Cardo-mariano: para que serve segundo a Anvisa
O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa registra uma única indicação para o cardo-mariano: auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos. A palavra fígado não aparece na indicação brasileira — e a monografia europeia, que menciona apoiar a função hepática, classifica a planta inteiramente como uso tradicional, sem nenhuma indicação de eficácia comprovada.
Duas autoridades, duas frases — e a diferença é o fígado
Vale ler as três descrições oficiais lado a lado, porque elas não dizem a mesma coisa:
| Documento | Como descreve o cardo-mariano |
|---|---|
| Formulário de Fitoterápicos, FT074 (Anvisa, 2026) | “Auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos” |
| Monografia da EMA, seção 4.1 (2018) | “alívio sintomático de distúrbios digestivos, sensação de plenitude e indigestão e para apoiar a função hepática, depois que condições graves tenham sido excluídas por um médico” |
| Monografia da OMS (2002), como resumida no relatório europeu | uso apoiado por dado clínico: tratamento de suporte de hepatite e cirrose por álcool, medicamentos ou toxinas |
Três documentos, três recortes. O da OMS é o mais generoso e o mais antigo. O europeu inclui o fígado, mas amarra a menção a uma condição que quase ninguém repete: depois que condições graves tenham sido excluídas por um médico. E o brasileiro, publicado em 2026 e que cita a EMA como fonte das próprias fórmulas, não menciona fígado em lugar nenhum da indicação.
Não é distração de redação. As três fórmulas da FT074 são copiadas da monografia europeia com dose, solvente e razão de extração idênticos — e a indicação foi encurtada no caminho. Quem procura o cardo-mariano por causa do fígado precisa saber que a autoridade brasileira reconhece a planta para outra coisa: para o desconforto digestivo, detalhado em cardo-mariano para má digestão.
A coluna que ficou vazia da primeira à última página
A monografia da EMA é montada em duas colunas: uso bem estabelecido (quando há ensaio clínico suficiente) e uso tradicional (aceito pelo tempo de uso). Na monografia do cardo-mariano, a coluna do uso bem estabelecido está vazia em todas as seções, da composição às propriedades farmacológicas.
Isso é notável porque o cardo-mariano é, de longe, a planta deste site com mais literatura clínica: o relatório de avaliação contabiliza mais de 4.000 pacientes em ensaios, incluindo mais de 800 em doença hepática alcoólica e 612 com hepatite viral. Havia até uma indicação proposta — “tratamento de suporte da doença hepática alcoólica” —, e o comitê registrou que não houve maioria para reconhecer eficácia. A conclusão é literal:
“devido à falta de coerência dos dados científicos, uma indicação de uso bem estabelecido não pode ser estabelecida para a monografia da União Europeia sobre Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus.”
O NCCIH, do NIH americano, chega ao mesmo lugar em linguagem mais simples: os resultados dos ensaios em doença hepática “têm sido conflitantes ou limitados demais para permitir conclusões”, e os dois estudos que o próprio instituto financiou, em hepatite C e em esteatose, não mostraram benefício.
Um número que circula sem a segunda metade
A revisão Cochrane de 2007 reuniu 18 ensaios randomizados e 1.088 pacientes com doença hepática alcoólica ou por hepatite B e C. O número que costuma ser citado é a redução da mortalidade de causa hepática: risco relativo 0,50 (IC 95%: 0,29 a 0,88).
A frase seguinte do mesmo resumo quase nunca viaja junto: “mas não nos ensaios de alta qualidade” (RR 0,57; IC 95%: 0,28 a 1,19) — ou seja, o efeito desaparece quando se olham só os estudos bem conduzidos, e apenas 28,6% dos ensaios tinham essa qualidade. Sobre mortalidade geral, complicações da doença hepática e histologia, o resultado foi nulo. Os autores encerram dizendo que os resultados “questionam os efeitos benéficos do cardo-mariano” nesses pacientes.
O relatório da EMA reproduz o 0,50 sem o parênteses da alta qualidade. A conclusão final do comitê, ainda assim, foi recusar o uso bem estabelecido — o que significa que a ressalva pesou onde importava. Vale registrar as duas coisas: o dado favorável existe e é frágil.
Onde a silimarina é mesmo remédio de hospital
Há um uso do cardo-mariano que é medicina de emergência, e ele quase nunca aparece nas buscas: o LiverTox, do NIH, registra que preparações intravenosas de silibinina purificada são aprovadas na Europa para o tratamento da intoxicação pelo cogumelo Amanita phalloides.
