Diferença entre tintura e extrato: a conta muda 5 vezes
Tintura e extrato não são sinônimos e também não são opostos. A Farmacopeia Brasileira define tintura por uma relação fixa entre droga vegetal e solvente — 1:10 ou 1:5 — e define extrato como uma família inteira de preparações, cada uma com a sua própria escala. A diferença prática é de concentração, e ela é grande: na mesma monografia da Anvisa, a tintura de garra-do-diabo leva 20 g de raiz por 100 mL, e o extrato fluido leva 100 g.
Os números, na mesma página do mesmo documento
A monografia FT038 do Formulário de Fitoterápicos trata da garra-do-diabo (Harpagophytum procumbens e/ou Harpagophytum zeyheri) e traz catorze fórmulas da mesma raiz. Duas delas ficam uma embaixo da outra:
| Fórmula | Forma | Raiz | Solvente | Relação |
|---|---|---|---|---|
| 3 | Tintura | 20 g | álcool etílico a 25% q.s.p. 100 mL | 1:5 |
| 4 | Extrato fluido | 100 g | álcool etílico a 30% q.s.p. 100 mL | 1:1 |
Mesma planta, mesma parte, mesma quantidade final de líquido. O que muda é quanta raiz coube ali dentro. Quem toma o mesmo número de gotas das duas não está tomando a mesma coisa: está tomando cinco vezes mais planta numa delas.
A definição de tintura é uma proporção, não uma técnica
A Farmacopeia Brasileira, citada pelo Formulário, define assim:
“É a preparação alcoólica ou hidroalcoólica resultante da extração de drogas vegetais ou da diluição dos respectivos extratos. São obtidas por extração a líquido usando 1 parte, em massa, de droga vegetal e 10 partes de solvente de extração, ou 1 parte, em massa, de droga vegetal e 5 partes de solvente de extração.”
Repare em duas coisas que essa frase entrega e que quase nenhum texto sobre tintura menciona.
A primeira: uma tintura pode ser um extrato diluído. A própria definição admite as duas origens — extrair a droga vegetal diretamente, ou partir de um extrato e diluí-lo. Por isso “tintura ou extrato” é uma escolha mal formulada: às vezes a tintura é o extrato, rebaixado de concentração.
A segunda: a proporção é o que dá nome à coisa. Fora de 1:10 e 1:5 a Farmacopeia admite “outras proporções”, mas então elas precisam estar declaradas. Nas fórmulas brasileiras as duas aparecem: a tintura de quebra-pedra usa 10 g de parte aérea em 100 mL, que é 1:10 — está em tintura de quebra-pedra. Já a tintura de boldo-brasileiro usa 20 g de folha em 100 mL, que é 1:5. Duas tinturas oficiais, com o dobro de planta uma da outra.
RDS e RDE: dois números parecidos que significam coisas opostas
O Formulário define as duas siglas separadamente, e confundi-las inverte a leitura de qualquer rótulo:
- RDS, relação droga:solvente — quanto de droga vegetal entrou para cada parte do primeiro solvente de extração;
- RDE, relação droga:extrato — quanto de droga vegetal foi preciso para render aquela quantidade de extrato pronto.
Numa tintura 1:5, o primeiro número é a planta e o segundo é o produto: pouca planta, muito líquido. Num extrato seco escrito 6-12:1, o primeiro número continua sendo a planta, mas agora ele é o maior — foram precisos de 6 a 12 quilos de raiz para render 1 quilo de pó. A ordem dos dois pontos, e o que ela faz com a dose, está em diferença entre extrato seco e extrato fluido.
”Extrato” sozinho não identifica nada
A RDC nº 1.004/2025 lista, só de extrato, seis termos com definição própria: extratos, extratos padronizados, extratos quantificados, extratos tipo outros, extrato nativo e a relação droga:extrato. A Farmacopeia acrescenta extrato fluido, extrato mole e extrato seco. Um rótulo que diz apenas “extrato de” e não declara qual deles, com que solvente e em que relação, não informa dose.
É o mesmo vazio que aparece quando uma preparação famosa simplesmente não existe na norma — caso da tintura de alcachofra, sobre a qual o Formulário adverte sem nunca registrar a fórmula.
O aviso que vale para as duas
O Formulário de Fitoterápicos traz, na seção de dispensação, uma recomendação que não distingue tintura de extrato fluido:
“Não é recomendada a administração de tinturas e extratos fluidos a menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos, em função do teor etílico na formulação.”
E acrescenta que, pelo mesmo motivo, convém evitar dirigir ou operar máquinas depois de tomar. Como a graduação registrada varia de 25% a 90% conforme a espécie, a quantidade de álcool ingerida em “vinte gotas” não é comparável entre dois vidros diferentes. O mapa das outras comparações está em diferenças entre chás.
Perguntas frequentes
Posso substituir tintura por extrato usando a mesma quantidade de gotas?
Não. Na garra-do-diabo, 100 mL de tintura contêm 20 g de raiz e 100 mL de extrato fluido contêm 100 g. Repetir o número de gotas de uma na outra multiplica por cinco a massa de planta ingerida. A dose de cada preparação vem escrita na sua própria fórmula e não é intercambiável.
Toda tintura tem a mesma graduação alcoólica?
Não. O Formulário registra tinturas com álcool etílico de 25% até 90%, conforme a espécie e a substância a extrair. O teor etílico mencionado no documento se refere a graus GL, ou por cento em volume. Isso significa que duas tinturas de plantas diferentes podem carregar quantidades de álcool muito diferentes no mesmo volume.
Extrato é sempre mais forte que tintura?
Na comparação com o extrato fluido, sim, pela definição: ele concentra numa parte de extrato o que estava em uma parte de droga vegetal. Mas extrato mole e extrato seco seguem outra escala, e há extratos comerciais com excipientes que reduzem o teor real. Sem a relação declarada no rótulo, a palavra extrato não informa força nenhuma.
Como saber a relação de um vidro que já comprei?
Procure no rótulo três dados: a parte da planta, a graduação alcoólica e a relação de extração, escrita como dois números separados por dois pontos. Faltando qualquer um deles, não há como calcular quanta planta existe em cada mililitro, e comparar com a dose de uma monografia deixa de ser possível.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026), seção 3.2 Definições e monografia FT038 (Harpagophytum procumbens DC. ex Meissn. e/ou Harpagophytum zeyheri Decne): a definição de tintura com as relações droga:solvente 1:10 e 1:5, a definição de extrato fluido, a distinção entre Relação Droga Solvente (RDS) e Relação Droga Extrato (RDE), e as fórmulas 3 e 4 da garra-do-diabo, com 20 g de raiz em 100 mL de álcool etílico a 25% para a tintura e 100 g de raiz em 100 mL de álcool etílico a 30% para o extrato fluido
- Farmacopeia Brasileira, 8ª edição (Anvisa), aprovada pela RDC nº 1.026, de 15 de maio de 2026 e vigente desde 1º de julho de 2026: o compêndio oficial de onde saem as definições das formas farmacêuticas derivadas de drogas vegetais citadas pelo Formulário de Fitoterápicos
- Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 1.004, de 17 de dezembro de 2025 (Anvisa), art. 3º: as definições legais de extratos, extratos padronizados, extratos quantificados, extratos tipo outros, extrato nativo e Relação Droga Extrato, que mostram que a palavra extrato sozinha não identifica preparação nenhuma
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026