Funcho: para que serve segundo Anvisa e EMA
O funcho é a única planta do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa com três monografias: uma para a espécie (FT032) e mais duas para as variedades funcho-amargo (FT033) e funcho-doce (FT034). As indicações reunidas são queixas gastrintestinais leves, cólica menstrual leve e expectorante na tosse do resfriado. Nenhuma delas tem ensaio clínico por trás.
O nome que não é dele
No Brasil, funcho é vendido, plantado e receitado como erva-doce. O nome, porém, pertence a outra espécie: a Pimpinella anisum, que tem monografia própria e separada no mesmo Formulário. São duas plantas da família Apiaceae, com frutos parecidos, cheiro parecido e o mesmo componente dominante no óleo essencial — o anetol —, e é exatamente por isso que os nomes se embaralharam.
A consequência é prática e não é pequena: as doses e as idades mínimas de uma não valem para a outra. Toda vez que um rótulo diz apenas “erva-doce”, ele não informa qual das duas está dentro. O que se pode fazer é olhar o nome científico, que a legislação exige em produto de droga vegetal.
Três monografias, três documentos diferentes
O que mais chama atenção ao abrir as três é que elas não coincidem. A FT032 trata a espécie sem separar variedade; a FT033 e a FT034 tratam cada uma delas. E os números mudam:
| FT032 (espécie) | FT033 (amargo) | FT034 (doce) | |
|---|---|---|---|
| Infuso | 5 a 7 g em 150 mL | 1,5 a 2,5 g em 250 mL | 1,5 a 2,5 g em 250 mL |
| Frequência | 1 vez ao dia | 3 vezes ao dia | 3 vezes ao dia |
| Tintura | sim, uso adulto | não tem | não tem |
| Faixa etária do infuso | ”uso adulto e pediátrico” | acima de 12 anos; e 4 a 12 anos na fórmula 2 | igual à FT033 |
| Cólica menstrual | não consta | consta, uso adulto | consta, uso adulto |
| Tosse do resfriado | não consta | consta, uso adulto | consta, uso adulto |
| Duração máxima | não fixada | 2 semanas; menos de 1 semana em criança | igual à FT033 |
| Refluxo | contraindicado | não menciona | não menciona |
Repare na quarta linha. A FT032 autoriza literalmente “uso adulto e pediátrico” sem estabelecer idade mínima. As duas seguintes, no mesmo documento, dizem que o produto “não é recomendado para crianças com menos de 4 anos de idade”. É a mesma espécie, no mesmo Formulário, com duas respostas para a pergunta que mais se faz sobre esta planta no Brasil — e a discussão completa está em funcho para crianças.
Funcho-amargo e funcho-doce: a diferença é no fruto, não na bula
Esta é a pergunta que quase ninguém responde com documento na mão, e a resposta tem duas metades.
A diferença existe, e é do material. A Farmacopeia Europeia descreve as duas variedades com exigências distintas:
| Funcho-doce (var. dulce) | Funcho-amargo (var. vulgare) | |
|---|---|---|
| Monografia da Ph. Eur. | 04/2011:0825 | 04/2013:0824 |
| Óleo essencial, mínimo | 20 mL por kg de fruto | 40 mL por kg de fruto |
| Anetol no óleo, mínimo | 80,0% | 60,0% |
| Fenchona no óleo, mínimo | não há exigência | 15,0% |
| Cor do fruto | verde-pálido a amarelo-pardo | verde-pardo, pardo ou verde |
Ou seja: o amargo tem, por norma, o dobro de óleo essencial do doce, e uma fração garantida de fenchona — a substância que dá o amargor. Amostras de mercado confirmam a separação: num levantamento austríaco de 42 marcas de chá citado pela EMA, o funcho-amargo tinha de 3% a 8,5% de óleo essencial e o doce, de 0,8% a 3%.
E a diferença não chega à conduta. As duas monografias europeias, adotadas no mesmo dia, são idênticas palavra por palavra nas seções clínicas: mesmas três indicações, mesma dose de 1,5 g em 250 mL três vezes ao dia, mesma idade mínima de 4 anos, mesmo teto de duas semanas, mesmas contraindicações. A única coisa que muda entre elas é o número da monografia de qualidade do fruto. As brasileiras FT033 e FT034 seguem o mesmo padrão.
A leitura honesta, portanto, é esta: quem manda na força do chá é a variedade, mas o regulador decidiu que isso não muda a dose registrada. Quem compra “funcho” a granel raramente sabe qual levou — e a diferença de teor de óleo pode ser de quatro vezes entre um pacote e outro.
