Pular para o conteúdo
Guia da Saúde

Como fazer gargarejo: 11 fórmulas oficiais da Anvisa

Gargarejo tem definição oficial no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa: agitar um líquido na orofaringe com o ar que sai da laringe e, ao final, descartar — nunca engolir. Onze monografias do documento registram gargarejo com fórmula, diluição e frequência. E há um dado que atravessa todas elas: nenhuma é liberada abaixo dos 12 anos.

Bochecho e gargarejo não são a mesma coisa

O Formulário define os dois separadamente, e a diferença é anatômica:

  • Bochecho“agitação de uma forma farmacêutica líquida dentro da cavidade oral, realizada com movimentos da bochecha, devendo ser desprezado o líquido ao final”.
  • Gargarejo“agitação de uma forma farmacêutica líquida na orofaringe pelo ar que se expele da laringe, devendo ser descartado o líquido ao final, não devendo ser engolido”.

Ou seja: bochecho trata boca; gargarejo trata garganta. As monografias respeitam essa divisão. O barbatimão, por exemplo, tem indicação de bochecho com o decocto à temperatura ambiente, duas a três vezes ao dia — e não de gargarejo. Já a aroeira e a malva registram os dois.

A alternativa que dispensa planta, e que tem literatura própria, está em água morna com sal para gargarejo.

Também vale reparar em quem a técnica exclui por si mesma: gargarejar exige coordenação respiratória. É a razão prática por trás de o documento não liberar nenhuma dessas fórmulas para criança pequena.

As onze fórmulas de gargarejo do Formulário

EspéciePreparaçãoComo usarFrequência
Calêndula (FT015)Infuso de flor, 1 a 2 g em 150 mL, ou tintura de florInfuso puro; tintura, 2 mL em 100 mL de água2 a 4 vezes ao dia
Hamamélis, cascaDecocto, 2 a 3 gGargarejo com o decoctoAté 3 vezes ao dia
Hamamélis, folhaDecocto, 2 a 3 gGargarejo com o decoctoAté 3 vezes ao dia
Alecrim-pimenta (FT045)Tintura de folha a 20%10 mL diluídos em 75 mL de água3 vezes ao dia
MalvaDecocto de 15 min, 4,5 a 7,5 g em 150 mLGargarejo com o decocto3 vezes ao dia
Camomila (FT047)Infuso, 1 a 5 g em 100 mLGargarejo com o infuso3 vezes ao dia
Aroeira-do-sertãoDecocto de entrecasca30 mL diluídos em 75 mL de água2 vezes ao dia, após as refeições
TanchagemTintura de parte aérea2 a 4 mL diluídos em 50 mL de águaSem frequência fixada
RomãTintura de pericarpo a 20%15 mL diluídos em 150 mL de água3 vezes ao dia
SálviaInfuso, 2,5 g em 100 mL100 mL do infuso ainda quente, em temperatura suportável3 vezes ao dia
MirtiloDecocto, 20 g em 200 mLGargarejo com o decoctoVárias vezes ao dia

Duas linhas dessa tabela guardam instruções que só elas têm.

A sálvia é a única espécie do Formulário cujo gargarejo especifica temperatura: 100 mL do infuso “ainda quente, em temperatura suportável”. Nenhuma outra menciona se o líquido deve estar quente, morno ou frio.

A aroeira-do-sertão é a única que fixa momento do dia: duas vezes ao dia depois das refeições — o que faz sentido para uma preparação que precisa permanecer em contato com a mucosa sem ser lavada pela comida logo em seguida.

A diluição é o passo que quase todo mundo pula

Repare que, das onze, cinco não usam a preparação pura: elas mandam diluir uma tintura ou um decocto concentrado em água antes de levar à boca. As proporções são específicas e não são intercambiáveis:

  • alecrim-pimenta: 10 mL de tintura em 75 mL de água;
  • aroeira: 30 mL do decocto em 75 mL de água;
  • romã: 15 mL de tintura em 150 mL de água;
  • tanchagem: 2 a 4 mL de tintura em 50 mL de água;
  • calêndula: 2 mL de tintura em 100 mL de água.

Tintura é preparação alcoólica — 45% a 70% de álcool etílico, conforme a espécie. Usar tintura sem diluir na garganta não é “mais forte”: é fora da fórmula. E as monografias registram que a preparação em tintura é especialmente contraindicada para gestantes, lactantes, pessoas com diabetes e menores de 18 anos justamente por causa do teor alcoólico. O caso da calêndula está detalhado em calêndula e, na aplicação para garganta, em calêndula para dor de garganta.

Por que nenhuma fórmula desce de 12 anos

Percorrendo as onze advertências, o quadro é uniforme:

  • acima de 12 anos: camomila, hamamélis (casca e folha), mirtilo;
  • uso adulto, contraindicado abaixo de 18 anos: alecrim-pimenta, malva, aroeira, tanchagem, romã, sálvia;
  • calêndula: uso cutâneo a partir de 6 anos, mas o uso na mucosa oral é contraindicado para menores de 12 anos.

