Quem não pode tomar cardo-mariano: a lista oficial
O cardo-mariano é contraindicado para quem tem hipersensibilidade à planta ou a qualquer espécie da família Asteraceae, para gestantes, para lactantes e para menores de 18 anos. E há um quinto grupo que não aparece como contraindicação, mas que a própria redação da indicação europeia deixa de fora: quem já tem doença hepática diagnosticada.
A lista, como está nos documentos
Contraindicado no Formulário brasileiro (FT074):
- hipersensibilidade aos componentes da formulação;
- hipersensibilidade às espécies da família Asteraceae;
- gestação;
- lactação;
- menores de 18 anos.
Contraindicado na monografia europeia (seção 4.3):
- hipersensibilidade à substância ativa e a plantas da família Asteraceae. E só.
A diferença entre as duas listas é de forma, não de conduta. A Europa registra gestação, lactação e idade em outra seção — a de advertências —, com as palavras não recomendado e não estabelecido. O Brasil transforma as três situações em contraindicação. O motivo declarado é o mesmo nos dois casos: falta de dados adequados de segurança. O detalhe dessa diferença de palavra está em cardo-mariano na gravidez e em cardo-mariano para crianças.
A condição que a própria indicação exclui
Este é o ponto que inverte o motivo pelo qual a maioria das pessoas procura a planta. A indicação da monografia europeia termina assim:
“…e para apoiar a função hepática, depois que condições graves tenham sido excluídas por um médico.”
A oração final não é enfeite jurídico. O relatório de avaliação explica por que ela foi colocada ali: nas monografias europeias, a fórmula “após exclusão de condições graves por um médico” existe para impedir que patologias mais sérias sejam tratadas com medicamento fitoterápico tradicional.
Segue daí uma leitura desconfortável e correta: hepatite, cirrose e esteatose hepática não são o público da indicação — são a hipótese que precisa ter sido descartada antes. Quem já tem o diagnóstico não está dentro da indicação; está fora dela. E a indicação brasileira, que sequer menciona o fígado, é ainda mais estreita: só sintoma dispéptico. O que o órgão faz e por que ele adoece está em para que serve o fígado.
Asteraceae: a família inteira entra na conta
A contraindicação por alergia não se limita ao cardo-mariano. Ela alcança a família Asteraceae, que é uma das maiores da botânica e inclui plantas de uso diário. O NCCIH descreve o mesmo risco citando as espécies aparentadas mais comuns: ambrósia, crisântemo, calêndula e margarida.
No repertório brasileiro, a lista prática de vizinhas de família inclui camomila, arnica, artemísia, girassol, alface e alcachofra. Quem já teve urticária, rinite ou reação de pele a alguma delas está no grupo de risco descrito. O paralelo com a camomila, que tem o mesmo tipo de restrição, está em quem não pode tomar camomila.
Remédio de uso contínuo: o que existe e o que não existe
A seção 4.5 da monografia europeia tem duas palavras: nenhuma relatada. O Formulário brasileiro não abre seção de interação para o cardo-mariano. Mas o relatório de avaliação registra um dado que merece contexto, porque circula pela internet fora dele:
- em laboratório, o extrato mostrou atividade inibitória do CYP3A4, a enzima que metaboliza boa parte dos medicamentos;
- em pessoas, os ensaios que combinaram cardo-mariano com indinavir e com ranitidina não observaram influência sobre a farmacocinética desses medicamentos;
- por isso, o comitê considera o risco de interação clinicamente relevante baixo.
Sinal in vitro sem repercussão clínica observada não é interação, e também não é garantia. Há ainda um alerta específico do NCCIH: extratos de cardo-mariano podem ajudar a controlar a glicemia em pessoas com diabetes tipo 2 — o que, para quem já usa antidiabético, é assunto de quem prescreve, e não motivo para somar por conta própria.
Quem pode, mas com prazo
Fora dos grupos acima, a regra que vale para todo mundo é a mesma: sintoma que persiste por mais de duas semanas, ou que piora durante o uso, pede consulta. As reações que podem aparecer nesse intervalo estão em cardo-mariano: efeitos colaterais, e a proporção correta do preparo, em chá de cardo-mariano.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação. No cardo-mariano, a lista de quem não pode é curta — e o grupo mais numeroso que ela atinge, na prática, é justamente o que procura a planta pelo motivo errado. O quadro completo está em cardo-mariano: para que serve.
Perguntas frequentes
Quem tem alergia a camomila ou a arnica pode tomar cardo-mariano?
A contraindicação do Formulário não é só à planta: ela cobre as espécies da família Asteraceae. Camomila, arnica, calêndula, girassol, artemísia e o próprio cardo-mariano estão todos nessa família. Quem já teve reação a uma delas está exatamente no grupo que a monografia pede para evitar, e essa é uma pergunta para o alergista, não para o balconista.
Quem tirou a vesícula ou tem cálculo pode tomar?
A monografia do cardo-mariano não cita vesícula nem cálculo biliar entre as contraindicações — diferente do que acontece com o boldo-do-chile, cuja lista é explícita nesse ponto. Ausência de menção não é liberação: cálculo biliar e pós-operatório de vesícula são quadros com acompanhamento próprio, e a decisão é de quem acompanha o caso.
Quem toma anticoncepcional pode tomar chá de cardo-mariano?
A seção de interações da monografia europeia diz nenhuma interação relatada, e o Formulário brasileiro não abre seção de interação para esta espécie. Não há, portanto, alerta oficial sobre anticoncepcional. O relatório de avaliação registra inibição de CYP3A4 apenas em teste de laboratório, sem repercussão observada nos ensaios em pessoas.
Idoso pode tomar cardo-mariano?
A monografia europeia dá a mesma posologia para adultos e idosos, sem redução de dose. O que muda com a idade não está na planta e sim no contexto: mais medicamentos de uso contínuo e mais chance de haver doença hepática ou biliar ainda não diagnosticada — que é justamente a situação em que a indicação exige avaliação médica antes.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT074, Silybum marianum (L.) Gaertn.: a advertência de uso adulto, a contraindicação por hipersensibilidade aos componentes da formulação e às espécies da família Asteraceae, a contraindicação durante gestação, lactação e para menores de 18 anos por falta de dados adequados de segurança, e a regra de consultar médico se os sintomas persistirem por mais de duas semanas
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus (EMA/HMPC/294187/2013): a seção 4.3, em que a única contraindicação é hipersensibilidade à substância ativa e a plantas da família Asteraceae; a seção 4.5, que registra nenhuma interação relatada; e a indicação condicionada à exclusão prévia de condições graves por um médico
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Silybum marianum (L.) Gaertn., fructus (EMA/HMPC/294188/2013): o registro de que o extrato mostrou atividade inibitória do CYP3A4 in vitro, os ensaios com indinavir e ranitidina em que nenhuma influência sobre a farmacocinética foi observada, e a conclusão de que o risco de interação clinicamente relevante é considerado baixo
- National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Milk Thistle: o alerta de reação alérgica sobretudo em pessoas alérgicas a plantas aparentadas (ambrósia, crisântemo, calêndula e margarida), o achado de que extratos podem ajudar no controle da glicemia no diabetes tipo 2 e a recomendação de conversar com o profissional de saúde antes de usar junto de qualquer medicamento
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026