Nenhuma indicação é “comprovada” — e o documento diz isso
Na monografia europeia, a coluna well-established use — reservada às indicações com ensaio clínico — está vazia da primeira à última seção. Todas as três indicações estão na coluna traditional use, aceita pelo tempo de uso. O relatório de avaliação fecha sem meio-termo:
“In conclusion, the medicinal use of fennel fruit is not supported by adequate clinical evidence. On the basis of the long standing use reported in scientific literature … traditional medicinal use can only be proposed.”
Isso não é o mesmo que dizer que a planta não faz nada. É dizer que o que existe é história de uso e farmacologia experimental, e que ninguém mediu o efeito do chá em gente com o rigor que a outra coluna exigiria. As páginas por sintoma deste site mostram, uma a uma, qual é o dado que existe atrás de cada indicação: cólica intestinal, gases, má digestão, cólica menstrual e tosse.
A fenchona liga o amargor ao aviso de convulsão
Há um fio que costura as duas metades desta página. A advertência das três monografias brasileiras manda não usar em pessoas com histórico de convulsões, e cita para isso um levantamento publicado no Journal of Neurology em 1999. Esse trabalho lista o funcho entre onze plantas cujos óleos essenciais são convulsivantes potentes — e atribui a propriedade a cetonas monoterpênicas como a cânfora, a tujona, a pulegona e, no caso do funcho, a fenchona.
Fenchona é justamente o que a Farmacopeia Europeia exige em 15% no mínimo do óleo do funcho-amargo e não exige do doce. A diferença entre as duas variedades, que não aparece na dose, reaparece aqui — e o detalhe que a monografia brasileira erra ao repassar esse aviso está em funcho: efeitos colaterais.
Planta medicinal tem dose, tem contraindicação e tem interação. O quadro completo de quem deve ficar longe está em quem não pode tomar funcho, a proporção certa em chá de funcho, e o índice das espécies já publicadas em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Funcho e erva-doce são a mesma planta?
Não. No Brasil o funcho é chamado de erva-doce no dia a dia, mas o nome pertence a outra espécie, a Pimpinella anisum, que tem monografia própria e separada no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa. Funcho é Foeniculum vulgare. As duas são da mesma família botânica, as Apiaceae, têm cheiro parecido e por isso trocam de nome na feira — mas são documentos, doses e frutos diferentes. Se o rótulo não traz o nome científico, não dá para saber qual das duas está no pacote.
Que parte do funcho se usa?
O fruto seco — popularmente chamado de semente. As três monografias brasileiras e as duas europeias especificam fructus, o fruto. Não é o bulbo branco que se compra na seção de hortaliças, nem a folha em forma de pena, embora os dois venham da mesma planta.
O funcho tem alguma indicação comprovada por ensaio clínico?
Não. Nas duas monografias europeias, todas as indicações estão na coluna de uso tradicional e a coluna de uso bem estabelecido está vazia da primeira à última seção. O relatório de avaliação é literal ao concluir que o uso medicinal do fruto de funcho não é sustentado por evidência clínica adequada, e que só o uso de longa data pode ser proposto.
Qual a diferença entre o funcho do chá e o funcho da salada?
É a mesma espécie em variedades cultivadas para fins diferentes. O funcho de bulbo, vendido como hortaliça, é selecionado pela base carnuda; o funcho medicinal é cultivado pelo fruto. As monografias tratam só do fruto seco, e a composição do óleo essencial dele é o que define a dose.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT032 (Foeniculum vulgare Miller), FT033 (subsp. vulgare var. vulgare, funcho-amargo) e FT034 (subsp. vulgare var. dulce, funcho-doce): as fórmulas de cada uma, as indicações separadas por fórmula e faixa etária, as advertências e a lista de referências
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Foeniculum vulgare Miller subsp. vulgare var. vulgare, fructus (EMA/HMPC/372841/2016, Revisão 1, de 31 de janeiro de 2024): as três indicações, todas na coluna de uso tradicional, a posologia de 1,5 g em 250 mL três vezes ao dia e a coluna de uso bem estabelecido vazia da primeira à última seção
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Foeniculum vulgare Miller subsp. vulgare var. vulgare e var. dulce, fructus (EMA/HMPC/240553/2016): a descrição das duas variedades pela Farmacopeia Europeia (mínimo de 40 mL/kg de óleo essencial no funcho-amargo, com 60% de anetol e 15% de fenchona, contra 20 mL/kg e 80% de anetol no funcho-doce) e a conclusão de que o uso medicinal do fruto não é sustentado por evidência clínica adequada
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026