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Guia da Saúde

Temperatura da água para chá: a norma não dá número

O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa não dá temperatura para a água do chá. Em todo o documento há sete valores em graus Celsius, e nenhum deles se refere ao preparo da bebida. No lugar do número, a norma descreve um estado: água fervente para infusão, ebulição para decocção, temperatura ambiente para maceração.

As sete temperaturas do documento, e o que cada uma mede

Vale listar, porque a lista é o argumento. Procurando todos os valores em graus Celsius nas 85 monografias e nas generalidades do Formulário, aparecem estes:

TemperaturaPara que serve
15 a 30 ºCFaixa de armazenamento das matérias-primas e produtos
39 ºCLimiar de febre que, na monografia do salgueiro, manda procurar médico
45 ºCSecagem da planta em estufa de ar circulante, por três dias
Abaixo de 50 ºCIncorporação de polifenóis e alcaloides em formulações, para evitar degradação
75 a 80 ºCPasteurização do gel de babosa, por menos de 3 minutos
85 ºCAquecimento das fases de um creme de barbatimão

Secagem, armazenamento, manipulação farmacêutica, febre. Nenhuma linha sobre a água que vai para a xícara. Não é esquecimento: é a escolha de descrever o preparo por um fenômeno observável em vez de um número que exigiria termômetro.

Estado observável, não número

As definições do documento são todas assim:

Infusão“verter água fervente sobre a droga vegetal e, em seguida, se aplicável, tampar ou abafar o recipiente por tempo determinado”.

Decocção“a ebulição da droga vegetal em água potável por tempo determinado”.

Maceração — manter a droga vegetal “em contato com o líquido extrator apropriado, por tempo determinado”, em recipiente ao abrigo da luz.

Fervente, ebulição, ambiente. A monografia europeia usa a mesma gramática — a de Species sedativae dosa a mistura “in 150 ml of boiling water as a herbal infusion”. Água fervente é uma condição que qualquer pessoa reconhece sem instrumento, e que se mantém idêntica em qualquer altitude, ainda que o termômetro marque valores diferentes.

Na prática, a única decisão de temperatura que a norma pede é em que momento a água encontra a planta: já fervente e fora do fogo, na infusão; junto e no fogo, na decocção. Essa é a distinção que organiza tudo, e está em como fazer infusão e como fazer decocção.

O que a norma exige da água, já que não exige graus

Ela exige duas outras coisas, e as duas ficam numa seção que quase ninguém lê — a de dispensação:

“Nas preparações extemporâneas, a água a ser utilizada na preparação de infusos, decoctos ou macerados, pelo usuário, deve ser a potável. Deve-se orientar o usuário para que essa água seja filtrada ou fervida antes do emprego nas formulações.”

Repare no detalhe: a exigência de filtrar ou ferver vale antes de a água entrar na fórmula, e vale inclusive para o macerado, que nunca será aquecido. Ou seja, a preocupação da norma com a água não é térmica — é microbiológica e de pureza. Para a manipulação em farmácia, o requisito sobe mais um degrau: ali a água deve ser purificada, e não apenas potável.

Por que não existe “água a 70 graus” nesta norma

Quem vem da cultura do chá verde e do café espera faixas: 80 ºC para tal folha, 90 ºC para tal torra. Esse repertório não tem correspondente aqui, por dois motivos.

O primeiro é que as folhas de Camellia sinensis — chá verde, branco, preto — não estão entre as 85 espécies do Formulário. As recomendações de água mais fria que circulam para elas vêm do controle de amargor e da tradição da bebida, não de norma sanitária brasileira.

O segundo é que, quando o calor é de fato incompatível com a droga vegetal, a resposta do documento não é abaixar a temperatura da água: é mudar de técnica e ir para a maceração, à temperatura ambiente, com recipiente e prazo próprios. Não há categoria intermediária. Esse ponto, com os casos documentados — o alho e a raiz de altéia —, está em água fervente estraga o chá?.

O calor que continua depois de a água encontrar a planta

Uma consequência prática que a leitura apressada perde: o preparo não termina quando a água é vertida. O infuso segue quente enquanto descansa, e várias posologias marcam o momento de tomar justamente porque ele precisa esfriar um pouco — “tomar 150 mL do infuso, 10 minutos após o preparo”. Essa contagem, que não é a do tempo de infusão, está em quanto tempo deixar o chá em infusão.

Uma monografia inverte a lógica e usa o calor residual como parte da extração: a da espinheira-santa manda ferver cinco minutos e deixar arrefecer em contato com a água por mais quinze. E a do salgueiro exige tomar o decocto “recentemente preparado e ainda morno” — a temperatura do que se bebe entrou na posologia, enquanto a temperatura da água de preparo continuou fora dela.

Chá quente demais para beber é, por si só, motivo para esperar. E nenhum ajuste de temperatura muda quem pode tomar cada planta: idade mínima, gestação, amamentação e interação com medicamento estão na monografia da espécie, reunidas em plantas medicinais. Sintoma que persiste ou piora pede serviço de saúde, não água mais quente.

Perguntas frequentes

Qual a temperatura da água fervente?

Ao nível do mar, a água ferve em torno de 100 ºC, e o ponto cai com a altitude. É justamente por isso que a norma descreve um estado observável, a fervura, e não um número: bolha subindo é a mesma coisa em Santos e em Campos do Jordão, mesmo que o termômetro marque valores diferentes.

Termômetro de cozinha ajuda em alguma coisa?

Ajuda em preparo de café e de chá verde, onde a cultura da bebida trabalha com faixas específicas. Para as espécies do Formulário de Fitoterápicos, não há faixa oficial a controlar: a instrução é ferver e verter, ou ferver junto, ou não aquecer. Um termômetro não tem o que medir aqui.

A água precisa estar quente ou fervente para a maceração?

Nem uma nem outra. A maceração é feita à temperatura ambiente, e é exatamente essa a razão de ela existir como técnica separada: atender às drogas cujas substâncias se degradam com o calor. A definição do documento fala em contato com o líquido extrator por tempo determinado, sem aquecimento.

Reaquecer a água já fervida antes muda alguma coisa?

Do ponto de vista da norma, o que importa é que a água esteja fervente no momento de verter e que ela seja potável, filtrada ou fervida. Ferver de novo cumpre os dois requisitos. As objeções a reaquecer água tratam de sabor e de concentração de minerais, não de norma sanitária de preparo.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a definição de infusão por água fervente e de decocção por ebulição, sem indicação de temperatura em graus para a água de preparo, as sete temperaturas em graus Celsius que o documento efetivamente cita — 39 ºC como limiar de febre, 45 ºC de secagem, abaixo de 50 ºC para incorporação de polifenóis e alcaloides, 75 a 80 ºC de pasteurização do gel de babosa, 85 ºC nas fases de creme e 15 a 30 ºC de armazenamento — e a orientação de dispensação sobre água potável filtrada ou fervida
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Species sedativae (EMA/HMPC/438183/2017): a posologia expressa como 1,5 a 4 g da mistura em 150 mL de água fervente, exemplo de que a monografia europeia também descreve o estado da água e não a sua temperatura em graus

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026