Chá de cardo-mariano: a proporção oficial
O chá de cardo-mariano registrado no Formulário de Fitoterápicos é feito com 3 a 5 g do fruto seco e rasurado em 100 mL de água, por infusão de 10 a 15 minutos. Toma-se 100 mL do infuso, de duas a três vezes ao dia, antes das refeições — e não depois, que é quando a maioria das pessoas toma chá digestivo.
As três formas registradas, e só uma delas é chá
A FT074 traz três fórmulas, e vale ver as três juntas porque os rótulos de farmácia costumam misturar as doses:
| Fórmula | O que é | Quantidade | Como usar |
|---|---|---|---|
| 1 | infuso do fruto | 3 a 5 g em 100 mL | 100 mL, duas a três vezes ao dia, antes das refeições |
| 2 | cápsula de extrato mole | 392 mg por cápsula | uma cápsula, duas vezes ao dia |
| 3 | cápsula de extrato seco | 200 mg por cápsula | uma cápsula, uma vez ao dia |
Os miligramas das fórmulas 2 e 3 não se convertem em gramas de chá. O extrato mole é obtido com álcool a 60% numa razão de 10 a 17 partes de planta para 1 de extrato; o extrato seco, com álcool a 96% e razão de 30 a 40 para 1. São produtos concentrados por solvente que a água da chaleira não reproduz. Quem toma o chá está na fórmula 1 e só na fórmula 1.
Fruto, não folha — e sem a penugem
A parte usada é o fruto, o que popularmente se chama semente. A Farmacopeia Europeia é específica: fruto maduro, desprovido do papilo, com no mínimo 1,5% de silimarina expressa em silibinina. Papilo é o tufo de pelos que fica preso na ponta do fruto do cardo — a penugem que voa quando a planta seca.
O Formulário brasileiro repete a instrução no preparo, com uma frase fácil de passar batido: “utilizar os frutos sem papilos secos e rasurados”. Ou seja, três exigências numa linha: sem papilo, secos e rasurados. Folha, flor e raiz não entram em nenhuma das fórmulas.
Para transformar 3 a 5 g em medida de casa sem balança, a equivalência entre xícara, colher e grama está em xícara de chá em gramas e mL.
100 mL não é uma xícara cheia
Este é o ponto onde a dose escapa com mais facilidade. A fórmula é de 3 a 5 g em 100 mL, e a dose por vez é 100 mL. Uma caneca comum tem de 200 a 300 mL — encher a caneca com a mesma colher de fruto muda a concentração, e encher com o dobro do fruto muda a dose.
O jeito prático de acertar é medir a água antes de ferver, não a bebida depois de pronta. E a conta do dia fecha em duas a três tomadas de 100 mL, sempre antes das refeições — o motivo desse horário está em cardo-mariano para má digestão.
Por que o chá não é o que os ensaios testaram
Aqui está a informação que muda a expectativa de quem prepara o chá esperando o efeito dos estudos que leu na internet. O relatório de avaliação europeu registra que o extrato de cardo-mariano é insolúvel em água, e que a absorção oral é baixa — a silibinina tem hidrossolubilidade ruim, e é justamente isso que limita a biodisponibilidade.
A consequência é aritmética:
- o fruto tem, no mínimo, 1,5% de silimarina;
- os extratos secos padronizados têm entre 30% e 65%;
- os ensaios clínicos em doença hepática usaram, quase sem exceção, extrato seco padronizado, em doses como 140 mg de silimarina três vezes ao dia — não infusão.
Isso não desqualifica o chá: ele é uma das nove preparações que a Europa aceitou e a única que o Brasil registrou por via aquosa. Mas ele foi aceito por uso tradicional, não por ensaio — e a distinção entre as duas coisas, no caso desta planta, está detalhada em cardo-mariano: para que serve.
Duas semanas é o marco, não um mês
A monografia não fixa um teto de uso contínuo, como faz com outras espécies. Ela fixa outra coisa, mais útil: se o sintoma persistir por mais de duas semanas ou piorar durante o uso, procure um médico. É um prazo de reavaliação, não de tolerância — e vale para o chá e para as cápsulas igualmente.
O restante das advertências, incluindo quem não deve preparar este chá de saída, está em quem não pode tomar cardo-mariano. Planta medicinal tem dose, contraindicação e prazo — e é isso que este índice publica, espécie por espécie, em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Posso deixar o chá de cardo-mariano fervendo na panela?
Não é o que a monografia manda. A fórmula 1 pede infusão: verter a água já fervente sobre o fruto rasurado e deixar em contato por 10 a 15 minutos, com a panela ou a xícara tampada. Ferver junto é decocção, técnica que o Formulário reserva para outras espécies e outras partes da planta. Para o cardo-mariano, a técnica registrada é uma só.
Dá para usar as sementes inteiras, sem triturar?
A monografia especifica fruto seco e rasurado, isto é, quebrado em fragmentos. O fruto inteiro tem casca dura e a água quente extrai muito pouco em 15 minutos. Rasurar é o que dá superfície de contato — e é a diferença entre um chá com a proporção registrada e água com gosto de nada.
Posso adoçar ou misturar com outra erva?
A monografia não trata de sabor, e adoçar não altera a fórmula. Misturar com outra planta é outra história: cada espécie tem a sua dose, a sua contraindicação e o seu prazo, e a mistura não herda a segurança de nenhuma delas. Se o objetivo é seguir a fórmula registrada, ela é do cardo-mariano sozinho.
O chá tem gosto amargo?
O cardo-mariano é usado tradicionalmente como amargo digestivo, e os documentos históricos citados no relatório europeu o descrevem como tônico amargo. O sabor não é indicador de dose nem de qualidade, mas explica por que a orientação de tomar antes das refeições faz sentido dentro dessa tradição.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT074, Silybum marianum (L.) Gaertn.: a fórmula 1 com 3 a 5 g de fruto em água q.s.p. 100 mL, a orientação de verter água fervente e manter em contato por 10 a 15 minutos, a instrução de usar os frutos sem papilos secos e rasurados, e o modo de usar de 100 mL do infuso de duas a três vezes ao dia antes das refeições
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus (EMA/HMPC/294187/2013): a dose única de 3 a 5 g em 100 mL de água fervente, de duas a três vezes ao dia antes das refeições, a forma farmacêutica de droga vegetal rasurada como chá para uso oral, e a regra de procurar médico se os sintomas passarem de duas semanas
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus (EMA/HMPC/294188/2013): a definição da Farmacopeia Europeia (fruto maduro sem papilo, com no mínimo 1,5% de silimarina expressa em silibinina), o teor de 30% a 65% de silimarina nos extratos secos, e o registro de que o extrato de cardo-mariano é insolúvel em água e de baixa absorção oral
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026