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Guia da Saúde

Tintura de mil-folhas: 2 fórmulas e 20 dias de espera

O Formulário de Fitoterápicos registra duas tinturas de mil-folhas, e elas não são variações uma da outra: mudam a proporção de planta, a graduação do álcool, o modo de preparo e a dose. As duas são de uso adulto — nenhuma faixa pediátrica.

As duas fórmulas não têm a mesma origem

A fórmula 4 — 20 g em 100 mL de álcool a 45% — é a proporção 1:5 com etanol a 45% que a monografia europeia registra como preparação tradicional. Ela tem correspondente lá fora.

A fórmula 5 — 10 g em 100 mL de álcool a 70% — não tem. A proporção é 1:10, metade da carga de planta, com álcool mais forte, e a fonte citada é um formulário brasileiro de 2014. É uma fórmula nacional, sem contraparte na monografia europeia, que registra apenas tinturas 1:5.

Vale saber disso ao comprar: “tintura de mil-folhas” no rótulo pode significar duas coisas diferentes, com o dobro de diferença na quantidade de planta por mililitro.

Os 20 dias de maceração, passo a passo

Só a fórmula 5 tem procedimento próprio descrito na monografia. Ele é este:

  1. Use a parte aérea seca e moída.
  2. Coloque em frasco de vidro âmbar — o âmbar não é estética, é barreira de luz, e a monografia exige esse frasco também para o armazenamento.
  3. Adicione o álcool etílico a 70% na proporção da fórmula.
  4. Tampe bem e deixe macerar por 20 dias, agitando diariamente.
  5. Filtre em papel de filtro.

Vinte dias com agitação diária é o dado que separa a receita oficial das versões de internet, que costumam falar em “duas semanas” ou “quando ficar escuro”. A fórmula 4 não traz esse passo a passo: a monografia remete às técnicas gerais de secagem e preparo de tintura descritas no capítulo de Generalidades do próprio compêndio.

O paradoxo do álcool a 45%

Aqui está a tensão interna mais curiosa desta monografia. Sobre a fórmula 4, o Formulário escreve:

“Em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes.”

Baixo teor alcoólico — 45%. É baixo demais para o próprio álcool conservar o preparado, e por isso é preciso acrescentar conservante. E é, ao mesmo tempo, alto o bastante para que a mesma monografia contraindique a fórmula a menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, justamente “em função do teor alcoólico”.

Os dois julgamentos convivem sem contradição real — um é sobre microbiologia, o outro é sobre exposição a etanol —, mas convivem no mesmo parágrafo, e ler os dois juntos ajuda a entender por que tintura não é “chá mais forte”. É outra forma farmacêutica, com outro público autorizado.

As doses, e a que sobra em relação à Europa

A fórmula 4 tem duas posologias registradas, vindas de fontes diferentes:

  • 5 mL diluídos em água, três vezes ao dia, entre as refeições (WHO, 2009);
  • 2 a 4 mL diluídos em meio copo com água, três a quatro vezes ao dia (EMA e Ross, 2012).

A monografia europeia, para a tintura 1:5 a 45%, registra 2 a 4 mL três vezes ao dia — e nada além disso. A dose de 5 mL e a quarta tomada diária não vêm de lá. Na prática, o teto brasileiro da fórmula 4 chega a 16 mL por dia, contra 12 mL do teto europeu.

Repare também no horário: a tintura brasileira é para tomar entre as refeições, enquanto o chá da mesma monografia é para tomar 30 minutos antes delas. Na monografia europeia essa atribuição é exatamente a inversa, como está detalhado em chá de mil-folhas.

O que a forma alcoólica acrescenta de restrição

Além de tudo o que já vale para a espécie, a tintura carrega as regras gerais que o Formulário aplica a qualquer tintura ou extrato fluido do compêndio:

  • não administrar a menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos;
  • evitar operar equipamentos e máquinas ou dirigir após a ingestão.

Esta última merece nota: a monografia europeia declara, na seção correspondente, que nenhum estudo sobre efeito na capacidade de dirigir foi realizado com a planta. A advertência brasileira não é sobre a mil-folhas — é sobre o álcool que a carrega.

Antes de preparar ou comprar, confira a lista completa de restrições em quem não pode tomar mil-folhas e, se você usa medicamento contínuo, a discussão sobre anticoagulantes e anti-hipertensivos em mil-folhas e remédios. O que cada fórmula da espécie trata está em mil-folhas: para que serve.

Perguntas frequentes

Posso usar cachaça, vodca ou álcool de farmácia?

As fórmulas especificam álcool etílico nas concentrações de 45% e 70%. Destilados comerciais variam de teor e trazem açúcares e congêneres que não estão previstos. Álcool de farmácia comum não é grau alimentício. Fora da concentração indicada, a extração muda e o preparado deixa de corresponder ao que a monografia descreve.

Quanto tempo dura a tintura pronta?

A monografia não fixa validade, mas dá duas pistas: frasco de vidro âmbar bem tampado, e conservante recomendado para a fórmula de 45%. Preparado caseiro sem controle de qualidade não tem prazo verificável — e a alteração de cor, cheiro ou aspecto é motivo para descartar, não para filtrar de novo.

Tintura é mais forte que o chá?

É mais concentrada em massa de planta por volume e traz álcool, o que muda o público autorizado e as interações. Mais concentrado não quer dizer mais eficaz: as indicações registradas para as tinturas são as mesmas da fórmula 1, o infuso. O que muda é a forma, não o que ela trata.

Preciso diluir antes de tomar?

Sim, e a monografia diz em quanto: a fórmula 4 vai diluída em água, ou em meio copo com água na posologia alternativa, e a fórmula 5 também é diluída em água. Ingerir a tintura pura concentra álcool na mucosa e não corresponde a nenhuma das posologias descritas.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: as fórmulas 4 e 5 de tintura, a recomendação de conservantes para a fórmula 4 em razão do baixo teor alcoólico, a maceração de 20 dias com agitação diária da fórmula 5, o acondicionamento em frasco de vidro âmbar, as posologias em mililitros e a restrição a uso adulto
  2. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — texto geral FF003.3-00: a recomendação de não administrar tinturas e extratos fluidos a menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos em função do teor etílico, e de evitar operar equipamentos, máquinas ou dirigir após a ingestão do fitoterápico nessa forma farmacêutica
  3. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376416/2019): as duas tinturas europeias, ambas na proporção 1:5, com etanol a 45% na dose de 2 a 4 mL três vezes ao dia e etanol a 31,5% na dose de 4,3 mL quatro vezes ao dia, e a exigência de rotulagem de etanol para extratos alcoólicos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026