Erva-cidreira para ansiedade: o que a Anvisa aceita
Aqui a resposta é sim, com três ressalvas escritas na própria fonte. A primeira das três indicações da Lippia alba no Formulário de Fitoterápicos é “como auxiliar no alívio da ansiedade leve”. Auxiliar, e leve. É uma das poucas plantas populares brasileiras com indicação registrada nesse terreno — e não existe ensaio clínico dela para isso.
A planta calmante do Brasil não é a que você pensa
Vale colocar as duas lado a lado, porque a intuição popular erra aqui:
| Planta | Indicação para ansiedade no Formulário |
|---|---|
| Camomila (Matricaria chamomilla) | nenhuma — as quatro são digestiva, respiratória, de boca e de pele |
| Erva-cidreira de arbusto (Lippia alba) | sim — auxiliar no alívio da ansiedade leve |
A camomila é a erva que o país inteiro associa a calma, e o documento oficial não registra essa indicação; a erva-cidreira de arbusto, tratada como prima menor, registra. Os detalhes da primeira estão em camomila.
Uma indicação registrada não é uma eficácia demonstrada
Esta é a parte que quase nenhum site publica, e é o coração do assunto. As indicações do Formulário de Fitoterápicos são, na sua maioria, de uso tradicional — aceitas pelo tempo e pela consistência do uso, e não por ensaio clínico controlado. As sete referências que a monografia da Lippia alba lista são livros de fitoterapia, mementos e um artigo de revisão — nenhum ensaio clínico.
Procurando no PubMed o que existe de pesquisa clínica com a espécie, o que aparece indexado como ensaio clínico não é sobre ansiedade: são estudos sobre enxaqueca — um deles, de 2013, com 21 mulheres, prospectivo, fase 2 e não controlado, isto é, sem grupo de comparação. É o tipo de desenho que sugere hipótese, não que comprova efeito. E é outra indicação.
Traduzindo para a prática: a ansiedade leve é o que a autoridade brasileira aceita como uso; não é o que um ensaio clínico demonstrou.
O que a pesquisa pré-clínica mostrou, e em que condições
Existe trabalho experimental, e ele é interessante desde que lido com o rótulo certo. Em 2012, um grupo da Unifesp tratou ratos Wistar machos por 14 dias, por via intraperitoneal, com óleo essencial de um quimiotipo de Lippia alba (12,5 e 25 mg/kg) e com (R)-(-)-carvona, o componente principal desse quimiotipo, e os submeteu ao labirinto em T elevado.
O resultado tem uma nuance bonita: o tratamento reduziu a esquiva inibitória — a resposta associada ao transtorno de ansiedade generalizada — de forma semelhante ao diazepam, e não alterou a fuga, que é a resposta associada ao pânico. Não houve alteração motora no campo aberto, o que afasta a explicação de que os animais apenas ficaram lentos.
Três distâncias entre esse experimento e a xícara, todas relevantes:
- Óleo essencial isolado, não infuso de folha e flor;
- Injeção intraperitoneal, não via oral;
- Rato, não pessoa.
Isso não invalida o achado — dá a ele o peso que tem: plausibilidade farmacológica, com um mecanismo candidato, e nada além disso.
Como usar dentro do que está escrito
A dose registrada é de 150 mL do infuso, de duas a três vezes ao dia, com a proporção de folha e flor detalhada em chá de erva-cidreira. Três pontos fecham o cuidado:
- Não some ao sedativo por conta própria. A monografia adverte que a planta potencializa medicamentos sedativos e depressores do sistema nervoso central — e como isso se manifesta está em erva-cidreira: efeitos colaterais.
- Ansiedade que não é leve não é caso de chá. Crise que limita a vida, que aparece com sintoma físico intenso ou que não passa é assunto de avaliação profissional.
- Uso adulto. Não há dose registrada abaixo de 18 anos, nem na gestação ou lactação, como mostra quem não pode tomar erva-cidreira.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação. A ficha completa da espécie está em erva-cidreira.
Perguntas frequentes
Erva-cidreira substitui o remédio de ansiedade?
Não, e a própria redação da monografia impede essa leitura: a indicação é de auxiliar no alívio da ansiedade leve. Auxiliar significa coadjuvante, e leve delimita o quadro. Interromper tratamento psiquiátrico por conta de um chá é decisão que a fonte não sustenta em nenhum ponto.
Posso tomar junto com ansiolítico ou indutor do sono?
É justamente o cenário sobre o qual a monografia adverte duas vezes: a planta pode potencializar medicamentos com ação sedativa e também depressores do sistema nervoso central. Potencializar é somar efeito, não substituir. Quem já usa esse tipo de medicação precisa falar com quem prescreveu antes de acrescentar o chá.
Erva-cidreira serve para insônia?
Sono não é uma das três indicações da monografia brasileira da Lippia alba — as registradas são ansiedade leve, ação antiespasmódica e má digestão. Curiosamente, a monografia europeia da espécie irmã Aloysia citrodora tem indicação de auxílio ao sono, com dose própria antes de deitar. São plantas e documentos diferentes, e o brasileiro não fala em insônia.
Em quanto tempo o efeito aparece?
A monografia não estabelece prazo de resposta nem duração de tratamento; apenas orienta procurar um médico se os sintomas persistirem durante o uso. No experimento em ratos que embasa a discussão farmacológica, o efeito foi avaliado após 14 dias de tratamento repetido, e não em dose única — mais um motivo para não esperar resposta imediata de uma xícara.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT044, Lippia alba: a indicação registrada como auxiliar no alívio da ansiedade leve, a posologia de 150 mL do infuso de duas a três vezes ao dia e a advertência de que a planta pode potencializar medicamentos com ação sedativa e depressores do sistema nervoso central
- Hatano VY, Torricelli AS, Giassi AC, Coslope LA, Viana MB — Anxiolytic effects of repeated treatment with an essential oil from Lippia alba and (R)-(-)-carvone in the elevated T-maze (Brazilian Journal of Medical and Biological Research, 2012; 45(3):238-43): o experimento com ratos Wistar tratados por 14 dias com óleo essencial do quimiotipo II a 12,5 e 25 mg/kg por via intraperitoneal, que reduziu a latência de esquiva inibitória sem alterar a fuga, de modo semelhante ao diazepam
- Carmona F, Angelucci MA, Sales DS e col. — Lippia alba (Mill.) N. E. Brown hydroethanolic extract of the leaves is effective in the treatment of migraine in women (Phytomedicine, 2013; 20(10):947-50, registro NCT01259947): o estudo de fase 2, prospectivo e não controlado, com 21 mulheres, usado aqui como referência do tipo de pesquisa clínica que existe com a espécie
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026