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Guia da Saúde

Funcho para cólica menstrual: o ensaio que existe

A dismenorreia leve é indicação registrada do funcho — mas só nas monografias do funcho-amargo e do funcho-doce, só para o uso adulto, e com o status de uso tradicional. Existe um ensaio clínico comparando funcho com anti-inflamatório em cólica menstrual, e ele é o dado mais concreto que esta planta tem em qualquer indicação. Também é o mais desconfortável.

A indicação existe em dois dos três documentos

Este é o tipo de detalhe que muda a resposta e quase nunca aparece:

MonografiaDismenorreia leve consta?
FT032 — a espécienão
FT033 — funcho-amargosim, uso adulto
FT034 — funcho-docesim, uso adulto
EMA, as duas variedadessim, adultos e adolescentes

E há uma restrição que a versão brasileira aperta. Nas monografias das variedades, as indicações do uso pediátrico — tanto acima de 12 anos quanto entre 4 e 12 — trazem apenas queixas gastrintestinais leves. A cólica menstrual fica de fora de toda a faixa pediátrica brasileira, enquanto a monografia europeia a libera para adolescentes a partir dos 12 anos.

O ensaio iraniano, com o que ele mostrou e o que não mostrou

Em 2003, um grupo da Universidade de Ciências Médicas de Shiraz publicou no International Journal of Gynecology and Obstetrics a comparação entre funcho e ácido mefenâmico na dismenorreia primária. É o trabalho que aparece na bibliografia da FT032, e é o único ensaio clínico de funcho para essa queixa.

Como foi feito. Setenta mulheres de 15 a 24 anos foram recrutadas; dez saíram por dismenorreia secundária e trinta por dor leve. Restaram 30 participantes com dor moderada a grave, avaliadas por três ciclos consecutivos: o primeiro sem medicação (controle), o segundo com ácido mefenâmico 250 mg de 6 em 6 horas, o terceiro com essência de fruto de funcho a 2%, 25 gotas de 4 em 4 horas, por via oral.

O que deu.

ComparaçãoResultado
Funcho e ácido mefenâmico contra os ciclos-controleambos aliviaram a dor de forma significativa (p < 0,001)
Tempo médio de início de ação67,5 minutos para o medicamento, 75 para o funcho — sem diferença estatística
Potência no 2º e no 3º dia de menstruaçãoácido mefenâmico superior (p < 0,05)
Potência nos demais diassem diferença significativa
Abandono do estudo5 participantes (16,6%) desistiram por causa do odor do funcho
Efeito adverso1 caso de aumento leve do fluxo menstrual

A conclusão dos autores é honesta e vale citar inteira: “The essence of fennel can be used as a safe and effective herbal drug for primary dysmenorrhea, however, it may have a lower potency than mefenamic acid in the dosages used for this study.”

O que o ensaio não sustenta. Três coisas. Primeiro, ele testou uma essência a 2% em gotas, não o chá — a conversão para infuso não existe em nenhum documento. Segundo, o desenho é sequencial e sem cegamento: cada participante passou pelos três ciclos na mesma ordem, o que abre espaço para efeito de expectativa e de ordem. Terceiro, foram 30 pessoas — e ainda assim 5 delas abandonaram, o que é um dado clínico por si só: um sexto das participantes não tolerou o cheiro.

A EMA, avaliando esse conjunto, foi direta: as deficiências metodológicas limitam fortemente a relevância clínica desses estudos e não bastam para sustentar uso bem estabelecido. É por isso que a indicação está na coluna de uso tradicional.

O detalhe que só aparece confrontando as monografias

O ensaio de Shiraz testou explicitamente Foeniculum vulgare variedade dulce, o funcho-doce. A FT032, que é a monografia que cita esse trabalho, não registra dismenorreia entre as indicações — usa a referência para sustentar a ação antidispéptica e antiespasmódica da tintura. E as monografias que registram dismenorreia, a FT033 e a FT034, creditam a indicação à monografia europeia de 2007, não ao ensaio.

O resultado é curioso: o funcho-amargo carrega uma indicação de cólica menstrual cujo único ensaio clínico foi feito com o funcho-doce. Isso não é irregularidade — a Europa concedeu a indicação às duas variedades por uso tradicional, não por esse ensaio —, mas explica por que a evidência “parece” mais forte do que é quando se lê só a lista de referências. A comparação completa entre as duas variedades está em funcho: para que serve.

