Tintura de cúrcuma: a fórmula e as duas doses
A tintura de cúrcuma registrada no Formulário de Fitoterápicos é 10 g de rizoma com álcool etílico a 70%, completando 100 mL. O que a torna diferente das outras tinturas do documento é a posologia: a mesma tintura tem duas doses, conforme a finalidade — de 0,5 a 1 mL para sintomas digestivos e de 1 a 3 mL como anti-inflamatório.
A fórmula: 10 g em 100 mL
Duas linhas, como as demais fórmulas do documento: rizoma, 10 g; álcool etílico 70%, q.s.p. 100 mL. O “q.s.p.” significa que o álcool completa até 100 mL — não são 100 mL somados aos 10 g de planta.
Essa proporção tem nome no capítulo de generalidades. Tintura, pela definição do Formulário, é a preparação obtida com 1 parte de droga vegetal para 10 partes de solvente ou 1 para 5. A cúrcuma usa a primeira, a mais diluída das duas.
O teor alcoólico também tem definição no mesmo capítulo: quando o documento diz 70%, refere-se a ºGL, ou seja, por volume. É o detalhe que inviabiliza a improvisação com destilado de bebida.
Duas doses para a mesma tintura
Este é o dado que não aparece em nenhum outro lugar, e é onde a fórmula 2 se separa das demais. A monografia lista a posologia em duas linhas, com finalidades e fontes diferentes:
| Finalidade | Dose | Diluição | Frequência | Fonte citada |
|---|---|---|---|---|
| Antidispéptico | 0,5 a 1 mL | 50 mL de água | 3 vezes ao dia | EMA, 2018 |
| Anti-inflamatório | 1 a 3 mL | 50 mL de água | 3 vezes ao dia | Pereira et al., 2014 |
No teto de cada faixa, a dose anti-inflamatória é três vezes maior que a digestiva; comparando o piso de uma com o teto da outra, a diferença chega a seis vezes. Mesma tintura, mesmo frasco, mesma diluição, mesma frequência — só muda o volume, e por causa disso muda a indicação.
Vale reparar na coluna de fontes. A dose digestiva vem da monografia europeia, documento regulatório. A dose anti-inflamatória vem de um formulário brasileiro de farmácia, publicado em 2014, e não de um regulador. Não é uma acusação: é uma diferença de natureza de fonte que o leitor tem direito de saber, e ela ecoa o fato maior de que a indicação anti-inflamatória da cúrcuma não existe na Europa — assunto de cúrcuma para inflamação.
A tintura europeia que o Brasil não trouxe
A monografia europeia registra duas tinturas de cúrcuma, e o Formulário brasileiro importou apenas uma delas.
- Tintura 1:10, etanol 70% — 0,5 a 1 mL, três vezes ao dia. É exatamente a fórmula 2 brasileira, na dose digestiva.
- Tintura 1:5, etanol 70% — 10 mL uma vez ao dia, ou 5 mL em 60 mL de água, três vezes ao dia. Não tem correspondente no documento brasileiro.
A segunda é duas vezes mais concentrada em planta e tem uma posologia curiosa: dez mililitros de uma vez, sem diluição especificada, ou cinco mililitros diluídos em sessenta, três vezes. São regimes muito diferentes para a mesma indicação digestiva.
A lição prática é a de sempre com tintura: “tomar 1 mL de tintura de cúrcuma” não significa nada sem saber qual tintura. Um mililitro da 1:5 carrega o dobro de planta de um mililitro da 1:10. A faixa de 0,5 a 1 mL da monografia brasileira só vale para a fórmula 2 tal como está escrita. O mesmo problema, com números diferentes, aparece em tintura de gengibre.
Como o Formulário manda preparar
A monografia da cúrcuma não descreve o passo a passo: remete às técnicas gerais.
“Fórmula 2: seguir as técnicas de secagem do material vegetal e preparo de tintura descritas em Informações gerais em Generalidades.”
O que está nesse capítulo e vale para a cúrcuma:
- Secagem. Quando a monografia não traz recomendação específica — e a da cúrcuma não traz — a planta fresca deve ser seca a 45 ºC em estufa de ar circulante por três dias.
- Maceração em recipiente âmbar. A definição de maceração do documento exige recipiente âmbar ou outro que elimine o contato com a luz.
- Embalagem. Para a forma farmacêutica tintura, a monografia é explícita: acondicionar em frasco de vidro âmbar.
