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Guia da Saúde

Cardo-mariano: efeitos colaterais registrados

As reações adversas registradas para o cardo-mariano são sintomas gastrointestinais leves — boca seca, irritação gástrica e diarreia —, dor de cabeça e reações alérgicas, que vão de dermatite e urticária até anafilaxia. A frequência de todas elas é classificada como não conhecida, e o que apareceu nos ensaios clínicos costuma ser indistinguível do placebo.

A lista oficial, e a palavra que sumiu na travessia

O texto brasileiro e o europeu são quase idênticos — o Formulário reproduz a lista da EMA. Quase:

ReaçãoMonografia da EMA (4.8)Formulário brasileiro (FT074)
Boca seca (xerostomia)simsim
Náusea e estômago embrulhadosim
Irritação gástricasimsim
Diarreiasimsim
Cefaleiasimsim
Dermatite, urticária, rash, pruridosimsim
Anafilaxiasimsim
Asmasimnão consta

A asma está entre as reações alérgicas listadas pelo comitê europeu e não aparece na lista brasileira. É uma diferença pequena no papel e relevante para quem tem asma e alergia respiratória: o documento europeu considera possível que a planta desencadeie broncoespasmo em pessoa suscetível. A contraindicação por alergia à família Asteraceae, que é a porta de entrada desse risco, está em quem não pode tomar cardo-mariano.

“Frequência não conhecida” não é evasiva: significa que os relatos existem, mas não há dado suficiente para estimar com que frequência ocorrem. Não é sinônimo de raro nem de comum — é sinônimo de não medido.

O que apareceu nos ensaios, estudo por estudo

O relatório de avaliação europeu compilou os eventos adversos observados nos ensaios clínicos numa tabela que quase nunca é citada. Todos usaram extrato seco padronizado, não chá:

EstudoEsquemaDuraçãoEventos observados
El-Kamary, 2009140 mg, três vezes ao dia4 semanasdor abdominal, diarreia, náusea, vômito, constipação, fadiga e insônia — frequência semelhante nos dois grupos
Schuppan, 1998140 mg, três vezes ao dia3 mesesdiarreia, flatulência, plenitude e dor gastrointestinal, em 2% dos pacientes
Parés, 1998150 mg, três vezes ao dia2 anosartralgia, prurido, cefaleia, urticária
Bunout, 1992140 mg, duas vezes ao dia15 a 41 mesesprurido, cefaleia, constipação, boca seca, dor abdominal — sem diferença entre os grupos
Ferenci, 1989140 mg, três vezes ao diadesconforto epigástrico e náusea
Boari, 1981140 mg, três vezes ao dia1 mêsefeito laxativo leve

Duas leituras honestas saem daí. A primeira: em vários desses estudos os eventos apareceram na mesma proporção no grupo placebo, o que sugere que parte deles não é da planta. A segunda: o efeito que mais se repete é intestinal — diarreia, flatulência, plenitude e o efeito laxativo leve descrito em 1981. Quem já tem intestino solto tende a notar.

O NCCIH descreve o mesmo perfil em uma frase: tomado por via oral, o cardo-mariano “parece ser bem tolerado”, e os efeitos mais comuns são digestivos — inchaço, náusea e gases.

Mais de 4.000 pacientes, e um banco de dados sem registro

A base de segurança desta planta é maior que a da maioria das espécies do Formulário: os ensaios compilados somam mais de 4.000 pacientes, com tratamentos de 1 até 41 meses. E o relatório registra que, segundo a base de farmacovigilância, não há evento adverso, evento adverso grave ou óbito relacionados ao cardo-mariano.

O LiverTox, banco do NIH dedicado a lesão hepática por medicamentos e suplementos, é ainda mais específico: o cardo-mariano nunca foi implicado em elevação de enzimas séricas nem em lesão hepática aguda clinicamente aparente, e recebe a pontuação E — causa improvável.

É uma inversão interessante em relação a outras plantas de fama hepática. O boldo-do-chile, por exemplo, tem relatos publicados de icterícia associada à infusão, como está em boldo-do-chile: para que serve. O cardo-mariano não tem. Segurança, porém, não é eficácia: ser bem tolerado não faz a planta tratar doença nenhuma.

O sinal que manda parar na hora

A monografia europeia inclui uma advertência que não é sobre reação da planta, e sim sobre o que pode estar acontecendo por baixo do sintoma que levou a pessoa a tomá-la:

“Se surgir icterícia ou mudança na cor da urina ou das fezes, o médico deve ser consultado imediatamente.”

