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Guia da Saúde

Por que choramos ao cortar cebola: a enzima da lágrima

A cebola não guarda gás lacrimogêneo pronto: ela guarda as peças. O composto que faz chorar, o propanetial S-óxido, só é fabricado depois que a faca rompe a célula e duas enzimas agem em sequência — a aliinase e a lachrymatory factor synthase. Cebola intacta não irrita porque a reação ainda não aconteceu.

A via, em duas enzimas

O ponto de partida é um aminoácido sulfurado armazenado na cebola: a trans-S-1-propenil-L-cisteína sulfóxido, abreviada como PRENCSO. Enquanto a célula está inteira, ele fica separado das enzimas que o transformariam.

Quando a faca corta, começa a cascata:

  1. A aliinase age sobre o PRENCSO e produz o ácido 1-propenil sulfênico — descrito na literatura como produto putativo dessa reação, isto é, inferido pela química, não isolado estável.
  2. A lachrymatory factor synthase (LFS) converte esse ácido sulfênico no fator lacrimogêneo, identificado como propanetial S-óxido.

A frase que fecha o raciocínio é a mais importante desta página: o fator lacrimogêneo é produzido por reações enzimáticas sucessivas que ocorrem sobre a ruptura do tecido da cebola. Sem ruptura, sem reação. É por isso que uma cebola guardada na gaveta é inofensiva e a mesma cebola picada esvazia a cozinha.

Por que o alvo é justamente o olho

O propanetial S-óxido é volátil — sobe da tábua como vapor. E o olho é a única superfície mucosa exposta ao ar sem qualquer filtro: a córnea e a conjuntiva ficam desprotegidas, enquanto o nariz e a boca têm muco e desvio de fluxo. O lacrimejamento que se segue é a resposta padrão de lavagem da superfície ocular a um irritante químico, o mesmo sistema descrito em como funciona a visão.

Vale registrar o que a fonte não diz: a via bioquímica está bem estabelecida, mas as receitas populares para não chorar — água corrente, faca gelada, respirar pela boca — não são objeto desses trabalhos. O que o mecanismo permite afirmar é apenas isto: só há duas alavancas reais, produzir menos (menos ruptura celular) ou transportar menos (menos vapor chegando ao olho).

A prova pelo avesso: a cebola sem lágrima

A confirmação mais elegante da via não veio de medir o vapor, mas de desligá-la. Já foram relatadas cebolas em que a aliinase ou a lachrymatory factor synthase foram suprimidas por interferência de RNA — e o efeito lacrimogêneo desaparece.

Isso separa duas coisas que se confundem na cozinha. O enxofre da cebola é o mesmo que dá sabor à hortaliça, cuja composição está em tabela nutricional da cebola; o que faz chorar é apenas um dos produtos finais da cascata. Suprimir a última enzima da via tira a lágrima sem apagar toda a química sulfurada da planta.

E há um detalhe cronológico que costuma passar batido: o propanetial S-óxido foi identificado como o fator lacrimogêneo décadas antes de alguém descobrir como ele se formava. Durante todo esse tempo, presumia-se que o composto surgisse espontaneamente depois da ação da aliinase. Foi o trabalho publicado na Nature em 2002 que mostrou existir uma segunda enzima dedicada à tarefa. Saber qual é a molécula não era o mesmo que saber de onde ela vinha.

Perguntas frequentes

Por que a cebola inteira não faz chorar?

Porque o composto irritante não existe na cebola intacta. Ele é produzido por reações enzimáticas sucessivas que ocorrem apenas quando o tecido da cebola é rompido — o precursor e as enzimas ficam separados enquanto a célula está fechada.

Existe cebola que não faz chorar?

Já foram relatadas cebolas em que a aliinase ou a lachrymatory factor synthase foram suprimidas por interferência de RNA. Desligando qualquer uma das duas etapas da via, o fator lacrimogêneo deixa de ser formado.

Cortar perto de água ou com faca gelada resolve?

A literatura descreve a via bioquímica, não a eficácia de truques de cozinha. O que o mecanismo permite dizer é objetivo: qualquer coisa que reduza a ruptura celular ou a chegada do vapor aos olhos age sobre uma das duas pontas do processo — a produção ou o transporte.

Chorar de cebola é o mesmo que chorar de emoção?

A lágrima é a mesma resposta de proteção da superfície do olho a um irritante. A diferença está no gatilho: aqui não há componente emocional, apenas um composto volátil alcançando a córnea e a conjuntiva.

Há quanto tempo se conhece o composto responsável?

O propanetial S-óxido foi identificado como o fator lacrimogêneo décadas antes de se descobrir como ele se forma. A enzima que o produz, a lachrymatory factor synthase, só foi identificada em 2002.

Fontes

  1. Production and characterization of tearless and non-pungent onion (revisão e trabalho experimental publicado no PubMed Central): o fator lacrimogêneo da cebola é produzido a partir da trans-S-1-propenil-L-cisteína sulfóxido (PRENCSO) por reações sucessivas catalisadas pela aliinase; o fator é formado a partir do ácido 1-propenil sulfênico pela enzima lachrymatory factor synthase (LFS), sendo o ácido sulfênico o produto putativo da reação da aliinase sobre o PRENCSO; o fator lacrimogêneo foi identificado como propanetial S-óxido; as reações enzimáticas sucessivas ocorrem somente na ruptura do tecido da cebola; e já foram relatadas cebolas em que a aliinase ou a LFS foram suprimidas por interferência de RNA
  2. Imai S, Tsuge N, Tomotake M, Nagatome Y, Sawada H, Nagata T, Kumagai H, An onion enzyme that makes the eyes water (Nature, 419:685, 2002): identificação da lachrymatory factor synthase, a enzima que catalisa a formação do fator lacrimogêneo da cebola — antes da descoberta, presumia-se que o composto se formasse espontaneamente após a ação da aliinase

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026