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Guia da Saúde

Sabugueiro para gripe: o que a fonte oficial diz

A monografia brasileira do sabugueiro tem uma seção de indicações com uma frase, e a palavra gripe não está nela: “Auxiliar no tratamento dos sintomas iniciais do resfriado comum”. Resfriado, e no começo. É bem menos do que o rótulo do xarope promete — e o motivo dessa modéstia está documentado.

Resfriado e gripe não são a mesma indicação

Parece preciosismo, e não é. Resfriado comum e gripe são quadros diferentes, com vírus diferentes, gravidade diferente e complicações diferentes — a distinção está em gripe e resfriado: as diferenças, e os quadros em sintomas de gripe e sintomas de resfriado.

A monografia brasileira e a europeia usam exatamente a mesma palavra, e é resfriado. A europeia acrescenta uma qualificação que o Brasil manteve: early symptoms, sintomas iniciais. Nenhuma das duas diz influenza, nenhuma diz gripe.

E há uma inversão curiosa dentro do próprio Formulário brasileiro: a espécie que tem gripe escrita na indicação é a nativa, não a europeia. A FT071, do sabugueiro-do-brasil, indica “sintomas decorrentes de gripe e resfriado comum”. Duas plantas do mesmo gênero, no mesmo documento, com alcances diferentes — o assunto de sabugueiro-do-brasil para gripe.

O relatório europeu responde “No data found” quatro vezes seguidas

Aqui está o dado mais duro desta página. O relatório de avaliação da EMA sobre a flor de sabugueiro tem uma sequência de seções sobre eficácia clínica, e o conteúdo delas é sempre o mesmo:

Seção do relatórioConteúdo
4.2.1 — Estudos de dose-respostaNo data found
4.2.2 — Estudos clínicos (casos e ensaios)No data found
4.3 — Estudos em populações especiaisNo data found
4.4 — Conclusões sobre farmacologia clínica e eficáciaNo data found

E a conclusão geral fecha o raciocínio: “There are no clinical data available. The criteria for ‘well-established medicinal use’ require clinical data according to directive 2001/83/EC.” É por isso que, na monografia, a coluna de uso bem estabelecido está inteiramente vazia, da primeira seção à última. O que sustenta a indicação é o tempo de uso — pelo menos 30 anos, sendo 15 na União Europeia —, não um ensaio.

E os estudos que existem? São de outra parte da planta

Os ensaios clínicos de sabugueiro que circulam em notícia e em rótulo não são da flor. São do fruto, o elderberry — e o fruto, como já vimos, é o material que a agência europeia avaliou e concluiu que não dava para transformar em monografia.

Mesmo nesse material, a evidência é mais modesta do que a propaganda:

  • uma revisão sistemática de 2021 incluiu cinco ensaios randomizados e concluiu que o sabugueiro pode não reduzir o risco de desenvolver resfriado comum; que pode reduzir duração e gravidade do resfriado, e pode reduzir a duração da gripe, mas que a evidência é incerta em todos esses desfechos. A mesma revisão não encontrou sinal de que o sabugueiro superestimule o sistema imune;
  • uma metanálise de 2019, muito citada como prova de eficácia, analisou 180 participantes no total — e os próprios autores abrem o resumo dizendo que não existem estudos de grande porte sobre o assunto.

Cento e oitenta pessoas somadas é pouco para carregar uma categoria inteira de produto. Isso não significa que o fruto não funcione; significa que quem afirma que funciona está afirmando mais do que os dados permitem — e que a flor, que é o que a monografia brasileira padroniza, sequer entra nessa conta.

O que fazer com a informação

Se a queixa é resfriado que começou hoje, o chá está descrito, tem dose e tem prazo, e o preparo está em chá de sabugueiro. Se a queixa é gripe, a monografia não oferece essa indicação, e há um limite de uma semana antes de procurar avaliação. A ficha completa da planta fica em sabugueiro, e o que a fonte registra sobre reações em sabugueiro: efeitos colaterais.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e, no caso da gripe, tem também um limite de indicação que está escrito e costuma ser ignorado.

Perguntas frequentes

Então o sabugueiro não serve para nada em quadro respiratório?

Serve para o que está escrito: aliviar os sintomas iniciais do resfriado comum, por uso tradicional. É uma indicação estreita e real. O que a fonte não sustenta é o degrau seguinte, que é tratar gripe, encurtar a doença ou prevenir infecção.

Sabugueiro substitui a vacina da gripe?

Não, e nenhum documento consultado sugere isso. Prevenção de influenza não aparece como indicação em nenhuma das duas monografias, e a revisão sistemática mais recente encontrou evidência incerta até para o desfecho de duração. Vacinação é outra categoria de intervenção, com outro tipo de evidência.

Por que o xarope importado promete tanto mais do que o chá?

Porque são produtos diferentes com regras diferentes. O xarope costuma ser feito do fruto e vendido como suplemento alimentar, categoria que não passa pela avaliação de indicação terapêutica. O chá segue uma monografia de preparação em farmácia, cuja indicação é avaliada e escrita — e por isso é mais modesta.

Quando parar de esperar e procurar um médico?

A monografia dá três gatilhos nominais: dispneia, febre ou expectoração com secreção purulenta. E dá um prazo: uma semana. Se os sintomas persistirem além disso, ou piorarem antes, a instrução escrita é suspender o uso e procurar um médico.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT072, Sambucus nigra L.: a seção INDICAÇÕES com a frase única auxiliar no tratamento dos sintomas iniciais do resfriado comum, sem menção a gripe ou influenza, e o limite de uma semana de uso com consulta médica se não houver melhora
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Sambucus nigra L., flos (EMA/HMPC/611512/2016): a indicação registrada apenas na coluna de uso tradicional, com a coluna de uso bem estabelecido vazia, e a duração de uso de uma semana
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Sambucus nigra L., flos (EMA/HMPC/611504/2016): as seções 4.2.1, 4.2.2, 4.3 e 4.4 preenchidas com No data found e a conclusão explícita de que não há dados clínicos disponíveis, o que impede a classificação como uso bem estabelecido
  4. European Medicines Agency (HMPC) — Public statement on Sambucus nigra L., fructus (EMA/HMPC/32465/2013, versão final): a conclusão de que não é possível estabelecer monografia para o fruto do sabugueiro, que é a matéria-prima dos xaropes e cápsulas vendidos para gripe
  5. Wieland LS et al. (2021), BMC Complementary Medicine and Therapies 21(1):112 — revisão sistemática sobre sabugueiro na prevenção e no tratamento de doenças respiratórias virais: os cinco ensaios randomizados incluídos, a conclusão de que o sabugueiro pode não reduzir o risco de desenvolver resfriado comum e de que pode reduzir a duração da gripe, com evidência incerta nos dois casos
  6. Hawkins J et al. (2019), Complementary Therapies in Medicine 42:361-365 — metanálise de ensaios clínicos randomizados sobre suplementação com sabugueiro em sintomas de vias aéreas superiores: o total de 180 participantes analisados e a ausência, declarada pelos autores, de estudos de grande porte sobre o assunto

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026