Cúrcuma: para que serve, nas 6 fórmulas oficiais
A cúrcuma tem seis fórmulas na mesma monografia do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa — e elas não servem para a mesma coisa. Três apontam para o eixo digestivo (colerético, antidispéptico, antiflatulento) e três, para anti-inflamatório. A monografia é a FT021-01, revisada em junho de 2026, e traz uma frase que contraria a fama da planta: ela é contraindicada para quem tem hepatopatia.
As seis fórmulas e a indicação de cada uma
Este é o dado que quase nenhuma página em português publica: a indicação da cúrcuma depende da fórmula. O mesmo rizoma, preparado de dois jeitos, recebe autorizações diferentes no mesmo documento.
| Fórmula | Composição | Indicação registrada |
|---|---|---|
| 1 — infuso | 0,5 a 1,0 g de rizoma, água q.s.p. 150 mL | colerético, sintomas dispépticos, antiflatulento |
| 2 — tintura | 10 g de rizoma, álcool 70% q.s.p. 100 mL | dispepsia, colagogo, colerético e anti-inflamatório |
| 3 — cápsula de droga vegetal | 350 a 360 mg de rizoma | anti-inflamatório |
| 4 — cápsula de extrato | dose diária de 90 a 162 mg | dispepsia, colagogo, colerético |
| 5 — cápsula de extrato | 670 mg padronizado em 75 a 85% de curcuminoides | anti-inflamatório |
| 6 — cápsula de extrato | 100 a 200 mg | dispepsia, colagogo, colerético |
Repare na distância entre as fórmulas 4 e 5: 90 a 162 mg por dia contra 2.010 mg por dia (670 mg três vezes). São doses que diferem por mais de doze vezes, na mesma monografia, porque vêm de origens diferentes — a primeira da monografia europeia, a segunda de um ensaio clínico tailandês. O detalhe de como uma vira a outra está em cúrcuma para inflamação.
A indicação que só existe no Brasil
A monografia europeia de Curcuma longa L., rhizoma tem uma indicação, e é digestiva: “relief of digestive disturbances, such as feelings of fullness, slow digestion and flatulence”. Não há indicação anti-inflamatória. Não há indicação como colagogo ou colerético.
O Formulário brasileiro registra as três — e cita “EMA, 2018” ao lado delas. Abrindo a monografia europeia de 2018, o que se encontra sobre bile não é indicação: é advertência. O relatório de avaliação europeu conta por quê, com todas as letras: “the warning concerning the potential effect on bile secretion reported in the first version of the monograph was moved to ‘Special warning and precautions of use’”.
Ou seja: o que a Europa rebaixou de indicação a advertência, o Brasil manteve como indicação. O mesmo efeito sobre a bile é motivo para usar de um lado do Atlântico e motivo para não usar do outro.
A planta do fígado é contraindicada para doença do fígado
A advertência da FT021-01 é direta:
“O uso é contraindicado para pessoas portadoras de cálculos biliares, obstrução dos ductos biliares, hepatopatias, colangite e úlcera gastroduodenal.”
E vai além do que a Europa escreveu. Na monografia europeia, a única contraindicação é hipersensibilidade — o relatório de avaliação registra que “the available data do not justify including a contraindication, apart from the general contraindication on hypersensitivity”. As condições biliares aparecem lá como “não recomendado”, não como proibição.
O Brasil é mais rígido, e desde 2026 é mais rígido ainda. A lista completa de quem fica de fora está em quem não pode tomar cúrcuma, e o que a literatura de hepatotoxicidade registra sobre a planta está em cúrcuma para o fígado. Para entender o que a bile faz e por que empurrá-la num ducto obstruído é o contrário do que se quer, vale para que serve o fígado.
O que a 3ª edição mudou em 2026
A cúrcuma é uma das monografias revisadas na 3ª edição — o código saiu de FT023-00 (janeiro de 2021) para FT021-01 (junho de 2026). O quadro de alterações do próprio Formulário diz o que mudou no item de advertências, e é substancial. Onde antes se lia apenas “não utilizar em doses acima das recomendadas; em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso do produto e consultar um médico”, agora se lê um parágrafo inteiro sobre dano hepático: pele e olhos amarelados, urina escura, náusea, vômito, cansaço anormal, fraqueza, perda de apetite e dor abdominal, com ordem de suspender imediatamente e procurar profissional de saúde.
