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Guia da Saúde

Remédio natural para cicatrização: as 3 do documento

A palavra cicatrizante aparece em exatamente três seções INDICAÇÕES do Formulário de Fitoterápicos: babosa (FT006-00), jucá (FT043-00) e barbatimão (FT075-01). Todas de uso externo. E a monografia da mais famosa das três cita, como referência, uma revisão Cochrane que chega à conclusão contrária.

A referência que contradiz a indicação

A indicação da babosa é generosa: “como cicatrizante nos casos de ferimentos leves, desordens inflamatórias na pele, incluindo queimaduras (de 1º e 2º grau), escoriações e abrasões”. Ela vem seguida de seis referências, e uma delas é Dat e colaboradores, 2012 — a revisão Cochrane Aloe vera for treating acute and chronic wounds.

Aberta no PubMed sob o PMID 22336851, essa revisão reuniu sete ensaios e 347 participantes e relatou, entre outros resultados:

  • em úlcera por pressão, nenhuma diferença estatisticamente significativa na cicatrização;
  • em feridas cirúrgicas que cicatrizam por segunda intenção, o Aloe vera atrasou a cicatrização numa diferença média de 30 dias (IC 95% 7,59 a 52,41);
  • e a conclusão dos autores, literal: “There is currently an absence of high quality clinical trial evidence to support the use of Aloe vera topical agents or Aloe vera dressings as treatments for acute and chronic wounds.”

Não é um detalhe de rodapé. É a referência mais recente e mais forte da lista, e ela diz o contrário do que a linha de indicação afirma. Isso não torna a babosa proibida — a indicação brasileira segue valendo e a monografia segue sendo a regra aqui. Mas muda a expectativa de quem aplica: o dado disponível não sustenta ferida que fecha mais rápido, e há um cenário em que fechou mais devagar. A leitura da espécie está em babosa para cicatrização.

As três, lado a lado

PlantaIndicação registradaComo se usaIdade
Babosa (FT006-00)cicatrizante em ferimentos leves, desordens inflamatórias da pele, escoriações e abrasõesgel nas áreas afetadas, 1 a 3 vezes ao diaadulto
Jucá (FT043-00)cicatrizante e antissépticocreme no local afetado, 2 vezes ao diaadulto
Barbatimão (FT075-01)cicatrizante e antisséptico da pele e mucosasbochecho com o decocto 2 a 3 vezes ao dia, ou pomada 1 a 2 vezes ao dianão especificada

O barbatimão é o único que inclui mucosa na indicação, e por isso é o único com uma via de bochecho. A pomada dele tem uma exigência de composição rara no documento: o extrato aquoso seco precisa conter no mínimo 22% de polifenóis, obtido na razão 12-16:1. E vem uma advertência de farmacotécnica que quase ninguém conhece: “plantas ricas em taninos não devem ser usadas junto com plantas ricas em alcaloides, pois são incompatíveis com formação de sais insolúveis”.

O jucá, por sua vez, tem o preparo mais trabalhoso: extrato glicólico feito a partir de 200 g de fruto sem semente, macerado por sete dias em álcool e propilenoglicol, depois incorporado ao creme.

As que tratam ferida sem usar a palavra

Quatro monografias descrevem exatamente o mesmo cenário sem dizer “cicatrizante” — e é aqui que a leitura literal importa, porque a indicação delas é mais estreita:

  • mil-folhas (FT001-00), Fórmula 3: “auxiliar no tratamento local de pequenas lesões cutâneas superficiais”, uso externo. O detalhe: se durante o uso surgir prurido ou sinal de infecção cutânea, o uso deve ser descontinuado. Está em mil-folhas para cicatrização;
  • equinácea (FT025-00), pomada da planta inteira fresca: mesma frase, pequenas lesões cutâneas superficiais, com o teto mais curto de todos — não deve ser usada por mais de uma semana — e a ordem de interromper se aparecerem sinais de infecção na pele. Está em equinácea para cicatrização;
  • cavalinha (FT027-01), Fórmula 2: idem, aplicada com algodão diversas vezes ao dia. Está em cavalinha para cicatrização;
  • calêndula (FT015-00): “inflamações leves da pele (…) e ferimentos de menor gravidade”, com compressa de 30 a 60 minutos sobre o local, de duas a quatro vezes ao dia, e reavaliação em uma semana. É a única do conjunto liberada para criança — acima de 6 anos na pele. Está em calêndula.

Reparou no padrão? Pequenas lesões superficiais. Nenhuma dessas indicações fala de ferida profunda, cirúrgica, crônica ou infectada.

