Erva-cidreira: efeitos colaterais e o alerta do citral
A monografia da Lippia alba não lista reações adversas de uso comum — ela lista o que acontece acima da dose: irritação gástrica, bradicardia e hipotensão arterial. E acrescenta uma advertência que não aparece em nenhuma outra planta popular do Formulário, sobre o citral e a próstata.
Os três efeitos de excesso, e por que fazem sentido juntos
O texto oficial é este: “doses acima das recomendadas podem causar irritação gástrica, bradicardia e hipotensão arterial”. Os três se encaixam com o resto do documento:
- a irritação gástrica conversa com a orientação de evitar a planta em gastrite e úlcera gastroduodenal;
- a hipotensão conversa com a cautela registrada para pessoas hipotensas;
- a bradicardia — frequência cardíaca abaixo do esperado — é o efeito menos comentado e o mais fácil de confundir com “relaxamento”. Se você não sabe onde começa a bradicardia, a explicação está em taquicardia e bradicardia.
Como a dose registrada é pequena — de 0,4 a 0,6 g por xícara —, chegar ao excesso é mais fácil do que parece. A conta de medida caseira está em chá de erva-cidreira.
A interação com paracetamol
Esta é a advertência mais específica do documento, e vale reproduzi-la:
“O uso concomitante com paracetamol pode aumentar a toxicidade desta droga, pelo uso da mesma via metabólica do citocromo P450.”
Traduzindo: fígado tem um conjunto de enzimas que processa boa parte do que ingerimos. Quando duas substâncias disputam a mesma via, uma pode atrasar a eliminação da outra. O paracetamol é bem tolerado na dose certa e tóxico para o fígado acima dela, então qualquer coisa que mexa no seu metabolismo merece atenção. Chá e comprimido para dor de cabeça, tomados juntos por hábito, é uma combinação mais comum do que deveria.
Na mesma linha estão as duas advertências sobre sistema nervoso: a planta potencializa medicamentos com ação sedativa e depressores do sistema nervoso central. Somar chá a indutor do sono, ansiolítico ou relaxante muscular não é “reforçar o natural” — é somar efeito.
Citral e próstata: o que a monografia diz e o que existe por trás
O trecho é o mais inesperado da FT044:
“O uso habitual, especialmente dos quimiotipos ricos em citral, pode estar relacionado ao desenvolvimento de prostatite benigna e redução da performance sexual do homem, em decorrência da atividade hormonal do citral.”
Duas coisas precisam ser ditas com precisão. A primeira: quimiotipo. A Lippia alba não tem uma composição única — pés diferentes produzem óleos essenciais dominados por substâncias diferentes, e um desses tipos é rico em citral, o mesmo composto que dá o cheiro de limão ao capim-santo. O consumidor não tem como saber qual quimiotipo comprou.
A segunda: o que a pesquisa mostra. Um estudo de 1992 em Urological Research tratou ratos Copenhagen com citral por via transdérmica durante 4 meses e observou hiperplasia acentuada do epitélio glandular e do estroma da próstata ventral; nos ensaios de mecanismo, o citral se comportou como estrogênio, inibindo a ligação do estrogênio ao seu receptor. É um achado consistente com a advertência — e é preciso dizer que se trata de modelo animal, com citral isolado, aplicado na pele por meses, e não de gente bebendo chá.
Ou seja: o alerta existe e está no documento oficial, mas ele fala de uso habitual e prolongado. Não há aqui base para dizer que uma xícara faz mal à próstata, nem para ignorar a ressalva em quem toma a mesma erva todo dia há anos.
O que não está no documento
Também é informação: a monografia não registra hepatotoxicidade, não registra dependência, não registra efeito sobre a produção de leite e não registra dano renal. Ausência de registro não é atestado de inocuidade — mas evita que a página invente risco onde a fonte não aponta.
A relação entre esses efeitos e as indicações reconhecidas está em erva-cidreira, e quem deve evitar a planta desde o começo, em quem não pode tomar erva-cidreira.
Perguntas frequentes
Chá de erva-cidreira dá sono a ponto de atrapalhar dirigir?
A monografia brasileira não trata de direção, mas registra que a planta potencializa medicamentos sedativos e depressores do sistema nervoso central. Vale notar que o comitê europeu, ao avaliar a espécie irmã Aloysia citrodora, incluiu uma seção dizendo que ela pode prejudicar a capacidade de dirigir e operar máquinas. Não é uma bebida neutra antes de pegar o carro.
O que acontece se eu tomar muito mais que a dose?
O documento nomeia três consequências de doses acima das recomendadas: irritação gástrica, bradicardia — batimentos abaixo do normal — e queda da pressão arterial. Não é uma lista de reações raras e sim o que se espera de excesso, e por isso a monografia repete duas vezes a instrução de não usar acima do recomendado.
Homem deve evitar erva-cidreira?
A monografia não contraindica o uso por homens. Ela faz uma ressalva sobre uso habitual, especialmente dos quimiotipos ricos em citral, associando-o a efeitos na próstata e na função sexual por atividade hormonal do citral. O ponto é o uso continuado e não a xícara ocasional — e a diferença entre um e outro é justamente o que não está quantificado.
Alergia à erva-cidreira existe?
Sim, e é a primeira contraindicação do documento: o uso é contraindicado para quem apresenta hipersensibilidade aos componentes da formulação. A orientação geral vale para qualquer reação: suspender o uso do produto e procurar um médico assim que o evento adverso aparecer.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT044, Lippia alba: os efeitos de doses acima das recomendadas (irritação gástrica, bradicardia e hipotensão arterial), a potencialização de medicamentos sedativos e depressores do sistema nervoso central, o aumento da toxicidade do paracetamol pela via do citocromo P450 e o alerta sobre uso habitual dos quimiotipos ricos em citral
- Geldof AA, Engel C, Rao BR — Estrogenic action of commonly used fragrant agent citral induces prostatic hyperplasia (Urological Research, 1992; 20(2):139-44): o estudo que descreve hiperplasia do epitélio glandular e do estroma na próstata ventral de ratos Copenhagen tratados com citral por via transdérmica durante 4 meses, e a ação estrogênica do citral como mecanismo proposto
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Aloysia citrodora Paláu (syn. Lippia citriodora Kunth), folium (EMA/HMPC/376770/2019), seção 4.7: o registro de que a espécie irmã pode prejudicar a capacidade de dirigir e de operar máquinas, e a orientação de que pacientes afetados não dirijam
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026