Junto vieram quatro referências novas, todas de reguladores estrangeiros: ANSES (França, 2022), Health Canada (2025), Ministério da Saúde da Itália (2022) e TGA (Austrália, 2023). A justificativa declarada pela Anvisa para a mudança, no quadro, é curta: “providenciar informação qualificada à população”.
Uso adulto, e o motivo declarado
“Uso adulto” abre a seção de advertências. A contraindicação para menores de 18 anos, gestantes e lactantes tem motivo escrito: “devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”. É ausência de dado, não dano provado — e, pela régua deste site, ausência de dado não vira permissão. Os dois desdobramentos estão em cúrcuma para crianças e cúrcuma na gravidez.
A cúrcuma não está sozinha nesse padrão: outras espécies do Formulário têm indicação digestiva de uso tradicional e restrição etária parecida. O índice das que este site já cobriu, com dose, preparo e contraindicação de cada uma, fica em plantas medicinais; o parente botânico mais próximo já publicado aqui é o gengibre, da mesma família Zingiberaceae.
Perguntas frequentes
A cúrcuma do armário de tempero serve para o chá da monografia?
A monografia trabalha com o rizoma seco rasurado ou pulverizado, pesado em gramas, com técnica de secagem descrita no próprio documento. O pó de tempero não traz peso por porção nem padrão de secagem declarado, então a fórmula de 0,5 a 1,0 g em 150 mL não é reprodutível com ele.
Existe indicação europeia de uso bem estabelecido para a cúrcuma?
Não. Na monografia europeia, a coluna "well-established use" está vazia da seção 2 até a seção 6, sem uma linha sequer. Tudo o que a Europa reconhece para a cúrcuma está na coluna de uso tradicional, que se sustenta por tempo de emprego e não por ensaio clínico de eficácia.
Preciso de receita para comprar cúrcuma manipulada?
O Formulário descreve preparações magistrais e oficinais, que são manipuladas em farmácia. A preparação magistral parte de prescrição de profissional habilitado. Isso é diferente do tempero de supermercado e diferente de um medicamento industrializado com registro, que a cúrcuma não tem no Brasil.
Cúrcuma e curcumina são a mesma coisa?
Não. A cúrcuma é o rizoma inteiro; a curcumina é uma substância isolada dele, e responde por 3 a 5% do açafrão segundo a literatura agronômica brasileira. Boa parte dos casos de lesão hepática descritos no exterior envolve extratos concentrados de curcuminoides, não o rizoma em pó.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT021-01, Curcuma longa L.: as seis fórmulas (infuso, tintura, cápsula com droga vegetal e três cápsulas com derivado), a repartição das indicações entre elas (colerético, antidispéptico e antiflatulento de um lado, anti-inflamatório de outro), o uso adulto, a contraindicação em gestação, lactação e menores de 18 anos, e a contraindicação em cálculos biliares, obstrução dos ductos biliares, hepatopatias, colangite e úlcera gastroduodenal
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Curcuma longa L., rhizoma, revision 1 (EMA/HMPC/329755/2017, 25 de setembro de 2018): a única indicação europeia, de uso tradicional, para alívio de distúrbios digestivos com sensação de plenitude, digestão lenta e flatulência; a coluna de uso bem estabelecido vazia em todas as seções; e a hipersensibilidade como única contraindicação
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Curcuma longa L., rhizoma, revision 1 (EMA/HMPC/329745/2017): a decisão de mover a advertência sobre secreção biliar da seção de indicações para a de advertências, a conclusão de que os dados disponíveis não justificam contraindicação além da hipersensibilidade, e a exclusão das interações medicamentosas da monografia por falta de dado clínico
- Health Canada — Summary Safety Review: Turmeric and Curcuminoids for Oral Use, Assessing the Potential Risk of Hepatotoxicity (2025): a revisão de 12 casos canadenses e mais de 60 relatos internacionais de hepatotoxicidade, as três mortes notificadas, e a exclusão explícita do uso culinário da cúrcuma do escopo da revisão
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026