Sabugueiro: efeitos colaterais, o que consta
A resposta que a fonte dá é desconfortável de tão curta. Na monografia europeia do sabugueiro, a seção de efeitos indesejáveis tem duas palavras: none known. A de interações tem duas: none reported. E a de superdosagem registra nenhum caso relatado. Os danos documentados com esta planta não vêm da flor — vêm da parte errada, do fruto cru e do álcool.
Dois relatos em toda a base da OMS
O número é esse e está no relatório de avaliação: na base VigiLyze, do centro de monitoramento de Uppsala da Organização Mundial da Saúde, havia até novembro de 2017 apenas 2 relatos espontâneos de suspeita de reação adversa associada a Sambucus nigra flor como ingrediente isolado — e as reações se espalhavam por classes de órgãos diferentes, sem padrão. O comentário do avaliador é seco: “There are not sufficient safety data to include any undesirable effects in section 4.8 in the monograph.”
Vale ler esse “nenhum efeito conhecido” com as duas mãos. De um lado, é uso tradicional longo sem alarme. De outro, a mesma avaliação afirma, sobre eficácia e sobre segurança clínica, uma frase que se repete página após página: “No data found.” Onde não há estudo, também não há detecção.
Os riscos que existem, e de onde vêm
Nenhum dos três está na flor preparada como manda a monografia:
- A folha. A FT072 é categórica: “Não utilizar as folhas, pois contêm glicosídeos cianogênicos tóxicos”. Não é advertência de dose, é proibição de matéria-prima — e vale igual na monografia da espécie brasileira.
- O fruto cru ou verde. O NIH descreve que frutos crus ou verdes, além de folhas e caule, contêm substâncias cianogênicas venenosas capazes de causar náusea, vômito e diarreia grave, e que o cozimento elimina a toxina. O CDC chegou a publicar, no boletim epidemiológico de 6 de abril de 1984, um relato de intoxicação por suco de sabugueiro na Califórnia. É a razão pela qual xarope caseiro feito com o que se colhe do quintal é uma ideia ruim.
- O álcool. A tintura e o extrato fluido são feitos com álcool etílico a 25%, e é por isso que a monografia os contraindica para alcoolistas, diabéticos e menores de 18 anos. A conta de quanto álcool há na dose diária está em tintura de sabugueiro.
O que o dado pré-clínico mostra, e o que ele não autoriza dizer
O relatório europeu descreve dois achados em animais que valem como sinalização, não como efeito colateral humano. O infuso de flor teve efeito diurético em ratos, maior do que o observado com teofilina na comparação daquele estudo. E um extrato de flor administrado por via oral a ratos encurtou o tempo de indução do sono por pentobarbital e prolongou o sono, sem alterar a analgesia da morfina.
Nada disso virou efeito indesejável na monografia, nem interação. Mas o efeito diurético é a única pista mecanística de um ponto que aparece do outro lado desta série: a monografia da espécie brasileira adverte que o uso prolongado de espécies de sabugueiro pode induzir hipocalemia — e essa advertência não está na monografia da espécie europeia, que usa dose muito maior. A assimetria é real e está descrita em sabugueiro-do-brasil: efeitos colaterais.
Os sinais que mandam parar
Não são reações à planta: são sinais de que o quadro não é mais o resfriado que ela se propõe a aliviar. A FT072 nomeia três — dispneia, febre e expectoração com secreção purulenta — e manda suspender o uso e procurar um médico. Acrescenta ainda que não se deve usar em doses acima das recomendadas, que estão em chá de sabugueiro, e que o uso não passa de uma semana. Quem está fora da planta desde o começo aparece em quem não pode tomar sabugueiro.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e “nenhum efeito conhecido” não é sinônimo de inofensivo, é o estado de uma investigação que quase não foi feita.
Perguntas frequentes
Chá de sabugueiro pode dar diarreia?
A seção de efeitos indesejáveis da monografia europeia diz none known, então não há reação registrada para a flor preparada como chá. Náusea, vômito e diarreia grave aparecem sim na literatura do NIH, mas associados a fruto cru ou verde, folha e caule — matéria-prima diferente da que a monografia autoriza.
Dá para tomar todo dia por tempo indeterminado?
Não. A FT072 escreve que o produto não deve ser utilizado por mais de uma semana e que, não havendo melhora, um médico deve ser consultado. Não há nenhuma fórmula da monografia pensada para uso contínuo, e nenhuma avaliação de segurança de uso prolongado da flor.
Sabugueiro dá sono?
Não é um efeito registrado em humanos. O relatório da EMA descreve um experimento em ratos em que o extrato de flor alterou o tempo de sono induzido por pentobarbital, encurtando a indução e prolongando o sono. É dado pré-clínico, com um sedativo injetado, e não sustenta afirmação sobre pessoas.
Por que tão poucos relatos de reação adversa?
Duas explicações convivem, e o relatório europeu deixa as duas visíveis. Uma é o uso tradicional longo sem sinal de alarme. A outra é que a mesma avaliação declara não existir nenhum dado clínico para a flor — e onde não se estuda, também não se detecta. Poucos relatos é uma informação sobre a vigilância, não só sobre a planta.
Fontes
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Sambucus nigra L., flos (EMA/HMPC/611512/2016): a seção 4.8 de efeitos indesejáveis, que registra none known, a seção 4.5 de interações, que registra none reported, e a seção 4.9, que registra nenhum caso de superdosagem relatado
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Sambucus nigra L., flos (EMA/HMPC/611504/2016): os 2 relatos espontâneos de suspeita de reação adversa com Sambucus nigra flor isolada na base VigiLyze do centro de monitoramento de Uppsala da OMS até novembro de 2017, o comentário do avaliador de que não há dados suficientes para incluir efeito indesejável na seção 4.8, e a descrição do efeito diurético do infuso de flor em ratos e da alteração do tempo de sono induzido por pentobarbital
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT072, Sambucus nigra L.: a proibição de utilizar as folhas por conterem glicosídeos cianogênicos tóxicos, a instrução de suspender o uso em caso de dispneia, febre ou expectoração purulenta e a advertência de não utilizar em doses acima das recomendadas
- NCCIH — National Center for Complementary and Integrative Health (NIH), verbete Elderberry: a descrição de que frutos crus ou verdes, folhas e caule contêm substâncias cianogênicas venenosas capazes de causar náusea, vômito e diarreia grave, e a orientação de conversar com um profissional de saúde antes de usar sabugueiro junto com qualquer medicamento
- Centers for Disease Control and Prevention — Poisoning from elderberry juice, California. MMWR Morbidity and Mortality Weekly Report, 6 de abril de 1984, 33(13):173-174: o registro oficial de um episódio de intoxicação por suco de sabugueiro
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026