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Guia da Saúde

Erva-doce (anis): para que serve segundo a Anvisa

A erva-doce da monografia brasileira é a Pimpinella anisum, e ela tem duas indicações oficiais: queixas gastrintestinais leves — distensão abdominal e flatulência — e alívio da tosse produtiva associada ao resfriado comum. As duas são uso tradicional, não uso comprovado. Não há indicação para cólica de bebê, sono, leite materno ou peso.

As duas indicações registradas — e nada além delas

O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira registra a erva-doce para dois usos, nessa ordem: “como auxiliar no tratamento sintomático de queixas gastrintestinais leves; tais como distensão abdominal e flatulência” e “como auxiliar no alívio da tosse produtiva associada ao resfriado comum”.

A monografia europeia, que é a fonte declarada da fórmula brasileira, chega às mesmas duas — e acrescenta uma palavra que muda tudo na segunda: expectorante. Expectorante não interrompe a tosse; ajuda a mobilizar a secreção. Isso separa a indicação real do que a maioria das pessoas espera do chá, e está detalhado em erva-doce para tosse.

Se a sua queixa é a primeira — barriga estufada, gases, peso depois de comer —, o que costuma estar por trás está em gases e estufamento.

A coluna vazia: por que nada aqui é “comprovado”

As monografias europeias têm duas colunas lado a lado: well-established use, para o que tem ensaio clínico, e traditional use, para o que é aceito pelo tempo de uso. Na monografia do anis, a coluna de uso bem estabelecido está vazia da seção 4.1 até a 5.3 — sem exceção.

O relatório de avaliação que a acompanha explica por quê, em uma frase: “Therapeutic use of anise alone is not substantiated with human clinical trials” — o uso terapêutico do anis isolado não é sustentado por ensaios clínicos em humanos. E na conclusão sobre eficácia: “Medicinal use of aniseed and anise oil is not supported by clinical evidence.”

Isso não invalida o uso. Significa que a indicação vem da tradição e da farmacologia experimental, não de gente tratada em ensaio. É uma distinção que quase nenhum rótulo brasileiro faz, e ela vale para toda a categoria — o índice está em plantas medicinais.

Três plantas, um nome

No Brasil, “erva-doce” cobre pelo menos três coisas diferentes vendidas soltas na mesma prateleira:

Nome popularEspécieComo reconhecer
Erva-doce, anis, anis-verdePimpinella anisumfruto piriforme, acinzentado, de 3 a 6 mm
Erva-doce, funchoFoeniculum vulgareoutra espécie da mesma família; vende-se o fruto e o bulbo
Anis-estrelado, badianaIllicium verumfruto seco em forma de estrela, de outra família botânica

São três monografias diferentes, com advertências diferentes. Esta página trata só da primeira. A terceira nem sequer é da mesma família e tem histórico de reação neurológica em lactentes — o que importa em erva-doce para crianças.

O único ensaio clínico brasileiro com a planta testou outra coisa

Há um ensaio randomizado brasileiro com Pimpinella anisum publicado em 2010 pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Ele é bom, é registrado no ClinicalTrials.gov e o resultado é robusto: tempo de trânsito colônico de 15,7 horas com o produto ativo contra 42,3 horas com placebo, em 20 pacientes com constipação crônica.

Só que o produto testado é uma combinação de quatro plantas — anis, funcho, sabugueiro e Cassia angustifolia, que é o sene, um laxante antraquinônico consagrado. O desfecho medido foi efeito laxativo, que não é indicação da erva-doce em documento nenhum, e o desenho não permite atribuir o efeito a uma das quatro. Citar esse ensaio como prova de que “a erva-doce funciona” é exatamente o tipo de salto que este site não dá.

O que a monografia limita

Três limites aparecem na mesma seção de advertências e costumam ser ignorados: 12 anos como idade mínima, duas semanas como tempo máximo de uso, e a contraindicação para quem tem alergia a plantas da família Apiaceae — alcaravia, aipo, coentro, endro e funcho — ou ao anetol isolado. A lista completa de quem fica de fora está em quem não pode tomar erva-doce, e a proporção certa da infusão em chá de erva-doce.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é justamente isso que esta página publica.

Perguntas frequentes

Erva-doce e anis são a mesma planta?

Sim. O Formulário de Fitoterápicos registra Pimpinella anisum L. com dois nomes populares no Brasil: anis e erva-doce. O problema é que o nome erva-doce também é usado para o funcho, Foeniculum vulgare, que é outra espécie, com outra monografia e outras advertências. Quando um rótulo diz apenas erva-doce, é o nome científico que resolve.

Erva-doce é o mesmo que anis-estrelado?

Não, e essa é a confusão mais perigosa das três. O anis-estrelado é Illicium verum, de outra família botânica, vendido em frutos secos em forma de estrela. Ele não tem monografia no Formulário brasileiro e tem casos publicados de reação neurológica em lactentes. O anis do Formulário é o fruto piriforme e acinzentado, de 3 a 6 mm, da Pimpinella anisum.

Erva-doce emagrece?

Não há indicação registrada para peso, nem no Formulário da Anvisa nem na monografia europeia. As duas únicas indicações oficiais são digestiva e respiratória. O relatório de avaliação europeu é direto ao dizer que nenhum outro uso tradicional do anis é sustentado por dados adequados.

Que parte da erva-doce se usa no chá?

O fruto seco — que quase todo mundo chama de semente. A fórmula manda usar a droga vegetal inteira, rasurada ou esmagada imediatamente antes do uso, e não a folha nem a planta inteira.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT061, Pimpinella anisum L.: a fórmula de 1,0 a 3,5 g de fruto em 150 mL por infusão, as duas indicações registradas (queixas gastrintestinais leves e tosse produtiva do resfriado comum), o modo de usar de 150 mL três vezes ao dia e a advertência de uso acima de 12 anos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Pimpinella anisum L., fructus (2013): as duas indicações classificadas como uso tradicional, com a coluna de uso bem estabelecido vazia da seção 4.1 à 5.3
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Pimpinella anisum L., fructus: a conclusão de que o uso terapêutico do anis isolado não é sustentado por ensaios clínicos em humanos, e o levantamento dos usos tradicionais registrados na literatura
  4. Picon PD et al. (2010), BMC Complementary and Alternative Medicine — ensaio randomizado brasileiro do composto fitoterápico com Pimpinella anisum, Foeniculum vulgare, Sambucus nigra e Cassia angustifolia na constipação crônica (PMID 20433751)

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026