Boldo-do-chile ou boldo-brasileiro: qual é o seu
São duas espécies diferentes, com monografias separadas no mesmo Formulário da Anvisa: Peumus boldus (boldo-do-chile) e Plectranthus barbatus (boldo-brasileiro, também chamado boldo-africano e boldo-nacional). A indicação registrada é a mesma nas duas — aliviar sintomas dispépticos —, mas dose, preparo, contraindicações e tempo máximo de uso não coincidem.
O que muda entre as duas
| Boldo-do-chile | Boldo-brasileiro | |
|---|---|---|
| Espécie | Peumus boldus Molina | Plectranthus barbatus Andrews |
| Monografia | FT059 | FT064 |
| Onde costuma estar | folha seca comprada | quintal, folha fresca |
| Chá | 1 a 2 g em 150 mL | 1 a 3 g |
| Infusão | abafar 10 minutos | 20 minutos |
| Outras formas registradas | cápsula de extrato seco (200 a 400 mg) | alcoolatura e tintura |
| Indicação | alívio dos sintomas dispépticos | alívio dos sintomas dispépticos |
| Monografia europeia | sim | não |
A coluna que mais importa é a última linha da tabela de cima: a indicação é idêntica. Nenhuma das duas é reconhecida para fígado, ressaca, detox ou emagrecimento. Quem escolhe entre elas não está escolhendo entre efeitos diferentes — está escolhendo entre dois preparos diferentes para a mesma finalidade registrada.
As contraindicações não são as mesmas — e é aqui que confundir custa caro
Esta é a parte que a troca de nomes torna perigosa. As duas listas se sobrepõem em parte e divergem em pontos concretos:
Só o boldo-do-chile lista: cálculos biliares, colangite, doenças hepáticas, câncer de ducto biliar e pâncreas.
Só o boldo-brasileiro lista: hipertensos, portadores de doença renal policística, portadores de hepatite.
As duas listam: gestantes, lactantes e obstrução das vias biliares. E as duas são uso adulto, com corte aos 18 anos — nenhuma das duas é para criança.
Quer dizer: uma pessoa com hipertensão que leu a orientação do boldo-do-chile não encontrou restrição, mas ela existe para a espécie do quintal. E alguém com doença hepática que leu a orientação do boldo-brasileiro encontrou hepatite na lista, mas não o quadro mais amplo de doenças hepáticas que consta da outra. Ler a monografia errada não avisa o que falta.
Os detalhes de cada uma estão em quem não pode tomar boldo-do-chile e quem não pode tomar boldo-brasileiro.
O tempo de uso também é diferente
O boldo-brasileiro tem um limite escrito com número: o uso contínuo não deve ultrapassar 30 dias, e o tratamento pode ser repetido, se necessário, após um intervalo de 7 dias. É um ciclo fechado, com pausa obrigatória.
O boldo-do-chile trabalha com limite de quatro semanas. Na prática são prazos parecidos, mas formulados de modo distinto — e só um dos dois documentos descreve o intervalo antes de recomeçar.
Veja por quanto tempo tomar boldo-brasileiro.
Qual escolher
Se a pergunta é qual funciona melhor, os documentos não respondem: não há estudo comparando as duas espécies entre si, e inventar uma hierarquia a partir de duas monografias separadas seria publicar um dado que não existe.
O que dá para dizer com base na fonte:
- a indicação é a mesma, então a escolha não é por efeito;
- as contraindicações divergem, então a escolha depende do seu histórico de saúde — e vale ler a lista da espécie que você realmente tem em mãos;
- o boldo-do-chile tem monografia europeia além da brasileira, ou seja, foi avaliado por dois órgãos; o boldo-brasileiro consta só do documento nacional;
- o preparo muda, e usar o tempo de infusão de uma na outra não reproduz nenhuma das duas.
As fichas completas estão em boldo-do-chile e boldo-brasileiro; os preparos, em chá de boldo-do-chile e chá de boldo-brasileiro.
Perguntas frequentes
Qual dos dois é o boldo de verdade?
Os dois. A pergunta parte de uma premissa errada: não existe um boldo verdadeiro e um falso. Existem duas espécies distintas que dividem o nome popular no Brasil, e cada uma tem monografia própria no mesmo documento oficial da Anvisa, com fórmula, dose e advertências separadas.
Posso trocar um pelo outro na mesma receita?
Não é uma troca segura. As proporções são diferentes, o tempo de infusão é diferente — 10 minutos de abafamento em um, 20 minutos no outro — e as listas de quem não pode usar não coincidem. Usar a orientação de uma espécie para preparar a outra é sair da referência oficial das duas.
Qual dos dois é mais forte?
A pergunta não tem resposta nos documentos, porque não há estudo comparando as duas espécies entre si. O que existe é uma monografia para cada, com faixas de dose próprias. Comparar intensidade a partir disso seria inventar um dado que nenhuma das duas fontes traz.
Como sei qual está no meu quintal?
O boldo-do-chile é uma árvore de folha rígida e pequena, originária do Chile e do Peru, e no Brasil chega quase sempre como folha seca comprada. O boldo mais comum em quintal brasileiro é o Plectranthus barbatus, de folha grande, grossa e aveludada, que se colhe fresca. Na dúvida sobre o que você tem em casa, a orientação de dose que serve é a da espécie que você conseguir identificar com segurança.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT059, Peumus boldus Molina: a fórmula 1 com 1 a 2 g de folha seca rasurada em 150 mL, o preparo por infusão com 10 minutos de abafamento, a indicação de auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos e as contraindicações para cálculos biliares, obstrução dos ductos biliares, colangite e doenças hepáticas
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT064, Plectranthus barbatus Andrews: as três formas farmacêuticas (preparação extemporânea, alcoolatura e tintura), a infusão de 20 minutos com folha seca, a mesma indicação de auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos e a contraindicação para gestantes, lactantes, menores de 18 anos, hipertensos, portadores de obstruções das vias biliares, de doença renal policística ou de hepatite
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026