já começou a comer, e por que chá não entra nessa lista, está em bebê pode tomar chá. As restrições da fase anterior, com outros motivos e outra tabela, ficam em chás que não pode na gravidez.
Uma espécie declarada segura nas duas fases
Para não terminar só com proibição: o mirtilo (FT081) é a única das 85 cuja monografia afirma que “ambas as formulações apresentam segurança durante gestação e lactação”. A mesma monografia contraindica menores de 12 anos e adverte contra o uso junto a antiplaquetários e anticoagulantes. Segurança para a mãe que amamenta não é segurança para a criança que bebe.
Quando procurar atendimento
Procure o serviço de saúde se, depois de você usar alguma planta, o bebê apresentar sonolência incomum, recusa de mamar, irritabilidade persistente, vômitos, diarreia, manchas na pele, inchaço de lábios ou pálpebras ou dificuldade para respirar. E procure orientação de amamentação — consultoria, banco de leite ou unidade básica — se a produção cair de forma perceptível: existe conduta para recuperar, e ela começa por identificar a causa.
O mapa completo de grupos e restrições está em quem não pode tomar chá.
Perguntas frequentes
Chá de hortelã corta o leite?
A monografia da hortelã-pimenta registra que estudos recentes demonstram diminuição da produção de leite materno, e contraindica o uso durante a lactação. A sálvia tem redação ainda mais forte: evitar durante a lactação, pois diminui substancialmente a produção de leite.
Posso passar pomada de planta no mamilo rachado?
Depende da planta e do que se faz antes da mamada. A monografia da equinácea proíbe aplicar a pomada nos mamilos de lactantes. A da camomila permite, exigindo que os mamilos sejam higienizados antes de amamentar, para que a criança não seja sensibilizada.
O bebê sente o gosto do chá no leite?
Sabor não é o ponto — dose é. O que as monografias registram não é aroma, e sim passagem de substância ativa: salicilatos são excretados no leite, a cafeína se distribui nele e os alcaloides do boldo motivam contraindicação por risco de neurotoxicidade.
Por quanto tempo essas restrições valem?
Enquanto durar a amamentação. Como a recomendação do Ministério da Saúde é manter o peito até os dois anos ou mais, a janela é longa — bem mais longa que a da gestação, o que costuma surpreender quem só se preocupou com a lista durante a gravidez.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — as 84 monografias que tratam do uso na lactação, com os três mecanismos nomeados: passagem para o leite na FT069 (salgueiro, salicilatos excretados no leite), na FT057 (guaraná, cafeína distribuída no leite) e na FT059 (boldo, contraindicado às lactantes devido à presença de alcaloides e risco de neurotoxicidade); redução da produção de leite na FT070 (sálvia, 'evitar o uso durante a lactação, pois diminui substancialmente a produção de leite') e na FT049 (hortelã-pimenta, 'estudos recentes demonstram diminuição da produção de leite materno'); e contato com o mamilo na FT047 (camomila, uso permitido na lactação desde que os mamilos sejam higienizados antes da amamentação) e na FT025 (equinácea, 'a pomada não deve ser aplicada nos mamilos das lactantes'). A FT005 (alho) registra uso não recomendado durante a lactação e a FT081 (mirtilo) declara segurança nas duas situações
- Ministério da Saúde — Aleitamento materno: a recomendação de manter a amamentação até os dois anos de idade ou mais, com alimentação complementar a partir dos seis meses, o que define a janela em que essas advertências permanecem aplicáveis
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026