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Guia da Saúde

Erva-doce para gripe: o que a monografia não diz

A palavra “gripe” não aparece em nenhum dos três documentos oficiais sobre a erva-doce. O que existe é uma indicação vizinha e mais estreita: auxiliar no alívio da tosse produtiva associada ao resfriado comum, por uso tradicional. É um sintoma de uma doença específica — não a gripe, e não a infecção inteira.

Gripe e resfriado não são a mesma coisa nos documentos

A distinção parece preciosismo e não é. O Formulário brasileiro escreve “resfriado comum”, e a monografia europeia escreve “cough associated with cold”. Nenhum dos dois diz influenza, gripe ou infecção respiratória em geral.

Gripe é causada pelos vírus influenza, costuma começar de forma abrupta, com febre alta, dor no corpo e prostração. Resfriado é um quadro mais brando, de outras famílias virais, concentrado em nariz e garganta. As diferenças estão em gripe e resfriado: qual é a diferença, sintomas de gripe e sintomas de resfriado.

Quando um documento sanitário escreve o nome de uma doença, é aquela doença que ele está autorizando. Estender a indicação para a outra é decisão de quem escreve o blog, não da agência.

O único achado antiviral publicado é contra outros vírus

Este é o dado que fecha a questão. O relatório de avaliação europeu levanta toda a literatura experimental do anis, e há exatamente um resultado antiviral: complexos lignina-carboidrato isolados de extratos aquosos de anis mostraram atividade contra herpes simplex tipos 1 e 2, citomegalovírus humano e vírus do sarampo.

Nenhum dos três é vírus de gripe. Nenhum dos três é vírus de resfriado. E o que foi testado não é o chá: são complexos isolados do extrato, em bancada, com o mecanismo descrito como interferência na adsorção do vírus à superfície da célula.

É um achado interessante de química de produtos naturais e não é base para nenhuma recomendação clínica — o próprio relatório o classifica entre os dados não clínicos, na mesma seção em que conclui que o uso terapêutico do anis isolado não é sustentado por ensaios clínicos em humanos.

O efeito antibacteriano some justamente na forma de chá

A monografia da OMS lista os ensaios antimicrobianos do anis por tipo de extrato, e a leitura lado a lado é reveladora:

Preparação testadaResultado
Extrato etanólico 95% dos frutosinibiu Staphylococcus aureus
Extrato metanólico seco dos frutosinibiu Helicobacter pylori (CIM 100 µg/mL)
Extrato etanólico dos frutosinibiu Candida albicans e outros fungos
Decocção dos frutosnão inibiu Aspergillus niger, E. coli, Pseudomonas aeruginosa, Salmonella typhi nem S. aureus até 62,5 mg/mL

O que inibe micro-organismo é o extrato alcoólico ou o óleo essencial concentrado. A preparação feita com água — a que mais se aproxima do que sai da sua xícara — não inibiu nada nas concentrações testadas. O relatório europeu registra o mesmo padrão para o extrato aquoso, sem atividade detectada contra Pseudomonas e E. coli.

E, mesmo que inibisse: resfriado e gripe são infecções virais. Efeito antibacteriano em placa não trataria nem um nem outro.

O que sobra, então, para quem está resfriado

Sobra o que está escrito: expectorante na tosse produtiva. É um alívio sintomático de um sintoma específico, com origem farmacológica plausível — o efeito relaxante do óleo sobre a musculatura lisa traqueal e a ação secretolítica do anetol —, e sem ensaio clínico que o confirme na planta isolada. Esse recorte, com os experimentos que o sustentam, está em erva-doce para tosse.

Se a expectativa era encurtar o resfriado, baixar febre ou “cortar a gripe”, nenhum dos três documentos oferece isso. A ficha completa da espécie está em erva-doce, e a dose e o prazo, em chá de erva-doce.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e também tem limite de indicação, que é o que esta página publica.

Perguntas frequentes

Chá de erva-doce baixa a febre?

Não há indicação para febre em nenhum dos três documentos oficiais. A monografia da OMS registra o uso tradicional da planta para febre entre os usos populares levantados na literatura, mas o relatório europeu conclui que nenhum outro uso tradicional do anis é sustentado por dados adequados. Febre alta ou persistente é motivo para avaliação médica, não para chá.

Erva-doce fortalece a imunidade?

Nenhum documento oficial atribui à erva-doce efeito sobre o sistema imune. O que aparece no relatório europeu são ensaios de bancada com extratos e com o óleo essencial contra micro-organismos em placa, o que é uma medida de inibição direta em laboratório e não diz nada sobre defesa do organismo.

Posso tomar erva-doce junto com o remédio da gripe?

A monografia europeia registra 'nenhuma interação relatada' na seção dedicada ao tema. Ainda assim, sintoma que não melhora em duas semanas ou que piora durante o uso é a situação em que o próprio documento manda procurar um profissional — e antigripal de farmácia costuma ter mais de um princípio ativo, o que é conversa para o farmacêutico.

Quanto tempo posso tomar o chá enquanto estou resfriado?

O teto é o mesmo de qualquer uso da planta: duas semanas. Como o resfriado comum costuma se resolver em menos tempo que isso, o limite raramente aperta. Se a tosse passar de duas semanas, o problema já não é mais o resfriado, e a orientação escrita é procurar avaliação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT061, Pimpinella anisum L.: a indicação registrada como auxiliar no alívio da tosse produtiva associada ao resfriado comum, e a ausência de qualquer menção a gripe, febre ou influenza
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Pimpinella anisum L., fructus (2013): a segunda indicação, de uso tradicional como expectorante na tosse associada ao resfriado, e a ausência de indicação para infecção respiratória em geral
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Pimpinella anisum L., fructus: o levantamento da atividade antimicrobiana in vitro do anis contra bactérias e fungos, e o único achado antiviral publicado, de complexos lignina-carboidrato contra herpes simplex 1 e 2, citomegalovírus e vírus do sarampo
  4. WHO monographs on selected medicinal plants, volume 3 (OMS, 2007) — monografia Fructus Anisi: os ensaios de atividade antimicrobiana por tipo de extrato, incluindo o resultado negativo da decocção dos frutos contra cinco micro-organismos em concentrações de até 62,5 mg/mL

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026