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Guia da Saúde

Mil-folhas: para que serve e o que a monografia proíbe

A mil-folhas é a primeira monografia do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa — código FT001, a que abre o capítulo. Ela acumula mais indicações que qualquer outra planta digestiva do compêndio: só a fórmula 1 responde por cinco. E há um dado que quase nunca aparece junto: o relatório de avaliação europeu registra, em uma frase, que nenhum estudo clínico jamais investigou a mil-folhas administrada por via oral.

As três finalidades, com três proporções diferentes

O que costuma se perder na tradução popular da planta é que a mil-folhas não tem uma dose: tem três, e cada uma pertence a uma finalidade.

FórmulaProporçãoPara quê
12 a 4 g em 250 mLSintomas dispépticos, colerético, antiflatulento, antiespasmódico, anti-inflamatório
21 a 2 g em 250 mLDismenorreia leve (cólica menstrual leve)
33,5 g em 250 mLUso externo em pequenas lesões cutâneas superficiais
420 g em 100 mL de álcool 45%Mesmas indicações da fórmula 1, em tintura
510 g em 100 mL de álcool 70%Mesmas indicações da fórmula 1, em tintura

Repare na inversão: a fórmula da cólica menstrual é a mais diluída de todas, metade da digestiva. Não é erro de digitação — é a dose que a monografia europeia atribui àquela indicação específica, reproduzida aqui. O detalhe do preparo está em chá de mil-folhas; as tinturas, em tintura de mil-folhas.

Duas indicações brasileiras que a Europa não tem

A monografia europeia lista quatro indicações para a parte aérea: perda temporária de apetite; queixas gastrintestinais espasmódicas leves, incluindo distensão e flatulência; espasmo menor associado à menstruação; e pequenas feridas superficiais.

Compare com a lista brasileira da fórmula 1 e sobram duas palavras que não existem no texto europeu: colerético e anti-inflamatório. Elas entraram no Formulário apoiadas em bibliografia farmacológica antiga — estudos de 1974, 1984 e 1993, todos pré-clínicos. O que cada uma delas de fato mede está em mil-folhas para o fígado e em mil-folhas para inflamação.

E há uma indicação que fez o caminho contrário: perda temporária de apetite, que a Europa registra e o Brasil não adotou. Curiosamente, a instrução de tomar o preparado 30 minutos antes das refeições — que na monografia europeia existe apenas para essa indicação — permaneceu no texto brasileiro.

O que “uso tradicional” significa aqui

Nas duas monografias europeias da espécie, a coluna “well-established use” está vazia da seção 2 à seção 6. Tudo o que a mil-folhas tem é registro por uso tradicional: aceito porque a planta é usada há décadas sem sinal de dano, e não porque ensaios demonstraram eficácia.

O relatório de avaliação é explícito sobre onde estão os dados:

“Until now, no clinical studies investigated the effects of orally administered Millefolii herba.”

Existe um único ensaio clínico com a planta, e ele é tópico: pomada em cicatrização de episiotomia. Os números estão em mil-folhas para cicatrização. Todo o resto — efeito colerético, espasmolítico, gastroprotetor, anti-inflamatório — vem de fígado de rato perfundido, íleo de cobaia, jejuno de coelho e pata de rato.

A composição, e por que ela explica as restrições

A parte aérea traz de 3 a 4% de taninos, de 0,3 a 1,4% de óleo volátil e um grupo de lactonas sesquiterpênicas — aquilicina, aquilina, leucodina —, além de flavonoides (apigenina, luteolina, rutina), ácidos fenólicos e a base alcaloídica achileína.

Essas duas últimas famílias respondem pela maior parte das advertências. As lactonas sesquiterpênicas são os sensibilizantes que fazem a planta ser contraindicada para quem tem alergia a Asteraceae — a mesma família da camomila, da calêndula e da arnica. E a achileína é o constituinte com atividade anticoagulante em estudo pré-clínico, origem da proibição de combinar a planta com anticoagulantes, detalhada em mil-folhas e remédios.

A lista completa de quem deve ficar de fora está em quem não pode tomar mil-folhas. O índice das outras espécies já publicadas fica em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Mil-folhas e mil-em-rama são a mesma planta?

São. A monografia FT001 registra os dois nomes populares para a mesma espécie, Achillea millefolium L. Em outras regiões ela também aparece como novalgina, dipirona ou aquileia. O nome científico é o que resolve, porque o gênero Achillea tem dezenas de espécies e só esta tem monografia no Formulário brasileiro.

Qual parte da planta se usa?

A parte aérea, seca e rasurada. A Europa vai além e separa duas drogas vegetais: Millefolii herba, a parte aérea, e Millefolii flos, só as flores, cada uma com monografia e dose próprias. O Formulário brasileiro tem uma monografia só, e ela é da parte aérea.

A mil-folhas serve para ansiedade ou pressão alta?

Não há indicação registrada para nenhuma das duas, nem no Brasil nem na Europa. Existem estudos em ratos que mostram queda de pressão arterial, mas o próprio comitê europeu anotou que a relevância clínica é desconhecida. E o Formulário proíbe usar a planta junto com anti-hipertensivos.

Existe fitoterápico industrializado de mil-folhas no Brasil?

O Formulário descreve fórmulas de manipulação, que não são a mesma coisa que medicamento registrado. Ele serve de referência para farmácia magistral e para o sistema de notificação simplificada da Anvisa. As cinco fórmulas da FT001 são três infusos e duas tinturas.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: as cinco fórmulas (três infusos de parte aérea e duas tinturas), as indicações de auxiliar no alívio de sintomas dispépticos, colerético, antiflatulento, antiespasmódico e anti-inflamatório, mais dismenorreia leve e lesões cutâneas superficiais, a faixa etária acima de 12 anos e a lista de contraindicações
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376416/2019, adotada em 23 de setembro de 2020): as quatro indicações de uso tradicional, a coluna de uso bem estabelecido vazia em todas as seções clínicas e a ausência de colerético e de anti-inflamatório entre elas
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376415/2019): a frase de que até hoje nenhum estudo clínico investigou os efeitos da mil-folhas administrada por via oral, a composição da droga vegetal e a lista de dados apenas pré-clínicos que sustentam as indicações

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026