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Guia da Saúde

Como plantar hortelã: rizoma, vaso próprio e 90 dias

A hortelã tem duas particularidades que mudam o manejo em relação a qualquer outra erva da horta: ela se propaga por rizoma e se alastra. A Embrapa é econômica na advertência — a hortelã “exige atenção pois se alastra com facilidade” — e essa frase, sozinha, decide que ela vai para um vaso só dela.

Qual hortelã você está plantando?

Antes do vaso, a pergunta que muda tudo o que vem depois. A Farmacopeia Brasileira tem duas monografias de hortelã, e elas não são intercambiáveis:

Droga vegetalEspécieParte usadaÓleo volátil mínimo (material inteiro)
Hortelã-do-brasilMentha arvensis L.Partes aéreas secas0,8%
Hortelã-pimentaMentha × piperita L.Folhas secas1,2%

E o Formulário de Fitoterápicos da Anvisa, que é onde ficam as doses de chá, tem monografia para uma só delas: a FT049, de Mentha x piperita L. (folha). Ou seja, das hortelãs que se plantam no Brasil, apenas uma tem fórmula, indicação e advertência publicadas no Formulário. A ficha completa está em hortelã-pimenta, e o desencontro entre nome popular e espécie é o assunto de como identificar uma planta medicinal.

Consequência prática: peça a muda pelo nome científico. “Hortelã” não é resposta.

Rizoma: por que a muda vegetativa é o caminho

A Embrapa registra a propagação de Mentha spp. como sendo por rizomas ou sementes, e descreve os rizomas entre os órgãos que “podem ser divididos ou separados, dependendo do caso” na propagação vegetativa natural.

Vale entender o que isso implica. O rizoma é um caule subterrâneo que avança horizontalmente — é o mesmo mecanismo que faz a hortelã se alastrar e o que permite multiplicá-la sem semente. Dividir a planta é, literalmente, cortar esse caule em pedaços com gemas e replantá-los.

A vantagem técnica está na tabela da Embrapa: a propagação por órgão vegetativo “origina indivíduo geneticamente igual” e resulta em menor variação na composição química — a nova planta tem o mesmo perfil de óleo essencial da planta-mãe. A desvantagem é sanitária: plantas obtidas por estaquia sofrem doença fúngica com mais frequência e severidade. Os dois caminhos estão detalhados em como fazer muda de erva.

Partindo de semente, a referência é 14 dias até a germinação — anote a data, porque a maior parte das desistências acontece antes desse prazo.

O vaso só dela

A recomendação da Embrapa para a Mentha na tabela de plantio é significativa: produção de mudas em vasos para posterior plantio em canteiro. É a única espécie condimentar da tabela cuja linha de “local de plantio” indica vaso — as demais aparecem como plantio direto no canteiro ou mudas em bandeja.

Somando com o espaçamento de 0,60 m entre linhas por 0,30 m entre plantas e com o alastramento registrado no outro documento, o manejo doméstico se define sozinho:

  • um vaso exclusivo, sem dividir com outra espécie;
  • diâmetro compatível com os 30 cm de espaçamento entre plantas — a conversão para litros está em tamanho do vaso para erva;
  • contenção: em canteiro ou jardineira compartilhada, o rizoma invade a vizinhança.

A regra da Embrapa de não consorciar espécies da mesma família botânica reforça a separação — hortelã, manjericão, orégano, alecrim e sálvia são todas Lamiaceae, e o assunto está em quais ervas plantar juntas.

Onde o alastramento vira vantagem

A mesma característica que a torna má companheira de vaso tem um uso agronômico registrado. A Embrapa Rondônia lista a hortelã entre as plantas de efeito repelente: “seu cheiro repele lepidópteros tipo borboleta-da-couve podendo ser plantada como bordadura de lavoura”.

Em horta doméstica maior, isso significa plantá-la na borda, contida por caminho ou alvenaria, onde o avanço encontra limite físico e o efeito repelente serve às hortaliças de dentro.