O aviso sobre fluxo aumentado

As três monografias brasileiras trazem, entre as advertências, esta linha: “Evitar o uso nas mulheres que apresentam hipermenorreia.” E, logo antes: “Evitar o uso nos casos de hiperestrogenismo.”

As duas conversam com o ensaio: uma das trinta participantes relatou aumento leve do sangramento durante o ciclo com funcho. Um caso não prova relação, mas é coerente com o mecanismo estrogênico atribuído ao anetol e com os relatos de efeito hormonal descritos em funcho: efeitos colaterais.

A leitura prática: quem já tem fluxo intenso é justamente quem as monografias desaconselham, e essa é uma sobreposição frequente com quem sofre de cólica forte. As demais restrições estão em quem não pode tomar funcho.

Como usar, e quando isso não é caso de chá

De 1,5 g de fruto em 250 mL, infusão tampada de 15 minutos, três vezes ao dia, por no máximo duas semanas — o preparo está em chá de funcho.

A palavra que qualifica a indicação é leve. Cólica que impede de trabalhar ou estudar, que piora ciclo a ciclo, que vem com sangramento fora do período, dor durante a relação ou dor fora da menstruação não é dismenorreia leve, e as causas possíveis estão em cólica menstrual forte: o que pode ser. O espasmo intestinal, que é outra dor e outra indicação, está em funcho para cólica intestinal.

Perguntas frequentes

Chá de funcho substitui o remédio para cólica menstrual?

Não é o que a fonte permite dizer. No único ensaio que comparou os dois, o ácido mefenâmico foi significativamente mais potente que o funcho no segundo e no terceiro dia da menstruação, e os autores concluíram que o funcho pode ter potência menor nas doses usadas. Além disso, o que foi testado ali não foi chá, e a indicação registrada é de auxiliar no alívio de sintomas de dismenorreia leve — leve é a palavra que qualifica tudo.

Adolescente pode tomar funcho para cólica menstrual?

Pela monografia europeia, sim a partir dos 12 anos: a indicação de espasmo menstrual vale para adultos e adolescentes, e o uso abaixo de 12 anos não foi estabelecido por falta de dados. Pelas monografias brasileiras a leitura é mais restrita, porque elas atribuem essa indicação apenas ao uso adulto da fórmula 1, e reservam ao uso pediátrico só as queixas gastrintestinais.

Funcho aumenta o fluxo menstrual?

As monografias brasileiras mandam evitar o uso em mulheres que apresentam hipermenorreia, ou seja, fluxo aumentado. E o ensaio iraniano registrou uma participante entre trinta com aumento leve do sangramento durante o ciclo tratado com funcho. É pouco para afirmar relação de causa, mas é coerente com a advertência e é motivo para atenção de quem já sangra muito.

Quanto tempo o funcho leva para fazer efeito na cólica?

No ensaio que mediu isso, o tempo médio de início de ação foi de 75 minutos para o funcho e 67,5 minutos para o ácido mefenâmico, sem diferença estatística entre os dois. Vale lembrar que o produto testado foi uma essência do fruto em gotas, não o chá — e que nenhuma monografia converteu esse resultado em promessa de tempo para o infuso.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT033 (funcho-amargo) e FT034 (funcho-doce): a indicação como auxiliar no alívio de sintomas decorrentes da dismenorreia leve, restrita ao uso adulto da fórmula 1, e a advertência para evitar o uso em mulheres que apresentam hipermenorreia; e a FT032, que não registra essa indicação
  2. Namavar Jahromi B, Tartifizadeh A, Khabnadideh S — Comparison of fennel and mefenamic acid for the treatment of primary dysmenorrhea (International Journal of Gynecology and Obstetrics, 2003; 80(2):153-7): as 30 participantes com dismenorreia moderada a grave avaliadas por três ciclos, a essência de fruto de funcho a 2% em 25 gotas de 4 em 4 horas contra ácido mefenâmico 250 mg de 6 em 6 horas, o tempo de início de ação de 75 contra 67,5 minutos, a maior potência do medicamento no 2º e no 3º dia, as 5 desistências pelo odor e o caso de aumento do fluxo menstrual
  3. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Foeniculum vulgare subsp. vulgare var. dulce, fructus (EMEA/HMPC/372839/2016 Rev. 1, 2024): a indicação 2, para espasmo leve associado ao período menstrual, com posologia de 1,5 g em 250 mL três vezes ao dia restrita a adultos e adolescentes e uso não estabelecido abaixo de 12 anos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026