Capim-limão para ansiedade: a indicação e o ensaio
Ansiedade leve é indicação registrada do capim-limão na monografia FT022. E é aqui que esta planta se torna o caso mais instrutivo do cluster: existe um ensaio duplo-cego brasileiro que deu o infuso das folhas a voluntários ansiosos, mediu a resposta a uma situação estressante e não encontrou diferença em relação ao placebo. O que teve efeito mensurável em pessoas foi o cheiro da planta, não a xícara.
A indicação existe. A bibliografia que a sustenta não tem ensaio clínico
A FT022 lista seis referências para o conjunto das suas indicações. Abertas uma a uma, são livros de plantas medicinais, mementos de fitoterapia, um formulário de preparação extemporânea e um artigo de revisão sobre drogas vegetais. Nenhuma é um ensaio clínico, e nenhuma é o ensaio duplo-cego descrito abaixo — que foi publicado numa revista internacional, por um grupo brasileiro, doze anos antes da referência mais antiga da lista.
Isso não invalida a indicação: o Formulário registra usos tradicionais, e a categoria é legítima e declarada. Mas localiza o que ela é. Auxiliar no alívio da ansiedade leve significa “a autoridade brasileira aceita este uso”, não “isto foi demonstrado”.
O ensaio humano que testou exatamente isso
Em 1986, o Journal of Ethnopharmacology publicou a terceira parte de uma série sobre o capim-limão, assinada por pesquisadores da Escola Paulista de Medicina. Um dos braços do trabalho foi desenhado para a pergunta desta página:
| Item | Como foi |
|---|---|
| Participantes | 18 voluntários com altos escores de ansiedade-traço |
| Intervenção | infuso das folhas secas ou placebo |
| Condição | duplo-cega |
| Desafio | um teste indutor de ansiedade |
| Desfecho | nível de ansiedade após o teste |
O resultado, na formulação dos autores: os níveis de ansiedade foram semelhantes nos dois grupos, indicando que o abafado da planta não tem propriedades ansiolíticas. A conclusão geral do artigo é ainda mais explícita:
“It is concluded that lemongrass, one of the most popular Brazilian herbal medicines, used for its alleged CNS-depressant effects, is atoxic but lacks hypnotic or anxiolytic properties.”
Dezoito pessoas é uma amostra pequena, e um resultado negativo em amostra pequena não prova ausência de efeito — prova que, se existir, ele não foi grande o bastante para aparecer ali. Ainda assim, é a melhor evidência humana publicada sobre o chá desta planta nesta finalidade, e ela aponta na direção contrária da fama.
O que funcionou em pessoas foi o cheiro
Quase trinta anos depois, um grupo da Universidade Federal de Sergipe fez a pergunta por outra via. Quarenta voluntários foram distribuídos em quatro grupos e inalaram três ou seis gotas de óleo essencial de capim-limão, óleo de melaleuca (aroma-controle) ou água destilada, e em seguida foram submetidos ao teste de Stroop, um modelo experimental de ansiedade.
O que apareceu:
- quem inalou o aroma de capim-limão — nas duas quantidades — teve redução da ansiedade-estado e da tensão subjetiva imediatamente após a inalação, o que não ocorreu nos controles;
- todos ficaram ansiosos com a tarefa, mas o grupo do capim-limão se recuperou completamente em 5 minutos, ao contrário dos controles;
- as alterações fisiológicas ao longo do teste — frequência cardíaca e atividade eletromiográfica — não foram prevenidas por nenhum tratamento, o mesmo comportamento que os autores registram já ter sido observado com o diazepam.
Os próprios autores concluem que são necessárias mais investigações para esclarecer a relevância clínica, e que o que o trabalho mostra é que uma exposição muito breve ao aroma tem alguns efeitos ansiolíticos percebidos. É um achado real, de via diferente e desfecho diferente do chá — e não autoriza transferir a conclusão de um para o outro.
O mecanismo que os camundongos entregaram
Falta a peça que explica por que a planta tem efeito em alguns modelos e não em outros. Em 2011, um grupo da Unesp de Botucatu administrou o óleo essencial por via oral a camundongos e encontrou atividade tipo ansiolítica a 10 mg/kg no teste claro-escuro.
O detalhe elegante está no que reverteu esse efeito. O flumazenil, antagonista competitivo do sítio benzodiazepínico, bloqueou a ação do óleo; o WAY100635, antagonista seletivo do receptor 5-HT1A, não bloqueou. Ou seja: o efeito passa pelo complexo receptor GABA-A/benzodiazepínico, o mesmo alvo dos ansiolíticos clássicos.
Três achados do mesmo trabalho completam o quadro, e nenhum deles é conveniente:
- no teste do nado forçado e no teste de enterrar bolinhas, o óleo não teve efeito;
- doses inativas de diazepam e de óleo essencial, dadas juntas, produziram efeito — um sinergismo que é a base farmacológica da advertência de não associar a planta a depressores do sistema nervoso central;
- após tratamento prolongado, o efeito desapareceu — os autores relacionam isso à indução de tolerância, que também ocorreu no grupo do diazepam.