Temperatura: a hortelã é das mais tolerantes

Na classificação térmica da Embrapa Agroindústria Tropical, a hortelã aparece entre as espécies que toleram grande variação de temperatura, ao lado de açafrão, cebolinha, orégano e salsa — e não está em nenhuma das duas listas de risco, a das que sofrem no frio e a das que produzem menos no calor. É por isso que ela sobrevive em varanda onde o alecrim morre, comparação feita em horta de ervas em apartamento. A ficha do orégano, o outro tolerante do grupo, está em orégano.

O que a tolerância térmica não compensa é luz: a produção de óleo essencial continua associada à luminosidade, e a referência da Embrapa para área de cultivo é de pelo menos seis horas de sol. O que muda abaixo disso está em ervas que crescem na sombra.

Colheita: antes de florescer, de manhã

O ciclo registrado é de 90 dias. Para folha, a regra geral vale integralmente: colher antes do florescimento, porque é quando há mais princípio ativo concentrado na folha, com tempo seco e no início da manhã, quando os óleos essenciais estão mais concentrados. Nada de colher com orvalho — água na folha dilui o princípio ativo e atrapalha a secagem. O quadro completo está em quando colher erva medicinal.

O que fazer com o material colhido, com os limites que a monografia da espécie impõe, está em como secar hortelã. O guia geral da horta medicinal fica em como plantar ervas em casa.

Perguntas frequentes

Dá para plantar hortelã a partir de um galho comprado no mercado?

É possível, e a via mais confiável é a vegetativa, que a Embrapa registra como a forma de propagação da Mentha junto com a semente. O problema não é técnico, é de identificação: o maço do mercado não traz o nome científico, e existem espécies diferentes de hortelã com monografias diferentes na Farmacopeia.

Quanto tempo até a primeira colheita?

A Embrapa registra ciclo de 90 dias para Mentha spp., com 14 dias até a germinação quando se parte de semente. Para folha, a colheita deve ser feita antes do florescimento, com tempo seco e no início da manhã, que é quando os óleos essenciais estão mais concentrados.

Hortelã pode ficar dentro de casa o ano todo?

A Embrapa lista a hortelã entre as espécies que toleram grande variação de temperatura, e o plantio é indicado o ano todo — o que a torna uma das mais fáceis nesse quesito. Isso não resolve luz: a produção de óleo essencial continua ligada à luminosidade, e a referência de cultivo é de pelo menos seis horas de sol.

Por que minha hortelã fica com talo comprido e folha pequena?

Talo alongado com folha reduzida é sinal clássico de luz insuficiente. Antes de adubar, conte as horas de sol direto que o vaso recebe. Vale lembrar que a colheita da folha é feita antes do florescimento, então uma hortelã que floresce cedo demais também reduz o material aproveitável.

Fontes

  1. Embrapa Agroindústria Tropical — Documentos 161: Plantas Condimentares: Cultivo e Utilização (2013): a linha de Mentha spp. na tabela de propagação, com propagação por rizomas ou sementes, espaçamento de 0,60 m por 0,30 m, plantio o ano todo, produção de mudas em vasos para posterior plantio em canteiros, 14 dias até a germinação e ciclo de 90 dias; e a hortelã entre as espécies que toleram grande variação de temperatura
  2. Embrapa Rondônia — Documentos 91: Cultivo, uso e manipulação de plantas medicinais (2004): o registro de que o cheiro da hortelã repele lepidópteros como a borboleta-da-couve, podendo ser plantada como bordadura, mas que ela exige atenção porque se alastra com facilidade; e a propagação vegetativa por divisão e separação de rizomas
  3. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume II — Plantas Medicinais (Anvisa), aprovada pela RDC nº 1.026 de 2026 e vigente desde 1º de julho de 2026: as duas monografias distintas de hortelã, HORTELÃ-DO-BRASIL (partes aéreas secas de Mentha arvensis L., no mínimo 0,8% de óleo volátil em partes aéreas inteiras) e HORTELÃ-PIMENTA (folhas secas de Mentha × piperita L., no mínimo 1,2% de óleo volátil em folhas inteiras)
  4. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT049: a única espécie de hortelã com monografia no Formulário é Mentha x piperita L. (folha), com infusão de 5 a 10 minutos de folhas secas e rasuradas, 1,5 a 3 g em 100 a 150 mL para adulto e 1 a 2 g para uso pediátrico acima de 4 anos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026