Quem não pode tomar erva-doce: a lista oficial
A erva-doce tem uma lista de exclusão curta e uma surpresa dentro dela: menores de 12 anos. O chá que no Brasil se dá a bebê é justamente aquele cuja monografia diz “uso adulto e pediátrico acima de 12 anos”. Somam-se a isso gestantes, lactantes e quem tem alergia a plantas da família Apiaceae ou ao anetol.
Os dois verbos do documento não valem a mesma coisa
A monografia brasileira usa duas expressões diferentes, e a distância entre elas é a distância entre “nunca” e “não há como garantir”:
| Como o documento escreve | O que significa | A quem se aplica |
|---|---|---|
| ”é contraindicado” | não usar | hipersensibilidade; alergia a Apiaceae ou ao anetol |
| ”não é recomendada” | sem respaldo para autorizar | menores de 12 anos, gestantes, lactantes |
O motivo declarado para o segundo grupo é explícito e vale ler inteiro: “devido à ausência de dados suficientes para avaliação de segurança”. Não é dano comprovado — é ausência de estudo. A conduta prática é a mesma, mas a razão importa, e é ela que separa esta página de um site que só escreve “faz mal”.
Onde a OMS é mais dura que a Anvisa
Aqui está a divergência que quase ninguém publica. A monografia da Organização Mundial da Saúde para o Fructus Anisi trata os mesmos três grupos, e usa outra palavra: “use of the dried fruits in pregnancy and nursing, and in children under the age of 12 years is contraindicated”.
Contraindicado, não “não recomendado”. E a OMS declara os motivos: o uso tradicional do óleo como emenagogo e para induzir o trabalho de parto, os efeitos estrogênicos experimentais, o potencial mutagênico e os relatos de toxicidade do anetol em lactentes.
Ou seja: os três reguladores chegam à mesma conduta por caminhos diferentes — a Anvisa e a agência europeia por falta de dados, a OMS por dados desfavoráveis. Onde isso pesa mais está em erva-doce na gravidez e em erva-doce para crianças.
A família Apiaceae, nome por nome
A contraindicação por alergia não é só “quem é alérgico a erva-doce”. A monografia europeia nomeia a família inteira: “Hypersensitivity to the active substance or to Apiaceae (Umbelliferae) (caraway, celery, coriander, dill and fennel) or to anethole” — alcaravia, aipo, coentro, endro e funcho.
O motivo está no relatório de avaliação: um alérgeno chamado Bet v 1, o mesmo do pólen de bétula, foi encontrado ligado tanto ao anis quanto ao funcho, e ensaios de inibição com o soro de um paciente mostraram reatividade cruzada entre extratos de anis, funcho, alcaravia, coentro e endro. Quem reagiu a uma dessas está na lista. Os quadros que aparecem nesses casos estão em erva-doce: efeitos colaterais.
O que não está na lista: remédios
A seção 4.5 da monografia europeia, dedicada a interações medicamentosas, tem exatamente duas palavras: “None reported.” Nenhuma interação relatada.
O relatório de avaliação, mais longo, examina duas suspeitas e derruba as duas. A do anticoagulante: as cumarinas do anis são furo e hidroxicumarinas, e não dicumarol, de modo que “no particular caution may be required”. A da terapia hormonal: em uso prolongado ou dose excessiva a atividade estrogênica do anetol poderia interferir, mas “this potential interaction has not been confirmed by factual data”.
Repare que as duas ressalvas dependem da mesma condição — uso prolongado ou dose acima da recomendada. Respeitado o teto de duas semanas descrito em chá de erva-doce, elas saem de cena. E o que a planta faz e não faz está na ficha completa, em erva-doce.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e neste caso a contraindicação é bem mais concreta do que a interação.
Perguntas frequentes
Quem é alérgico a aipo ou a coentro pode tomar erva-doce?
A monografia europeia contraindica exatamente nesse caso. Aipo, coentro, endro, alcaravia e funcho são da mesma família do anis, as Apiaceae, e o relatório de avaliação descreve reatividade cruzada de IgE entre extratos dessas plantas no soro de um mesmo paciente. Quem já teve reação a uma delas está na contraindicação escrita.
Erva-doce corta o efeito do anticoncepcional?
Não há dado que sustente isso. O relatório europeu levanta a hipótese de que, em uso prolongado ou em dose excessiva, a atividade estrogênica do anetol poderia interferir em terapia hormonal, incluindo a pílula — e conclui, na mesma frase, que essa interação potencial não foi confirmada por dados factuais. Na dose e no prazo da monografia, não há motivo documentado para a preocupação.
Quem toma anticoagulante precisa evitar?
O relatório de avaliação examinou a suspeita e a descartou. A hipótese vinha de o anis conter cumarinas, mas as descritas na literatura são furo e hidroxicumarinas, e a atividade anticoagulante está ligada ao dicumarol. A conclusão literal do documento é que nenhuma cautela em particular é exigida. Ainda assim, quem usa varfarina avisa quem prescreveu sobre qualquer planta que passe a tomar.
Idoso pode tomar chá de erva-doce?
Sim. A monografia europeia inclui explicitamente os idosos na faixa autorizada, ao lado dos adultos e dos adolescentes acima de 12 anos. Não há restrição por idade avançada. Os limites que continuam valendo são os mesmos de todo mundo: a dose e o teto de duas semanas.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT061, Pimpinella anisum L.: a advertência de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos, a contraindicação por hipersensibilidade aos componentes, a não recomendação em menores de 12 anos, lactantes e gestantes por ausência de dados, e a contraindicação em caso de hipersensibilidade a outras espécies da família Apiaceae ou ao anetol
- European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Pimpinella anisum L., fructus (2013): a seção 4.3 de contraindicações nominando as Apiaceae (alcaravia, aipo, coentro, endro e funcho) e o anetol, e a seção 4.5, que registra 'None reported' para interações medicamentosas
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Pimpinella anisum L., fructus: a discussão sobre anticoagulantes e cumarinas do anis, a hipótese de interferência da atividade estrogênica do anetol em terapia hormonal e anticoncepcional oral, e a ressalva de que essa interação não foi confirmada por dados factuais
- WHO monographs on selected medicinal plants, volume 3 (OMS, 2007) — monografia Fructus Anisi: a seção de contraindicações, que classifica como contraindicado (e não apenas não recomendado) o uso dos frutos secos na gravidez, na amamentação e em menores de 12 anos
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026