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Guia da Saúde

Termalismo e crenoterapia: o que o SUS diz e o que não

Termalismo é o uso da água mineral em tratamento de saúde; crenoterapia é a indicação dessa água com finalidade terapêutica. As duas definições estão na política nacional do SUS desde 2006 — e é exatamente aí que mora o problema desta página: o texto oficial não registra uma única indicação clínica, nem cita um único estudo. Só história.

A seção que só tem passado

A subseção 1.4 da Portaria GM/MS nº 971/2006 é curta e vale ser lida pelo que ela não faz. Em poucos parágrafos, ela informa que o uso de águas minerais é “um procedimento dos mais antigos, utilizado desde a época do Império Grego”, que Heródoto o descreveu por volta de 450 a.C., que a crenoterapia chegou ao Brasil com a colonização portuguesa, que já foi disciplina em escolas médicas como a UFMG e a UFRJ, que perdeu produção científica após a Segunda Guerra, que países europeus adotam termalismo social desde o início do século XX, que o campo consta das resoluções CIPLAN de 1988 e que a Resolução CNS nº 343, de 7 de outubro de 2004, fortaleceu as ações governamentais na área.

Tudo isso é verdadeiro e nada disso é clínico. Não há, na seção inteira, uma doença, um sintoma, uma posologia, um tempo de imersão, uma temperatura ou uma referência bibliográfica de eficácia.

O contraste está na mesma portaria, poucas páginas antes. A seção sobre acupuntura reproduz o consenso do National Institutes of Health e lista as condições: odontalgia pós-operatória, náusea e vômito pós-quimioterapia, dependências químicas, reabilitação após AVC, dismenorreia, cefaleia, epicondilite, fibromialgia, dor miofascial, osteoartrite, lombalgia e asma. Duas práticas no mesmo documento, dois padrões de justificativa: uma é sustentada por evidência citada, a outra por antiguidade. O que a evidência diz sobre a primeira está em a acupuntura funciona.

A prática que foi “incluída” numa política em que já estava

Há um segundo achado, e ele é o motivo pelo qual circula por aí o número errado de práticas do SUS.

O Art. 1º do anexo da Portaria nº 702, de 21 de março de 2018, diz: “Ficam incluídas, na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares - PNPIC, as seguintes práticas” — e lista doze, entre elas termalismo social/crenoterapia.

A introdução do mesmo anexo, meia página adiante, diz que a PNPIC de 2006 “trouxe diretrizes norteadoras para Medicina Tradicional Chinesa/Acupuntura, Homeopatia, Plantas Medicinais e Fitoterapia, Medicina Antroposófica, e Termalismo Social/Crenoterapia”.

Ou seja: o documento inclui em 2018 duas práticas que ele próprio reconhece existirem desde 2006 — termalismo e medicina antroposófica. Quem soma as listas das três portarias sem ler a introdução chega a 31 práticas. São 29. O detalhamento dessa conta está em quais são as PICS do SUS.

O que a Cochrane encontrou quando foi medir

A pesquisa clínica sobre banho terapêutico existe, e o alvo mais estudado é a doença reumática. A revisão Cochrane sobre balneoterapia na artrite reumatoide reuniu 9 estudos com 579 participantes — e a primeira coisa que ela registra é que 4 dos 9 não contribuíram para a análise porque não apresentaram dados.

Do que sobrou: compressa de lama contra placebo não mostrou diferença em dor, melhora ou número de articulações inchadas (nível muito baixo de evidência). Banho com adição de radônio mostrou algum benefício em seis meses, com nível moderado. E a conclusão dos autores é direta:

“Overall evidence is insufficient to show that balneotherapy is more effective than no treatment, that one type of bath is more effective than another or that one type of bath is more effective than mudpacks, exercise or relaxation therapy.”

Repare no fim da frase: nem melhor que exercício, nem melhor que terapia de relaxamento. Práticas de baixo custo que o serviço já tem — e para as quais existe evidência mais robusta — aparecem no comparador. Duas delas estão em tai chi chuan e em lian gong.

O que sobra de honesto para dizer

Nada disso significa que banho quente não faça bem a ninguém. Significa que o efeito conhecido é o de relaxamento e alívio temporário de sintoma, o mesmo que se obtém com calor local, e que não existe base para prometer tratamento de doença — nem no texto oficial brasileiro, nem na revisão sistemática.