A calêndula é o caso mais instrutivo, porque a mesma monografia tem duas idades mínimas diferentes para a mesma planta, conforme onde ela é aplicada. Isso derruba o atalho de imaginar que “se pode passar na pele, pode gargarejar”.

A camomila, por sua vez, tem infuso liberado por via oral a partir de 6 meses — e, para bochecho e gargarejo, só a partir de 12 anos. A monografia é explícita: “o uso oromucoso e cutâneo é recomendado somente para pessoas maiores de 12 anos de idade”. As doses por faixa etária estão em camomila.

Descartar não é detalhe de etiqueta

Três monografias — alecrim-pimenta, tanchagem e romã — repetem a mesma frase nas advertências: “não ingerir o fitoterápico após o bochecho e gargarejo”. A definição de gargarejo já diz o mesmo. Há motivos concretos:

  • a concentração de um gargarejo costuma ser bem maior que a de um chá — a tintura de alecrim-pimenta parte de 20 g de folha em 100 mL de álcool a 70%;
  • várias dessas espécies têm restrição por via oral que não existe por via externa;
  • o líquido descartado carrega o que foi removido da mucosa.

O alecrim-pimenta acrescenta um efeito esperado que assusta quem não foi avisado: a aplicação tópica pode provocar ardência e alteração no paladar. A espécie está descrita em alecrim-pimenta.

O passo a passo que as fórmulas descrevem

  1. Prepare conforme a monografia da espécie — infuso, decocto ou tintura, com a gramatura e o tempo daquela planta. Malva pede decocção de 15 minutos; camomila, infusão de 5 a 10 minutos; e a tintura segue o processo descrito em como fazer tintura.
  2. Dilua, se a fórmula mandar diluir, nas proporções acima.
  3. Ajuste a temperatura: só a sálvia especifica quente e suportável; nas demais, morno é o razoável, e o barbatimão manda usar à temperatura ambiente no bochecho.
  4. Gargareje e descarte. Sem engolir.
  5. Respeite a frequência e o limite de tempo: romã e alecrim-pimenta fixam uso contínuo de até 15 dias, com intervalo de 7 dias antes de repetir.
  6. Reavalie em uma semana. Praticamente todas as monografias mandam procurar um médico se o sintoma da cavidade oral ou da orofaringe persistir por mais de uma semana.

Para escolher entre as espécies conforme o quadro, o índice das monografias já publicadas está em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Gargarejo com água e sal serve?

Água com sal não é fórmula do Formulário de Fitoterápicos, que só descreve preparações vegetais. Isso não a torna perigosa para um adulto, mas significa que ela não tem dose, concentração nem frequência registradas em documento oficial brasileiro — ao contrário das onze monografias vegetais listadas nesta página.

Posso engolir o gargarejo se for de erva natural?

Três monografias repetem a frase com todas as letras: não ingerir o fitoterápico após bochecho e gargarejo. A própria definição de gargarejo exige descartar o líquido. Em várias dessas preparações a concentração é muito maior que a de um chá, e algumas usam tintura, que é alcoólica.

Quantas vezes por dia posso gargarejar?

Depende da fórmula. As monografias vão de duas vezes ao dia, na aroeira, a três vezes ao dia na maioria, e a várias vezes ao dia na tanchagem, na romã, na sálvia com tintura e no mirtilo. Não existe uma frequência única: ela é definida pela espécie e pela concentração da preparação.

Gargarejo substitui antibiótico na dor de garganta?

Não. As indicações registradas falam em inflamação leve da boca e da orofaringe, como auxiliar. Febre alta, dificuldade para engolir, placas de pus, gânglios muito dolorosos ou sintoma que não melhora em uma semana são motivo para procurar um serviço de saúde, e é isso que as próprias monografias mandam fazer.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a definição de gargarejo como agitação de forma farmacêutica líquida na orofaringe pelo ar expelido da laringe, com descarte obrigatório do líquido, a definição distinta de bochecho, e as onze monografias que registram gargarejo — calêndula (FT015), hamamélis córtex e folha, alecrim-pimenta (FT045), malva, camomila (FT047), aroeira-do-sertão, tanchagem, romã, sálvia e mirtilo — com fórmula, diluição, frequência e idade mínima de cada uma
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Matricaria recutita L., flos: a indicação 3, de tratamento tradicional de úlceras menores e inflamações da boca e da garganta, com dose única de 1 a 5 g da droga vegetal em 100 mL de água para enxágue e gargarejo, restrita a adolescentes, adultos e idosos
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Calendula officinalis L., flos: as indicações registradas de inflamação leve da pele, cicatrização de ferimentos menores e inflamação leve da boca ou garganta, todas de uso externo, sem qualquer indicação por via oral para ingestão

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026