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Guia da Saúde

Mil-folhas na gravidez: por que a camomila pode e ela não

O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira contraindica a mil-folhas durante a gestação e a lactação. A frase da monografia FT001 é direta e diz também o motivo: “devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”.

Duas plantas da mesma família, dois vereditos opostos

A mil-folhas e a camomila são ambas Asteraceae, ambas de uso digestivo, ambas com monografia no mesmo compêndio da Anvisa, ambas ancoradas em monografias europeias. E o Formulário decide o oposto para cada uma:

Mil-folhas (FT001)Camomila (FT047)
Gestação e lactaçãoContraindicadoPermitido
Idade mínima, via oral12 anos6 meses
Motivo declaradoFalta de dados adequadosRessalva apenas para uso no mamilo

Não é inconsistência do comitê: é o resultado de haver dados para uma espécie e não haver para a outra. O texto liberado da camomila está transcrito em camomila na gravidez.

A conclusão prática é sempre a mesma, e vale mais que qualquer regra geral: a pergunta não é “grávida pode tomar chá”, é “grávida pode tomar este chá”.

”Não recomendado” na Europa virou “contraindicado” no Brasil

Vale ler as duas redações lado a lado, porque elas não têm o mesmo peso regulatório.

A monografia europeia, seção 4.6:

“Safety during pregnancy and lactation has not been established. In the absence of sufficient data, the use during pregnancy and lactation is not recommended.”

O Formulário brasileiro escreve “contraindicado”. Numa bula, contraindicação e advertência ocupam seções diferentes: a primeira proíbe, a segunda pede cautela. A Anvisa subiu um degrau em relação ao texto que cita como fonte.

E isso não é motivo para relativizar a proibição. É a norma brasileira que vale aqui, e ela é a mais restritiva das duas. Mostrar que uma contraindicação se apoia em ausência de dado, e não em dano provado, não transforma ausência de dado em permissão.

O que existe de dado sobre reprodução — e por que ele é frágil nos dois sentidos

A monografia europeia registra, na seção de dados pré-clínicos, uma frase que fecha o assunto: “Adequate tests on reproductive toxicity have not been performed.”

O único estudo de gestação disponível é de 2003, em ratas. Elas receberam por gavagem 2,8 g/kg por dia — o equivalente a 56 vezes a dose humana, calculada pelos próprios autores em 50 mg/kg por dia — em dois períodos gestacionais distintos. Os achados:

  • sem aumento de perdas pré ou pós-implantação;
  • sem diferença na incidência de malformações externas ou internas;
  • peso placentário aumentado e peso fetal reduzido nas ninhadas expostas entre os dias 8 e 15, com o próprio artigo apontando que o álcool do extrato pode ter contribuído.

Os autores concluíram que o consumo é contraindicado na gestação até que haja mais investigação. O avaliador da EMA, por sua vez, rejeitou a relevância do estudo para a monografia: a parte da planta era diferente (parte aérea sem as flores) e a proporção droga-solvente do extrato também (1:2, e não 1:5).

Ou seja: o dado que existe é fraco tanto para condenar quanto para liberar. Diante disso, os dois órgãos escolheram o lado da cautela — e a Anvisa escolheu o degrau mais alto dela.

A fama de abortiva e o número da tujona

A mil-folhas carrega a reputação de emenagoga e abortiva. O relatório europeu trata disso de frente: a planta “is reputed to be an abortifacient” e seu óleo essencial pode conter tujona, substância com esse histórico.

Só que o relatório também faz a conta. Partindo do mínimo de óleo essencial exigido pela Farmacopeia Europeia, da dose diária máxima de 16 g de droga vegetal e de um cenário de pior caso com 5% de tujona no óleo, a exposição diária é calculada em não mais que 1,5 mg de tujona — quantidade que o comitê considera baixa demais para representar risco à saúde humana. Boa parte dos estudos de composição não encontra tujona nenhuma na espécie.

Reparou no que isso significa? A restrição gestacional da mil-folhas não se sustenta na tujona. Ela se sustenta em não haver estudo. É uma proibição por silêncio de dados — e continua valendo integralmente.

A tintura tem uma proibição a mais

Além da contraindicação geral, o Formulário reforça: as duas tinturas de mil-folhas são “especialmente contraindicadas” para gestantes e lactantes, agora por outro motivo — o teor alcoólico, de 45% e 70%. É uma regra que o compêndio aplica a toda forma alcoólica, não só a esta planta. As duas fórmulas estão em tintura de mil-folhas.

O quadro completo de quem deve evitar a espécie, dentro e fora da gestação, está em quem não pode tomar mil-folhas.

Procure atendimento de saúde se, durante a gestação, surgir sangramento, cólica intensa, redução dos movimentos fetais ou qualquer sintoma após o uso de um preparado vegetal. Nenhuma planta medicinal substitui o acompanhamento pré-natal.

Perguntas frequentes

Já tomei chá de mil-folhas sem saber que estava grávida. E agora?

Conte ao profissional que acompanha o pré-natal, informando quanto e por quantos dias. A contraindicação existe por ausência de dados de segurança, não por dano documentado em gestantes — mas quem avalia o caso é quem acompanha a gestação, não um texto na internet. Se houver sangramento, cólica intensa ou qualquer sintoma novo, procure atendimento.

Mil-folhas corta o leite?

A monografia não afirma isso. A contraindicação na lactação tem o mesmo fundamento da gestação: falta de dados adequados. Um manual de 1996 citado pelo relatório europeu sugere evitar uso excessivo na amamentação, e o próprio relatório anota que essa recomendação não é sustentada por nenhum dado clínico.

E a compressa de mil-folhas na pele, durante a gestação?

A advertência brasileira sobre gestação e lactação está redigida sem separar via oral de via externa. Na dúvida entre uma restrição ampla e uma interpretação que a estreita, o texto oficial prevalece. Para pele durante a gestação, converse com quem acompanha o pré-natal antes de aplicar qualquer preparado vegetal.

Qual chá é permitido na gestação, então?

A resposta é planta a planta, e a única forma de saber é abrir a monografia da espécie. No mesmo Formulário, a camomila é permitida na gestação e na lactação, com uma ressalva de higiene do mamilo. Duas plantas da mesma família botânica, dois vereditos opostos, no mesmo documento.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: a advertência de que o uso é contraindicado durante a gestação, a lactação e para menores de 12 anos devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações, e a contraindicação reforçada da tintura para gestantes e lactantes pelo teor alcoólico
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376416/2019): a seção 4.6, que diz que a segurança na gestação e na lactação não foi estabelecida e que, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado, e a seção 5.3, que registra que testes adequados de toxicidade reprodutiva não foram realizados
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376415/2019): o estudo de Boswell-Ruys et al. 2003 em ratas com 2,8 g/kg por dia, equivalente a 56 vezes a dose humana, o comentário do avaliador rejeitando sua relevância para a monografia, e o cálculo de pior caso da exposição diária à tujona

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026