Diferença entre extrato seco e extrato fluido: 11 vezes
A diferença entre extrato seco e extrato fluido não é só o estado físico: é a direção da relação droga:extrato. No extrato fluido, 1 parte de extrato corresponde a 1 parte de droga vegetal seca. No extrato seco, foram precisas várias partes de droga para render 1 de pó — e na garra-do-diabo esse número chega a 12. O resultado prático: 1,03 g de extrato fluido por dia contra 90 mg de extrato seco, para a mesma raiz.
A conta que explica os 11 vezes
A monografia FT038 do Formulário de Fitoterápicos, sobre a garra-do-diabo, traz catorze fórmulas da mesma raiz. Quatro delas bastam para ver o mecanismo:
| Fórmula | Forma | Solvente | Relação droga:extrato | Dose diária |
|---|---|---|---|---|
| 4 | Extrato fluido | álcool etílico a 30% | 1:1 | 1,03 g |
| 7 | Extrato seco | álcool etílico a 60% | 3-5:1 | até 960 mg |
| 9 | Extrato seco | álcool etílico a 90% | 6-12:1 | até 90 mg |
| 10 | Extrato seco | água | 1,5-2,5:1 | até 2,4 g |
Os 90 mg da fórmula 9 não são uma dose menor de planta. Multiplicando pela relação, esses 90 mg carregam de 540 mg a 1,08 g de raiz — praticamente a mesma quantidade que o extrato fluido entrega em 1,03 g. O que encolheu foi a massa do produto, não a massa da planta.
E repare na linha 10: também é extrato seco, também é da mesma raiz, e a relação é 1,5-2,5:1, com dose diária de até 2,4 g. Dentro de uma única monografia, “extrato seco” cobre de 1,5:1 a 12:1. A palavra sozinha não informa concentração — só a relação declarada informa.
Por que o solvente muda a relação
Nas quatro fórmulas acima, quanto mais alcoólico o líquido extrator, maior a relação: água dá 1,5-2,5:1, álcool a 60% dá 3-5:1, álcool a 90% dá 6-12:1. A leitura é direta — a água arrasta muita coisa solúvel junto, inclusive açúcares e mucilagens, e o rendimento em pó é alto. O álcool forte extrai um conjunto mais estreito de substâncias, rende menos pó, e por isso cada miligrama desse pó representa mais raiz.
É a mesma lógica que separa as duas cápsulas de alcachofra registradas no Formulário, uma de folha fresca com relação 15-35:1 e outra de folha seca com 2,0-7,5:1, descritas em chá de alcachofra. A diferença entre elas não é qualidade: é quanta folha foi consumida para render o pó.
O que a Farmacopeia exige de cada um
As definições que o Formulário reproduz são curtas e trazem, cada uma, um limite numérico próprio:
- extrato fluido — preparação líquida em que, em geral, uma parte do extrato, em massa ou volume, corresponde a uma parte, em massa, da droga vegetal seca; podem ser adicionados conservantes;
- extrato mole — consistência semissólida, obtido por evaporação parcial do líquido extrator, com no mínimo 70% (p/p) de resíduo seco, e solvente restrito a álcool etílico, água ou mistura dos dois;
- extrato seco — preparação sólida obtida por evaporação do solvente, com perda por dessecação, em geral, não superior a 5% (p/p).
Esses 5% são o motivo de o pó ser instável fora do frasco. O Formulário recomenda, para extratos secos de alta higroscopia, empregar cápsulas cujo tamanho permita adicionar pelo menos 50% do volume da cápsula em excipientes — metade da cápsula existe para segurar o pó, não para carregar princípio ativo.
O que muda para quem compra
O extrato fluido é medido em mililitros ou gramas de líquido, precisa de conservante e vai para frasco de vidro âmbar. O extrato seco é medido em miligramas de pó, vai em cápsula ou comprimido e exige dessecante no pote. Nenhum dos dois se compara ao chá pela quantidade: a preparação extemporânea é consumida na hora, sem concentração nenhuma, como se vê nas gramaturas de chá de valeriana e da própria alcachofra.
Se o rótulo não traz a relação droga:extrato, o número em miligramas não permite calcular dose. A diferença entre essa relação e a relação droga:solvente, que é a das tinturas, está em diferença entre tintura e extrato; o mapa das outras comparações, em diferenças entre chás.
Vale registrar o que a própria FT038 adverte sobre a garra-do-diabo, independentemente da forma: uso adulto, contraindicado na gestação, na lactação, em úlcera gástrica ou duodenal e em doenças cardiovasculares, e não usar por mais de quatro semanas para dor articular. Concentrar mais planta em menos massa não afrouxa nenhuma dessas linhas — e dor articular com inchaço, vermelhidão ou febre é motivo para exame médico, não para trocar de extrato.
Perguntas frequentes
Cápsula de extrato seco de 500 mg equivale a 500 mg de planta?
Não, e a diferença pode ser de uma ordem de grandeza. Se a relação droga:extrato for 10:1, esses 500 mg correspondem a cerca de 5 g de droga vegetal. Sem a relação declarada no rótulo, o número em miligramas não permite calcular quanta planta há na cápsula nem comparar com a dose de uma monografia.
Por que cápsula de extrato seco vem com aquele sachê dentro do pote?
Porque extrato seco é higroscópico: ele puxa umidade do ar e empelota. O Formulário recomenda, para essa forma farmacêutica, acrescentar ao frasco um sachê ou cápsula com dessecante, como sílica gel, e um chumaço de algodão hidrófobo sobre as cápsulas, preenchendo o espaço até a tampa.
Extrato mole é um meio-termo entre os dois?
É uma terceira forma, de consistência semissólida, obtida por evaporação parcial do solvente. A Farmacopeia exige que ele apresente no mínimo 70% de resíduo seco, e admite como solvente apenas álcool etílico, água ou a mistura dos dois. Não é um extrato fluido concentrado nem um extrato seco malfeito.
Extrato padronizado é mais concentrado?
Não necessariamente. Padronizado quer dizer ajustado a um teor definido de constituintes com atividade conhecida, o que pode ser feito acrescentando excipiente inerte ou misturando lotes. É controle de teor, não aumento de força, e pode inclusive reduzir a concentração do extrato original.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026), seção 3.2 Definições e monografia FT038 (Harpagophytum procumbens DC. ex Meissn. e/ou Harpagophytum zeyheri Decne): as definições de extrato fluido, extrato mole e extrato seco, a perda por dessecação de até 5% do extrato seco, e as fórmulas 4, 7, 9 e 10 da garra-do-diabo, com dose diária de 1,03 g de extrato fluido contra 90 mg do extrato seco hidroetílico de relação droga:extrato 6-12:1
- Farmacopeia Brasileira, 8ª edição (Anvisa), aprovada pela RDC nº 1.026, de 15 de maio de 2026 e vigente desde 1º de julho de 2026: a fonte das definições de extrato fluido, extrato mole e extrato seco reproduzidas pelo Formulário de Fitoterápicos
- Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 1.004, de 17 de dezembro de 2025 (Anvisa), art. 3º: as definições de extratos padronizados, extratos quantificados, extratos tipo outros, extrato nativo e Relação Droga Extrato nativo, que separam o que é ajuste de teor do que é concentração de extração
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026