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Guia da Saúde

Quem não pode tomar mil-folhas: as 10 restrições

A seção ADVERTÊNCIAS da monografia FT001 é um bloco único de texto corrido, e por isso quase ninguém percebe o tamanho dela. Separada em itens, são dez situações de restrição — para uma planta com uma forma de preparo básica. E uma delas contradiz a própria indicação.

As dez situações, uma a uma

  1. Hipersensibilidade aos componentes da formulação e às espécies da família Asteraceae.
  2. Gestação.
  3. Lactação.
  4. Menores de 12 anos — o motivo declarado para os três itens acima é o mesmo: falta de dados adequados que comprovem a segurança.
  5. Menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos, no caso das duas tinturas, pelo teor alcoólico da formulação.
  6. Dispepsia hipersecretora.
  7. Úlceras gastroduodenais.
  8. Obstrução das vias biliares.
  9. Uso simultâneo com anticoagulantes.
  10. Uso simultâneo com anti-hipertensivos.

Some-se a isso o teto que a monografia repete duas vezes: “Não utilizar em doses acima das recomendadas”. As doses estão em chá de mil-folhas.

A restrição que contradiz a indicação

Os itens 6 e 7 merecem parar em cima. A mil-folhas é indicada para auxiliar no alívio de sintomas dispépticos — e é proibida na dispepsia hipersecretora, que é um tipo de dispepsia. A planta indicada para o desconforto digestivo está fora justamente quando esse desconforto vem de excesso de ácido.

Não é contradição de redação: é consequência do mecanismo. O princípio ativo em jogo é amargo, e amargo estimula secreção. Numa digestão lenta, isso ajuda; num estômago que já produz ácido demais ou tem lesão aberta, empurra na direção errada.

Vale notar de onde vem cada proibição. A da dispepsia hipersecretora tem fonte única, um vademécum guatemalteco de 2009. A da úlcera vem de três fontes independentes, incluindo a monografia da Organização Mundial da Saúde de 2009. A monografia europeia não registra nenhuma das duas — na seção 4.3, a única contraindicação listada é a alergia a Asteraceae, e nada mais.

Ou seja: a lista brasileira é substancialmente maior que a europeia, e essa diferença é uma escolha do comitê brasileiro, não uma tradução. O que a planta faz de fato com o estômago está em mil-folhas para má digestão.

Alergia a Asteraceae exclui dezesseis espécies do mesmo compêndio

Quem já teve reação a camomila, arnica ou calêndula precisa entender o alcance dessa contraindicação. Asteraceae é uma das maiores famílias botânicas, e o próprio Formulário, com 85 espécies no total, tem dezesseis delas:

mil-folhas, macela, bardana, arnica, carqueja, picão, calêndula, alcachofra, as duas equináceas, camomila, os dois guacos, cardo-mariano, tanaceto e dente-de-leão.

A sensibilização é cruzada dentro da família: reagir a uma aumenta a chance de reagir às outras. Quem está nessa condição não troca a mil-folhas por camomila nem por alcachofra — troca por outra família botânica, ou por nenhuma.

A planta que estimula a bile e é proibida em obstrução biliar

O item 8 tem a mesma lógica dos itens 6 e 7. A mil-folhas é registrada no Brasil como colerética, isto é, aumenta o fluxo de bile. Empurrar mais bile por um ducto obstruído é o contrário do que se quer. A medida desse efeito, e por que ele não faz da planta um “desintoxicante do fígado”, está em mil-folhas para o fígado.

Os itens 9 e 10 — anticoagulantes e anti-hipertensivos — têm uma história de bibliografia que vale por si e está reconstruída em mil-folhas e remédios.

Procure um serviço de saúde se aparecer falta de ar, inchaço de lábios ou pálpebras, urticária ou qualquer reação após o uso — e suspenda o produto. Reação alérgica a planta da família Asteraceae pode ser grave.

Perguntas frequentes

Quem tem gastrite pode tomar mil-folhas?

A monografia não usa a palavra gastrite. Ela proíbe dispepsia hipersecretora e úlcera gastroduodenal, condições que se sobrepõem à gastrite em boa parte dos casos. Quem tem diagnóstico de gastrite deve levar a pergunta a quem acompanha o caso, porque o rótulo popular não corresponde a um dos dois termos oficiais.

Quem tomou a planta e não está na lista precisa se preocupar?

Não é isso que a lista significa. Estar fora dela não dispensa a dose registrada, a duração máxima nem a instrução de suspender o uso ao surgir qualquer evento adverso. A monografia é explícita: não utilizar em doses acima das recomendadas.

A mil-folhas é a mesma coisa que a arnica?

Não. São espécies diferentes, com monografias diferentes no mesmo Formulário — Achillea millefolium e Arnica montana. O que elas têm em comum é a família botânica Asteraceae, e é por isso que quem é alérgico a uma tende a reagir à outra.

Posso tomar mil-folhas junto com outro chá?

O Formulário não avalia misturas: cada monografia descreve uma espécie isolada, em fórmula própria. Combinar plantas soma contraindicações e interações sem que ninguém tenha estudado a combinação. Se as duas espécies têm restrição sobre coagulação ou pressão, o risco não se dilui, se acumula.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: a seção ADVERTÊNCIAS completa, com a contraindicação por hipersensibilidade a Asteraceae, gestação, lactação, menores de 12 anos, dispepsia hipersecretora, úlceras gastroduodenais, obstrução das vias biliares, uso concomitante com anticoagulantes e anti-hipertensivos, e a restrição adicional das tinturas a menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376416/2019): a seção 4.3, em que a única contraindicação registrada é hipersensibilidade às substâncias ativas e a outras plantas da família Asteraceae, e a seção 4.5, que declara nenhuma interação relatada

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026