Hortelã-pimenta na gravidez e na amamentação
O uso de hortelã-pimenta é contraindicado durante a gestação e a lactação pelo Formulário de Fitoterápicos da Anvisa. A monografia europeia é menos categórica: diz que a segurança não foi estabelecida e que, sem dados suficientes, o uso não é recomendado. E o documento brasileiro acrescenta um dado que quase ninguém publica: a planta foi associada à diminuição da produção de leite materno.
Contraindicado e não recomendado não são a mesma palavra
A frase brasileira é direta: “O uso é contraindicado durante a gestação e lactação.” Não há ressalva, faixa de gestação, nem “salvo orientação médica”.
A frase europeia diz outra coisa, e o motivo declarado importa: a segurança na gravidez e na lactação não foi estabelecida e, “na ausência de dados suficientes”, o uso não é recomendado. Não há relato de dano — há ausência de estudo.
| Anvisa (FT049) | EMA (folium) | |
|---|---|---|
| Gestação | contraindicado | não recomendado, por falta de dados |
| Lactação | contraindicado | não recomendado, por falta de dados |
| Motivo declarado | contraindicação, sem justificativa explícita na linha | ausência de dados suficientes |
| Dados de fertilidade | não citados | nenhum disponível |
A diferença entre os dois verbos é o que separa uma proibição de uma abstenção por precaução. Na prática, para quem está grávida, as duas levam ao mesmo lugar: não usar. Mas a razão muda a conversa com quem faz o pré-natal, porque a pergunta certa deixa de ser “isso faz mal?” e passa a ser “isso vale o risco de algo que ninguém mediu?”.
A resposta honesta: os testes não foram feitos
A seção 5.3 da monografia europeia da folha registra, em uma linha, o que explica todo o resto: “Adequate tests on reproductive toxicity, genotoxicity and carcinogenicity have not been performed.” Testes adequados de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade não foram realizados.
É por isso que não existe, e não vai existir tão cedo, um “quantas xícaras uma grávida pode tomar”. Não há estudo para transformar em número. Diante disso, a autoridade brasileira escolheu a palavra mais forte disponível, e a europeia escolheu registrar a lacuna. As duas escolhas apontam para a mesma conduta.
Amamentação: o dado sobre a produção de leite
Aqui está o item mais concreto e menos divulgado desta página. A monografia brasileira escreve, na seção de advertências: “Estudos recentes demonstram diminuição da produção de leite materno.” A referência citada ao lado é um formulário brasileiro de preparações extemporâneas de chás medicinais, de 2017.
Vale dimensionar com honestidade: é uma afirmação de uma fonte secundária brasileira, sem número, sem tamanho de amostra e sem citação de ensaio individual, e ela não aparece na monografia europeia, que se limita a dizer que a segurança na lactação não foi estabelecida. Não é o mesmo peso de um ensaio clínico. Mas é o que a autoridade brasileira registrou, e uma lactante que está com dificuldade de produção de leite tem todo motivo para saber que a hortelã aparece nesse contexto — inclusive porque muita gente toma o chá justamente no puerpério, por causa de gases.
Se o objetivo é a queixa digestiva do pós-parto, a decisão é da equipe que acompanha a amamentação, não de um chá.
A tintura tem uma proibição a mais, e o motivo é o álcool
Além da contraindicação que vale para toda a planta, as fórmulas 3 e 4 — as duas tinturas — são especialmente contraindicadas para gestantes e lactantes em razão do teor alcoólico da formulação, junto com menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos. É uma contraindicação que não tem a ver com hortelã nenhuma: tem a ver com o etanol a 45% ou 70% do preparo, detalhado em tintura de hortelã-pimenta.
Mentol perto do bebê é outro assunto, e mais urgente
Uma confusão frequente merece separação. O chá da mãe é um problema; mentol aplicado ou inalado pelo bebê é outro, e mais grave. O centro de saúde integrativa do NIH americano é explícito: mentol “should not be inhaled by or applied to the face of an infant or small child because it may negatively affect their breathing” — não deve ser inalado nem aplicado no rosto de um bebê ou criança pequena, porque pode afetar a respiração.
A monografia europeia do óleo essencial vai além e contraindica o óleo abaixo de 2 anos, com o motivo escrito: o mentol pode induzir apneia reflexa e laringoespasmo. As idades mínimas de cada preparação estão em hortelã-pimenta para crianças.
A lista completa de quem deve evitar a planta, fora da gestação, está em quem não pode tomar hortelã-pimenta, e o que a folha efetivamente trata em hortelã-pimenta: para que serve.
Perguntas frequentes
Tomei chá de hortelã sem saber que estava grávida. Devo me preocupar?
A contraindicação da monografia é uma medida de precaução diante da falta de dados, não o registro de um dano observado em gestantes. Nenhum dos documentos descreve efeito tóxico documentado em gravidez humana com a folha em infusão. O caminho é parar o uso e contar ao pré-natal na próxima consulta, sem tratar o episódio como emergência.
E a bala, o chiclete e o creme dental de menta?
As monografias tratam de preparações medicinais com dose definida: infusão, tintura, cápsula, óleo. Bala, chiclete e creme dental são produtos de consumo com quantidades muito menores de aromatizante e não estão no escopo desses documentos. Contraindicar o fitoterápico não é o mesmo que proibir o sabor de menta na rotina.
Serve para o enjoo do começo da gravidez?
A hortelã-pimenta não tem indicação registrada para náusea, nem dentro nem fora da gestação: a única indicação da folha é sintoma dispéptico e flatulência. E, como o uso é contraindicado na gestação, a resposta é dupla — não há a indicação, e há a contraindicação. Enjoo gestacional é assunto do pré-natal.
Depois que o bebê desmamar posso voltar a tomar?
A contraindicação por lactação deixa de se aplicar quando a amamentação termina. As demais continuam valendo integralmente: refluxo, cálculo biliar, obstrução de ducto biliar, dano hepático severo, litíase urinária e hipersensibilidade ao mentol não têm relação com o puerpério.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT049, Mentha x piperita L. (folha): a frase que contraindica o uso durante a gestação e a lactação, a contraindicação especial da tintura para gestantes e lactantes em razão do teor alcoólico, e o registro de que estudos recentes demonstram diminuição da produção de leite materno
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Mentha x piperita L., folium: a seção 4.6, que declara que a segurança na gravidez e na lactação não foi estabelecida e que, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado; e a seção 5.3, que informa que testes adequados de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade não foram realizados
- NCCIH / National Institutes of Health — Peppermint Oil: a orientação de que o mentol não deve ser inalado nem aplicado no rosto de bebês e crianças pequenas por poder afetar a respiração, e a observação sobre amamentação
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026