O que o documento proíbe em pele rompida

Vale ler o contrário também, porque é a parte que mais se ignora. Três monografias de uso tópico dizem, com todas as letras, para não aplicar em ferida:

  • arnica (FT012-01): “não utilizar por via oral e em lesões abertas”; aplicar apenas em pele íntegra;
  • confrei (FT076-00): aplicar apenas na pele íntegra, sem solução de continuidade; nunca internamente, por hepatotoxicidade;
  • castanha-da-índia (FT004-00): as formulações tópicas “não devem ser utilizadas em feridas abertas, em torno dos olhos e em mucosas”.

O uso dessas três em trauma fechado está em remédios naturais para dor muscular. E queimadura, apesar de aparecer na indicação da babosa, tem conduta própria e um alerta da OMS que muda tudo — está em remédios naturais para queimadura.

Quando a ferida deixa de ser ferida pequena

Procure atendimento se o corte for profundo, tiver bordas afastadas ou expuser gordura, músculo ou osso; se não parar de sangrar com pressão; se foi causado por mordida de animal ou humano, por objeto enferrujado ou sujo, ou por vidro que pode ter ficado dentro; se houver perda de sensibilidade ou de movimento; se a região ficar vermelha em expansão, quente, muito dolorida, com pus ou cheiro; se surgir febre; se a ferida não mostrar melhora em duas semanas ou for de pessoa com diabetes, imunossupressão ou má circulação. Vacina antitetânica desatualizada também é motivo de consulta.

Limpar a ferida com peróxido de hidrogênio é um hábito que atrapalha mais do que ajuda — o motivo está em água oxigenada na pele. E a estrutura que precisa se refazer para uma cicatriz existir está descrita em camadas da pele.

O índice das demais queixas fica em chá para cada sintoma.

Perguntas frequentes

Babosa cicatriza mesmo?

A indicação brasileira existe e é ampla. Mas a revisão Cochrane que a própria monografia lista como referência concluiu que falta evidência de boa qualidade, e num dos cenários avaliados o Aloe vera atrasou a cicatrização em 30 dias. Indicação registrada e evidência clínica são coisas diferentes.

Pode passar chá na ferida aberta?

As três indicações com a palavra cicatrizante são de uso externo, mas cada uma tem sua preparação e frequência. Fora dessas, a regra do documento é a oposta: arnica, confrei e castanha-da-índia proíbem aplicação em lesão aberta. Não existe regra geral de que planta pode ir em ferida.

Criança pode usar essas plantas em machucado?

A babosa e o jucá são de uso adulto, contraindicados abaixo de 18 anos, na gestação e na lactação. A calêndula é a mais permissiva do grupo: uso adulto e pediátrico acima de 6 anos na pele, e acima de 12 anos na mucosa oral.

Quanto tempo antes de procurar ajuda?

A calêndula manda consultar se os sintomas persistirem após uma semana ou se houver sinais de infecção cutânea, e a equinácea de uso externo tem teto de uma semana. Ferida que não fecha, aumenta, cheira mal ou vem com febre não é caso de repetir aplicação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): as três únicas monografias cuja seção INDICAÇÕES usa a palavra cicatrizante — FT006-00 (Aloe vera, babosa), FT043-00 (Libidibia ferrea, jucá) e FT075-01 (Stryphnodendron adstringens, barbatimão) —, todas de uso externo; mais as indicações vizinhas que descrevem ferida sem usar a palavra: FT001-00 (mil-folhas, Fórmula 3), FT025-00 (Echinacea purpurea planta inteira, com teto de uma semana), FT027-01 (cavalinha, Fórmula 2) e FT015-00 (calêndula, ferimentos de menor gravidade)
  2. Dat AD, Poon F, Pham KB, Doust J. Aloe vera for treating acute and chronic wounds. Cochrane Database of Systematic Reviews 2012;2:CD008762 (PMID 22336851) — a revisão de sete ensaios e 347 participantes citada pela própria monografia FT006-00, que não encontrou diferença na cicatrização de úlcera por pressão, registrou atraso significativo de 30 dias na cicatrização de feridas cirúrgicas por segunda intenção e concluiu haver ausência de evidência de ensaio clínico de boa qualidade para apoiar o uso de agentes tópicos ou curativos de Aloe vera em feridas agudas e crônicas
  3. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026), monografia FT075-01, Stryphnodendron adstringens (barbatimão): a indicação de cicatrizante e antisséptico da pele e mucosas, o decocto da entrecasca de galho fervido por 5 minutos usado em bochecho de duas a três vezes ao dia, a pomada com extrato aquoso seco contendo no mínimo 22% de polifenóis aplicada de uma a duas vezes ao dia, e a advertência de que plantas ricas em taninos não devem ser usadas junto de plantas ricas em alcaloides

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 9 de agosto de 2026