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Guia da Saúde

Erva-cidreira na gravidez: por que a Anvisa proíbe

A monografia da Lippia alba contraindica o uso na gestação e na lactação, e diz por quê: “devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”. É uma contraindicação por ausência de estudo, não por dano observado — e essa distinção muda o tamanho do susto de quem já tomou.

Três motivos diferentes para a mesma palavra

O Formulário de Fitoterápicos usa a palavra “contraindicado” para situações que não têm o mesmo peso científico. Comparando três plantas populares dentro do próprio documento, dá para enxergar a diferença:

PlantaVeredicto na gestaçãoMotivo escrito no documento
Camomilapermitida, com ressalva no mamilohá dado suficiente para permitir
Boldo-do-chilecontraindicadodano ao concepto observado em modelo animal
Erva-cidreira de arbustocontraindicadofalta de dados adequados

Os dois últimos recebem a mesma proibição, e a razão não é a mesma. No boldo existe achado experimental desfavorável; na Lippia alba existe silêncio — ninguém testou. A conduta prática é idêntica (não usar), mas a leitura de quem tomou antes de saber da gravidez é bem diferente, e a comparação completa está em camomila na gravidez e boldo-do-chile na gravidez.

O que “não há dados” quer dizer

Gestantes são sistematicamente excluídas de ensaios clínicos, por razões éticas óbvias. O resultado é que a maior parte das plantas medicinais nunca foi avaliada nesse grupo, e o regulador faz a única coisa que pode fazer: proíbe por precaução.

A prova de que a fórmula é padrão está na espécie irmã. Para a Aloysia citrodora — a lúcia-lima, outra planta chamada de erva-cidreira —, o comitê europeu escreve que a segurança na gestação e na lactação não foi estabelecida e que, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado. Mesma justificativa, verbo mais brando. A Anvisa foi mais dura com a Lippia alba do que a Europa foi com a prima.

Nem abortiva, nem galactagoga

Vale dizer o que a monografia não diz, porque as duas lendas circulam:

  • Não há registro de efeito abortivo. A palavra não aparece no documento, e não há estudo citado nesse sentido. A contraindicação não se apoia nisso.
  • Não há registro de efeito sobre a produção de leite, em nenhuma direção. Nem “corta o leite”, nem “aumenta o leite”.

O que existe, e vale para qualquer fase da vida, é a advertência de que a planta potencializa medicamentos sedativos e depressores do sistema nervoso central — algo a considerar em quem usa qualquer medicação nesse período. A lista completa está em quem não pode tomar erva-cidreira.

Depois do parto, a restrição continua

A lactação está no mesmo bloco da gestação, com a mesma justificativa. Isso surpreende porque a erva-cidreira é a primeira erva oferecida em muita casa depois do parto — para a mãe dormir, para o bebê “soltar o gasinho”. O documento não sustenta nenhum dos dois usos: o segundo esbarra também na idade mínima, tratada em erva-cidreira para crianças.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação, e aqui as três estão escritas. Para o que a espécie de fato trata em adultos, veja erva-cidreira; para a proporção registrada, chá de erva-cidreira.

Perguntas frequentes

Tomei chá de erva-cidreira sem saber que estava grávida. É grave?

A contraindicação existe porque ninguém estudou a planta em gestantes, não porque exista dano documentado. Não há, na monografia, relato de aborto, malformação ou efeito uterino. Interrompa o uso e conte o episódio no pré-natal: quem acompanha a gestação é quem avalia o caso concreto, e ter tomado antes de saber não é motivo para pânico.

E se for melissa e não Lippia alba?

Aí é outro documento. Melissa officinalis é uma espécie diferente, com monografia própria e advertências próprias, e o veredicto de uma não transfere para a outra. Sem o nome científico no rótulo, não dá para saber qual regra se aplica — e essa é a razão prática de a confusão de nomes ser um problema de segurança, não só de botânica.

Erva-cidreira corta o leite?

A monografia não afirma isso. Ela não registra efeito sobre a produção de leite em nenhum sentido: nem aumento, nem redução. A restrição na lactação é a mesma da gestação, e o motivo declarado é ausência de dados de segurança para o período.

Existe algum chá liberado na gestação, então?

Depende inteiramente da espécie, e o mesmo Formulário mostra isso. A camomila é permitida na gestação e na lactação, com uma ressalva só para o uso no mamilo. A erva-cidreira de arbusto é contraindicada. Duas plantas populares, dois veredictos opostos, no mesmo documento — por isso a resposta tem de vir da monografia da planta, e não de uma regra geral sobre chás.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT044, Lippia alba: a frase que contraindica o uso durante a gestação, a lactação e para menores de 18 anos, com a justificativa expressa de falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Aloysia citrodora Paláu (syn. Lippia citriodora Kunth), folium (EMA/HMPC/376770/2019), seção 4.6: o texto de que a segurança na gestação e na lactação não foi estabelecida e que, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado — a mesma justificativa aplicada à espécie irmã, com verbo mais brando

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026