Como ler as três peças juntas
| Preparação | Via | Espécie | Resultado |
|---|---|---|---|
| Infuso das folhas | oral | humanos | sem efeito ansiolítico versus placebo |
| Óleo essencial | inalatória | humanos | redução da ansiedade-estado percebida |
| Óleo essencial | oral | camundongos | efeito tipo ansiolítico via GABA-A |
Não há contradição entre as linhas: há matriz e via diferentes. Óleo essencial concentrado não é infuso de folha, e inalar não é beber. A conclusão honesta é que a atividade farmacológica do capim-limão sobre o sistema nervoso existe e tem alvo identificado — e que, na forma em que o país inteiro consome a planta, ela não se traduziu em efeito mensurável contra ansiedade em pessoas.
Quem quiser o chá pela indicação registrada tem a dose e o preparo em chá de capim-limão, e as restrições em quem não pode tomar capim-limão — a advertência sobre depressores do sistema nervoso central é a que mais importa neste contexto. O braço do mesmo ensaio que testou sono está em capim-limão para insônia, e a comparação com outra planta popular cuja indicação é a mesma, em erva-cidreira para ansiedade.
Ansiedade que limita a vida, que vem com sintoma físico intenso ou que não cede não é caso de xícara nenhuma — é caso de avaliação profissional. A ficha da espécie está em capim-limão: para que serve.
Perguntas frequentes
Capim-limão substitui remédio para ansiedade?
Não, e a redação da monografia impede essa leitura: a indicação é de auxiliar no alívio da ansiedade leve. Auxiliar é coadjuvante e leve delimita o quadro. Há um agravante específico desta planta: o documento manda não associá-la a depressores do sistema nervoso central, categoria que inclui a maior parte dos ansiolíticos. Nem substituir, nem somar por conta própria.
Se o ensaio não achou efeito, por que tanta gente diz que acalma?
Porque tomar chá quente é um conjunto de coisas, e só uma delas é a planta: a pausa, o calor, o cheiro, o ritual e a expectativa. O ensaio de 1986 foi duplo-cego justamente para separar o efeito da folha do efeito do contexto. Ele não afirma que ninguém se sente melhor com a xícara; afirma que, comparado ao placebo, o infuso não fez diferença nos parâmetros medidos.
Cheirar o capim-limão do quintal tem o mesmo efeito do estudo?
O estudo do aroma usou três ou seis gotas de óleo essencial destilado, em ambiente controlado, imediatamente antes de uma tarefa estressante. Esfregar a folha entre os dedos libera parte dos mesmos compostos voláteis, mas em quantidade desconhecida e por tempo desconhecido. A comparação é plausível e não é equivalente, e o próprio artigo pede mais investigação antes de falar em relevância clínica.
Quanto tempo demora para fazer efeito?
A monografia não estabelece prazo de resposta nem duração de tratamento para esta espécie; só orienta procurar um médico se os sintomas persistirem durante o uso. No ensaio do aroma, os efeitos percebidos apareceram imediatamente após a inalação, e o experimento em camundongos mediu o efeito do óleo em administração aguda, com perda de efeito no tratamento prolongado.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT022, Cymbopogon citratus: a indicação como auxiliar no alívio da ansiedade leve, a lista de seis referências que a sustentam (livros de fitoterapia, mementos e artigos de revisão) e a advertência de não associar a planta a depressores do sistema nervoso central
- Leite JR, Seabra ML, Maluf E, Assolant K, Suchecki D, Tufik S, Klepacz S, Calil HM, Carlini EA — Pharmacology of lemongrass (Cymbopogon citratus Stapf). III (Journal of Ethnopharmacology, 1986; 17(1):75-83): o braço ansiolítico do ensaio, com 18 voluntários de alto escore de ansiedade-traço submetidos a um teste indutor de ansiedade após tomar o infuso ou placebo em condições duplo-cegas, cujos níveis de ansiedade foram semelhantes nos dois grupos
- Goes TC, Ursulino FR, Almeida-Souza TH, Alves PB, Teixeira-Silva F — Effect of Lemongrass Aroma on Experimental Anxiety in Humans (Journal of Alternative and Complementary Medicine, 2015; 21(12):766-73): o ensaio com 40 voluntários que inalaram três ou seis gotas de óleo essencial de capim-limão antes do teste de Stroop, com redução da ansiedade-estado e da tensão subjetiva e recuperação completa em 5 minutos, sem prevenção das alterações fisiológicas
- Costa CA, Kohn DO, de Lima VM, Gargano AC, Flório JC, Costa M — The GABAergic system contributes to the anxiolytic-like effect of essential oil from Cymbopogon citratus (lemongrass) (Journal of Ethnopharmacology, 2011; 137(1):828-36): o efeito tipo ansiolítico do óleo essencial a 10 mg/kg em camundongos no teste claro-escuro, revertido pelo flumazenil mas não pelo WAY100635, o sinergismo com doses inativas de diazepam e a perda de efeito após tratamento prolongado
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026