Repare em cada palavra: é intravenosa, é silibinina purificada, é hospitalar e é para envenenamento agudo. Não é o chá, não é a cápsula de farmácia e não tem relação com tomar a planta em casa por causa de um exame alterado. O mesmo capítulo do LiverTox dá ao cardo-mariano a pontuação E de probabilidade de causar lesão hepática — a categoria de improvável —, e observa que os ensaios controlados em hepatite C e esteatose “encontraram pouca ou nenhuma evidência de benefício”.
O que fazer com isso na prática
Fígado é órgão de doença séria, e hepatite, cirrose e esteatose têm diagnóstico por exame e tratamento definido. Nada nesta página substitui isso — inclusive porque a própria indicação europeia só vale depois de um médico excluir condição grave, como está detalhado em quem não pode tomar cardo-mariano. O que o órgão faz e por que ele adoece está em para que serve o fígado.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e prazo. No cardo-mariano os três estão escritos: a proporção em chá de cardo-mariano, as reações em cardo-mariano: efeitos colaterais, e o índice das espécies já publicadas em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Cardo-mariano e silimarina são a mesma coisa?
Não exatamente. Cardo-mariano é a planta, Silybum marianum. Silimarina é o conjunto de flavanolignanas extraído do fruto dela — silibinina, silicristina e silidianina, principalmente. A Farmacopeia Europeia exige no mínimo 1,5% de silimarina no fruto e entre 30% e 65% no extrato seco. Ou seja, quando um rótulo fala em silimarina, ele fala de uma fração concentrada, não da planta inteira.
É a mesma planta que o cardo-santo ou a alcachofra?
Não. Cardo-mariano é Silybum marianum, e tem monografia própria no Formulário de Fitoterápicos, com fruto como parte usada. Cardo-santo, alcachofra e outros cardos são espécies diferentes, com partes usadas e indicações diferentes. Todas são da família Asteraceae, o que importa só para a contraindicação por alergia, que vale para a família inteira.
Qual parte do cardo-mariano se usa?
O fruto maduro, seco, rasurado e sem o papilo — a penugem que fica presa na ponta. A Farmacopeia Europeia define assim, e o Formulário brasileiro repete a instrução no preparo. Folha, raiz e flor não entram em nenhuma das três fórmulas registradas.
O SUS distribui cardo-mariano?
O cardo-mariano tem monografia no Formulário de Fitoterápicos, que é o documento que orienta a manipulação em farmácia, inclusive nas farmácias de manipulação do SUS onde existirem. Isso não é o mesmo que estar na lista de fitoterápicos distribuídos pela rede pública. A disponibilidade se confirma na Secretaria Municipal de Saúde.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT074, Silybum marianum (L.) Gaertn.: a indicação única de auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos, as três fórmulas (infuso de 3 a 5 g do fruto em 100 mL, cápsula de 392 mg de extrato mole e cápsula de 200 mg de extrato seco), a advertência de uso adulto e a contraindicação para gestação, lactação e menores de 18 anos
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus (EMA/HMPC/294187/2013, de 5 de junho de 2018): a indicação por uso tradicional para alívio sintomático de distúrbios digestivos, sensação de plenitude e indigestão e para apoiar a função hepática após exclusão de condições graves por um médico, e a coluna de uso bem estabelecido vazia em todas as seções
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus (EMA/HMPC/294188/2013): a recusa do uso bem estabelecido por falta de coerência dos dados científicos, a rejeição da indicação proposta de tratamento de suporte da doença hepática alcoólica, o total de mais de 4.000 pacientes reunidos nos ensaios, o resumo da monografia da OMS de 2002 e a citação do risco relativo de 0,50 da revisão Cochrane
- National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Milk Thistle: a conclusão de que os resultados dos ensaios clínicos de cardo-mariano em doenças hepáticas têm sido conflitantes ou limitados demais para permitir conclusões, e o registro de que os dois estudos financiados pelo próprio instituto, em hepatite C e em doença hepática gordurosa, não mostraram benefício da suplementação com silimarina
- LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury (NIDDK/NIH) — capítulo Milk Thistle: a pontuação de probabilidade E para lesão hepática, o registro de que preparações intravenosas de silibinina purificada são aprovadas na Europa para intoxicação por Amanita phalloides e a conclusão de que os ensaios controlados em hepatite C e doença hepática gordurosa encontraram pouca ou nenhuma evidência de benefício
- Rambaldi A, Jacobs BP, Gluud C — Milk thistle for alcoholic and/or hepatitis B or C virus liver diseases (Cochrane Database of Systematic Reviews, 2007;(4):CD003620): a meta-análise de 18 ensaios randomizados com 1.088 pacientes, sem efeito sobre mortalidade geral, complicações da doença hepática ou histologia, com redução da mortalidade por causa hepática que desaparece ao restringir aos ensaios de alta qualidade
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026