Pele ou olhos amarelados, urina escura e fezes claras são sinais de problema em fígado ou vias biliares. O comitê colocou essa frase justamente para evitar que alguém trate uma doença séria com chá — o mesmo motivo pelo qual a indicação exige exclusão prévia de condições graves por um médico. Quem quiser entender o que esses sinais significam, veja para que serve o fígado.

Duas regras curtas, e uma sobre o frasco

O Formulário fecha a monografia com duas instruções operacionais: não utilizar em doses acima das recomendadas e, em caso de evento adverso, suspender o uso e consultar um médico. A dose registrada está em chá de cardo-mariano.

Há um terceiro risco que não é farmacológico e sim de produto. O NCCIH registra preocupação com a qualidade química e microbiológica dos suplementos de cardo-mariano: análises encontraram teor de silimarina bem diferente do declarado no rótulo e contaminação por agrotóxicos, micro-organismos e micotoxinas. Nesse caso o efeito colateral não vem da planta — vem do que veio junto.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e reação adversa registrada. No cardo-mariano as três estão publicadas, e o que ele de fato é reconhecido para aliviar está em cardo-mariano para má digestão.

Perguntas frequentes

Quanto tempo depois de tomar a reação costuma aparecer?

Depende do tipo. Os sintomas digestivos descritos nos ensaios apareceram ao longo do tratamento, em esquemas que iam de quatro semanas a dois anos. Reação alérgica é outra coisa: anafilaxia se instala em minutos. Falta de ar, inchaço de lábios ou pálpebras, urticária que se espalha e tontura súbita depois de tomar não são para observar em casa, são para procurar atendimento.

Cardo-mariano pode fazer mal ao fígado?

O LiverTox, banco do NIH sobre lesão hepática por medicamentos, registra que o cardo-mariano nunca foi implicado em elevação de enzimas hepáticas nem em lesão hepática clinicamente aparente, e o classifica na categoria E, de causa improvável. É uma das poucas plantas de uso hepático com esse perfil — o que não a torna indicada para tratar doença do fígado.

Existe caso de superdose de cardo-mariano?

A seção 4.9 da monografia europeia registra que nenhum caso de superdose foi relatado, e o relatório de avaliação repete a informação. Isso não é permissão para exagerar: a advertência brasileira é explícita ao mandar não utilizar em doses acima das recomendadas, e dose maior de um extrato concentrado não é a mesma coisa que uma xícara a mais de chá.

Como saber se a cápsula que comprei tem mesmo o que diz no rótulo?

Não dá para saber olhando. O NCCIH registra que suplementos analisados apresentaram teor de silimarina bem diferente do declarado e contaminação por agrotóxicos, micro-organismos e micotoxinas. O que reduz o risco é comprar produto registrado, com nome científico, lote e validade no rótulo, e desconfiar de promessa de desintoxicação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT074, Silybum marianum (L.) Gaertn.: a advertência de que o produto pode desencadear efeitos adversos leves e sintomas gastrointestinais como xerostomia, irritação gástrica e diarreia, além de cefaleia e reações alérgicas (dermatite, urticária, rash cutâneo, prurido, anafilaxia), a instrução de não usar acima das doses recomendadas e a de suspender o uso e consultar médico em caso de evento adverso
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus (EMA/HMPC/294187/2013): a seção 4.8, com a lista de reações adversas e a frequência classificada como não conhecida, incluindo asma entre as reações alérgicas; a seção 4.9, que registra nenhum caso de superdose relatado; e a advertência de procurar médico imediatamente se surgir icterícia ou mudança na cor da urina ou das fezes
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus (EMA/HMPC/294188/2013): a tabela 16 com os eventos adversos observados em ensaios clínicos por estudo e duração, o registro de mais de 4.000 pacientes avaliados quanto à segurança, o efeito laxativo leve descrito por Boari e a informação de que a base de farmacovigilância não registra evento adverso, evento grave ou óbito relacionados ao cardo-mariano
  4. LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury (NIDDK/NIH) — capítulo Milk Thistle: o registro de que o cardo-mariano não foi implicado em elevação de enzimas séricas nem em lesão hepática aguda clinicamente aparente, e a pontuação de probabilidade E, de causa improvável de lesão hepática clinicamente aparente
  5. National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Milk Thistle: o registro de que os efeitos mais comuns são sintomas digestivos como inchaço, náusea e gases, e a preocupação com a qualidade química e microbiológica dos suplementos, alguns com teor de silimarina bem diferente do declarado no rótulo ou contaminados por agrotóxicos, micro-organismos e micotoxinas

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026