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Guia da Saúde

Como fazer decocção: quando a planta ferve na água

Decocção é “a preparação que consiste na ebulição da droga vegetal em água potável por tempo determinado”. É a diferença que muda tudo em relação à infusão: aqui a planta fica no fogo, dentro da água que ferve. O Formulário de Fitoterápicos usa a técnica em 23 das 85 monografias.

O procedimento escrito por extenso

Uma única monografia do Formulário descreve a decocção do começo ao fim, e é a do barbatimão:

“Preparar por decocção. Aquecer a água até atingir a fervura, colocar a entrecasca de galho pulverizada, tampar o recipiente e manter sob fervura por 5 minutos. Após esse período, filtrar.”

Quatro movimentos: aquecer até ferver, adicionar a droga, tampar, manter sob fervura pelo tempo, e filtrar. As outras 22 monografias assumem esse mesmo roteiro e só ajustam o relógio.

Vale reparar em duas coisas que essa frase resolve. A primeira é a ordem — a água já está fervendo quando a planta entra. A segunda é a tampa: a decocção do barbatimão é tampada, e a do salgueiro manda ferver 15 minutos “sob abafamento (tampado). Coar em seguida.” Ferver descoberto não é a regra por padrão.

Os tempos, e as onze fórmulas que não declaram nenhum

Das 26 orientações de decocção do documento, 15 trazem tempo e 11 não trazem. Entre as que trazem:

TempoExemplos
5 minutosCarqueja (caule alado), guaco (folha), casca de cajueiro
10 minutosQuebra-pedra, dente-de-leão, equinácea, aroeira
15 minutosMalva, salgueiro
5 a 15 minutosCavalinha

Entre as que não trazem estão a folha e a casca de hamamélis, a flor de sabugueiro-europeu, o fruto do mirtilo, a folha de goiabeira e a casca de mulungu — todas com a mesma redação: “preparar por decocção, considerando a proporção indicada na fórmula”. Quem prepara essas fica sem o número, e o documento não oferece um padrão de recurso. Os desdobramentos por espécie estão em chá de carqueja, chá de quebra-pedra e chá de cavalinha.

A definição diz casca e raiz. As monografias fervem flor.

Aqui está a contradição interna que mais surpreende. A definição indica a decocção para “drogas vegetais com consistência rígida, tais como cascas, raízes, rizomas, caules, sementes e folhas coriáceas”. Mas o documento manda ferver:

  • folha e flor de malva, 15 minutos — a maior gramatura do Formulário, 4,5 a 7,5 g em 150 mL;
  • flor seca de sabugueiro-europeu, na fórmula 2 — e a fórmula 1 da mesma monografia manda infundir a mesma flor por 5 minutos;
  • folha de goiabeira, folha de oliveira, folha de hamamélis e folha de guaco.

O caso do sabugueiro é o mais direto: duas fórmulas, uma droga, duas técnicas opostas, uma página de distância. Não é erro — as indicações das duas fórmulas são diferentes, e a técnica acompanha o que se quer extrair. Mas desmonta a ideia de que a parte da planta decide sozinha. A relação está em chá de sabugueiro e chá de guaco.

O espelho dessa exceção — raiz, rizoma e casca preparados por infusão — está em como fazer infusão.

Quando o tempo não é o critério

A monografia da folha de oliveira define a decocção por outro parâmetro:

“Iniciar a preparação utilizando 150 mL de água. Manter o decocto em fervura até a evaporação de parte do veículo, restando, então, 100 mL ao final da preparação.”

Não há minutos: há volume final. Ferve-se até sobrar dois terços. É a única fórmula do documento em que a evaporação é o relógio — e é o lembrete de que, nas outras, evaporar é defeito: menos água com a mesma planta significa uma dose por mililitro diferente da que a fórmula previu. A conta de proporção está em quantos gramas de erva por xícara.

A fervura que continua depois do fogo

Duas monografias somam ao tempo de fervura um tempo de repouso, e ele conta:

  • espinheira-santa: “Ferver por 5 minutos e deixar arrefecer em contato com a água durante 15 minutos” — 20 minutos de contato total, com a planta dentro;
  • aroeira: uma preparação de 200 g de entrecasca em 1000 mL, fervida 10 minutos, agitada até arrefecer, filtrada e deixada em repouso por 24 horas para decantar o sedimento.

A segunda não é receita caseira: é preparação de farmácia, e o que ela significa está em quanto tempo dura o chá pronto. A primeira é, e está em chá de espinheira-santa.

O vaso importa mais aqui

A decocção é a única técnica em que a planta passa minutos em contato com o metal aquecido. O Formulário exige que o recipiente seja de material que não reaja com a droga vegetal e nomeia um metal problemático na sua tabela de incompatibilidades — o raciocínio inteiro está em que panela usar para ferver chá.

E há um limite que a técnica não vence: ferver mais tempo não corrige planta a menos, e várias decocções pertencem a espécies com contraindicação em gravidez, amamentação e para menores de idade. A monografia da espécie é quem diz — e sintoma que não melhora dentro do prazo indicado ali é motivo para procurar serviço de saúde.

Perguntas frequentes

A água tem que estar fervendo antes de pôr a planta?

A única monografia que descreve a ordem manda aquecer a água até a fervura, depois colocar a droga vegetal, tampar e manter sob fervura. Nas demais, o documento só fixa que a planta ferve junto com a água pelo tempo indicado, sem determinar em que momento ela entra.

O decocto pode secar de tanto ferver?

Pode, e numa fórmula isso é intencional: a da folha de oliveira começa com 150 mL e termina com 100 mL, por evaporação proposital. Nas outras, evaporação não prevista concentra o preparado e altera a dose por mililitro, o que é um erro de execução.

Dá para fazer decocção no micro-ondas?

O documento não trata de equipamento, só do fenômeno: ebulição por tempo determinado. O problema prático do micro-ondas é o superaquecimento sem fervura visível, que dificulta cronometrar o tempo que a monografia exige. Fogo e panela tornam o critério observável.

Decocção extrai mais que infusão?

Extrai diferente, não necessariamente mais. A fervura prolongada favorece componentes pouco solúveis presos em tecido rígido e prejudica os voláteis, que se perdem no vapor. Por isso as monografias escolhem a técnica pela droga, e não pela intensidade desejada.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a definição de decocção como ebulição da droga vegetal em água potável por tempo determinado, indicada para partes rígidas, as 23 monografias que empregam a técnica e as 26 orientações correspondentes, das quais 11 não declaram tempo, o procedimento literal do barbatimão, a decocção da folha de oliveira definida por evaporação e a decocção da flor de sabugueiro-europeu na mesma monografia que a infunde
  2. Cartilha de orientações sobre o uso de fitoterápicos e plantas medicinais (Anvisa): a descrição da decocção como o processo em que a parte da planta é fervida junto com a água, normalmente utilizado para partes mais duras, como sementes ou caule

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026