- Armazenamento. Entre 15 e 30 ºC, com proteção contra umidade, congelamento, luz direta e calor excessivo.
- Validade. Não é fixada no documento: cabe ao farmacêutico estabelecer o período de estabilidade, atendidas as Boas Práticas de Manipulação.
O método geral de preparo de tinturas em casa, com o que dá e o que não dá para reproduzir, está em como fazer tintura. A alternativa sem álcool, com gramatura e tempo de infusão, está em chá de cúrcuma.
Quem não pode usar, e por que é o álcool
A monografia separa a tintura das demais fórmulas para reforçar uma proibição:
“O uso da preparação tintura é especialmente contraindicado para menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação.”
O motivo declarado é o álcool, não a cúrcuma. O capítulo de generalidades estende a regra a qualquer tintura ou extrato fluido do Formulário e acrescenta uma orientação que costuma passar batida: evitar operar equipamentos e máquinas ou dirigir após a ingestão do fitoterápico nessa forma farmacêutica.
Na Europa, a mesma preocupação virou obrigação de rótulo — as tinturas de cúrcuma precisam trazer a rotulagem específica para etanol prevista na diretriz de excipientes.
E todas as contraindicações da espécie continuam valendo por cima dessas, incluindo cálculo biliar, obstrução de ducto, hepatopatia, colangite e úlcera gastroduodenal. A lista completa está em quem não pode tomar cúrcuma, e a ficha da planta, com as seis fórmulas e as indicações de cada uma, em cúrcuma para que serve.
Perguntas frequentes
Dá para fazer tintura de cúrcuma com cachaça ou vodca?
A fórmula especifica álcool etílico a 70%, e o capítulo de generalidades esclarece que o teor se refere a graus GL, ou seja, por volume. Cachaça e vodca ficam em torno de 40%, quase a metade. Com metade da graduação muda o que é extraído, muda a conservação e a dose de 0,5 a 1 mL deixa de corresponder ao que foi registrado.
Quantas gotas equivalem à dose?
A monografia nunca fala em gotas — nem para a cúrcuma nem nas outras tinturas do documento. A unidade é o mililitro, medido, e a razão é prática: o tamanho da gota varia com o conta-gotas, com a viscosidade e com a temperatura. Converter mililitro em gota é adicionar um erro que a fórmula não previu.
Quanto tempo dura a tintura depois de pronta?
O Formulário não fixa validade para a tintura de cúrcuma. Ele atribui essa definição ao farmacêutico, que deve estabelecer o período de estabilidade a partir das características do insumo e da formulação. O que está determinado é a embalagem, frasco de vidro âmbar, e o armazenamento entre 15 e 30 ºC, protegido de umidade e luz direta.
Precisa diluir mesmo, ou pode tomar pura?
As duas posologias da fórmula 2 especificam diluição em 50 mL de água, e a tintura europeia de proporção 1:5 chega a especificar 60 mL. A diluição faz parte da dose registrada, não é uma sugestão de sabor — ela reduz o contato do álcool concentrado com a mucosa e distribui a preparação no volume previsto.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT021-01, Curcuma longa L., fórmula 2: a composição de 10 g de rizoma com álcool etílico 70% q.s.p. 100 mL; as duas posologias da mesma tintura, de 0,5 a 1 mL diluídos em 50 mL de água três vezes ao dia como antidispéptico e de 1 a 3 mL diluídos em 50 mL de água três vezes ao dia como anti-inflamatório; o acondicionamento em frasco de vidro âmbar; e a contraindicação especial para menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos em função do teor alcoólico
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição — Generalidades (FF003.2-01 e FF003.3-00): a definição de tintura como extração de 1 parte de droga vegetal para 10 ou para 5 partes de solvente; a definição de maceração em recipiente âmbar; a secagem padrão a 45 ºC em estufa de ar circulante por três dias quando a monografia não especifica; o armazenamento entre 15 e 30 ºC; e a recomendação geral de não administrar tinturas e extratos fluidos a menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Curcuma longa L., rhizoma, revision 1 (EMA/HMPC/329755/2017): as duas tinturas europeias, a 1:10 com etanol a 70% na dose de 0,5 a 1 mL três vezes ao dia e a 1:5 com etanol a 70% na dose de 10 mL uma vez ao dia ou 5 mL em 60 mL de água três vezes ao dia; a indicação única de alívio de distúrbios digestivos; e a exigência de rotulagem específica para o etanol
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026