A dimensão que a política de fato defende é outra e é legítima: o termalismo social europeu, que a portaria descreve, é uma política de acesso de pessoa idosa a estabelecimento termal, mais perto de convívio, movimento e descanso do que de farmacologia. Se é isso que se busca, é isso que se deve esperar. Como chegar às práticas que o seu município oferece está em práticas integrativas no SUS.

Quando não entrar na água

  • Ferida aberta, infecção de pele ativa, cateter ou imunidade baixa: água de fonte não é estéril e piscina coletiva concentra microrganismos. Espere liberação de quem acompanha o caso.
  • Pressão instável, doença cardíaca, uso de anti-hipertensivo ou diurético: o calor dilata vasos e derruba a pressão. Saia devagar da água, sentado antes de ficar em pé.
  • Gravidez: calor elevado prolongado é contraindicado; imersão morna e curta pede aval do pré-natal.
  • Tontura, palpitação, náusea ou mal-estar durante a imersão: sair da água imediatamente. Se não passar em minutos, procurar serviço de saúde.
  • Doença em atividade: crenoterapia é, na própria definição legal, complementar. Não substitui o tratamento que já está prescrito, e interromper medicação por conta é o risco real da prática.

Perguntas frequentes

Existe banho termal disponível pelo SUS?

Em pouquíssimos lugares. A prática depende de o município ter fonte termal e serviço estruturado — a própria portaria de 2006 cita Poços de Caldas, em Minas Gerais, como o exemplo que se manteve ativo, e fala em implantar projetos-piloto. Não é um serviço com oferta nacional.

Beber água mineral de fonte trata alguma doença?

Nenhum documento oficial brasileiro registra indicação clínica para isso. A definição legal fala em uso terapêutico complementar, sem dizer para quê nem em que quantidade. Água mineral engarrafada é alimento e segue regra de rotulagem, não de medicamento.

Água termal é estéril?

Não. Água de fonte é água natural, com microbiota própria, e piscina coletiva concentra o que os frequentadores trazem. Quem tem ferida aberta, imunidade baixa, cateter ou infecção de pele em atividade deve evitar imersão coletiva até liberação de quem acompanha o caso.

O calor da imersão tem risco?

Tem, e é o risco mais real da prática. Imersão prolongada em água quente dilata vasos, baixa a pressão e pode causar tontura e desmaio — atenção redobrada em quem usa anti-hipertensivo, diurético ou tem doença cardíaca, e em gestantes, para quem calor elevado é contraindicado.

Fontes

  1. Portaria GM/MS nº 971, de 3 de maio de 2006, que aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: a seção 1.4 do anexo, que define termalismo e crenoterapia, e cuja justificativa é integralmente histórica e administrativa — de Heródoto em 450 a.C. às resoluções CIPLAN de 1988 e à Resolução CNS nº 343 de 7 de outubro de 2004 — sem citar uma única indicação clínica ou estudo, ao contrário da seção sobre acupuntura, que reproduz o consenso do NIH com lista de condições
  2. Portaria GM/MS nº 702, de 21 de março de 2018, que altera a Portaria de Consolidação nº 2/GM/MS para incluir novas práticas na PNPIC: o Art. 1º que declara incluídas 12 práticas, entre elas termalismo social/crenoterapia, e a introdução do mesmo anexo, que registra que a PNPIC de 2006 já trouxera diretrizes para Termalismo Social/Crenoterapia — a duplicidade que faz a soma das listas dar 31 em vez de 29 práticas
  3. Verhagen AP, Bierma-Zeinstra SMA, Boers M, Cardoso JR, Lambeck J, de Bie R, de Vet HCW. Balneotherapy (or spa therapy) for rheumatoid arthritis. Cochrane Database of Systematic Reviews 2015;4:CD000518 (PMID 25862243) — a revisão com 9 estudos e 579 participantes, dos quais 4 não contribuíram para a análise por não apresentarem dados, e cuja conclusão é que a evidência é insuficiente para mostrar que a balneoterapia é mais eficaz que nenhum tratamento, que um tipo de banho é melhor que outro, ou que o banho é melhor que compressa de lama, exercício ou terapia de relaxamento

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026