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Guia da Saúde

Como secar hortelã: a folha vai inteira ao vidro

Há um número na Farmacopeia Brasileira que resolve sozinho a dúvida sobre triturar ou não a hortelã antes de guardar. Para a folha de hortelã-pimenta, a exigência é de no mínimo 1,2% de óleo volátil em folhas inteiras e de no mínimo 0,9% em folhas rasuradas. A própria Farmacopeia aceita 25% menos óleo do material picado — porque ele perde mesmo.

A regra dos 25%, e o que ela ordena fazer

O desconto não é exclusividade da hortelã-pimenta. A monografia da hortelã-do-brasil, Mentha arvensis L., repete a mesma proporção: 0,8% de óleo volátil nas partes aéreas inteiras e 0,6% nas rasuradas. Duas espécies, dois pares de números, exatamente 25% de queda em ambos.

A Farmacopeia não explica o desconto, mas ele é coerente com o que a hortelã é: o óleo essencial fica em tricomas glandulares na superfície da folha — estruturas microscópicas que se rompem ao corte e ao atrito. Rasurar é romper. E a folha rasurada, com muito mais superfície exposta, continua perdendo depois disso.

Daí a conduta, que é o contrário do que a maioria faz ao guardar erva:

  1. Seque a folha inteira;
  2. Guarde a folha inteira;
  3. Rasure só na hora de preparar o chá — que é, aliás, o que a monografia FT049 pede: infusão de 5 a 10 minutos com “folhas secas e rasuradas”.

Seque com o talo, destale depois

Aqui os dois documentos oficiais parecem discordar, e não discordam — falam de momentos diferentes.

A Embrapa, tratando da secagem, é clara: “para secar as folhas, a melhor maneira é conservá-las com seus talos, pois isto preserva sua qualidade, previne danificações e facilita o manuseio”. Pendurar o ramo inteiro protege a folha do amassamento e evita manuseá-la uma a uma.

A Farmacopeia, tratando da droga vegetal pronta, limita o talo: a folha de hortelã-pimenta admite no máximo 10,0% de caules como matéria estranha. A hortelã-do-brasil é mais tolerante, porque sua droga é a parte aérea e não só a folha: a porcentagem de caules não deve exceder 20%.

A sequência que satisfaz os dois: secar no ramo, destalar depois de seco. A folha seca solta do talo com um passar de dedos, sem esfarelar — se ela esfarela, você secou demais ou está apertando.

Antes de pendurar

Quatro cuidados que a Embrapa registra e que valem inteiros para a hortelã:

  • Não lave, salvo sujeira grosseira — a água retarda a secagem e favorece contaminação fúngica;
  • Separe as espécies: aromáticas diferentes secam em bandejas diferentes, porque têm tempos diferentes e porque os aromas se misturam;
  • Elimine o que não presta antes de secar — terra, pedras, outras plantas, folhas sujas, descoloridas, manchadas ou danificadas;
  • Camada fina, sem amontoar.

E o que o material colhido não pode receber, em hipótese alguma: sol direto. A Embrapa descreve o resultado nas aromáticas — “aroma e coloração alterados, além de superfície externa mais endurecida, devido a maior perda de água”. Hortelã ao sol fica marrom e sem cheiro; as duas coisas são o mesmo prejuízo.

Temperatura e ponto final

A hortelã segue os limites gerais: secagem natural à sombra, em local ventilado, ou em estufa com temperatura controlada e, em geral, limitada a 40 °C. O padrão da Anvisa para material sem indicação específica na monografia é de 45 °C em estufa de ar circulante por três dias — condição de farmácia, com circulação forçada. A comparação entre os três números oficiais está em temperatura para secar ervas.

O ponto final é dado pelo peso constante: pese uma amostra diariamente e pare quando o peso estabilizar. Como referência do quanto esperar, folhas perdem de 20% a 75% do peso na secagem.

O alvo de umidade é o da monografia: no máximo 12,0% de água, tanto para a folha de hortelã-pimenta quanto para a parte aérea de hortelã-do-brasil. Acima disso o material fica sujeito a deterioração — e, no vidro doméstico, aparece como embaçamento na parede interna.

Qual hortelã está na sua bandeja

Os limites acima são de duas espécies com monografia. Se a muda veio sem nome científico, os números continuam sendo a melhor referência disponível, mas a dose de chá não se transfere: o Formulário de Fitoterápicos tem monografia para uma só hortelã, Mentha x piperita L., com 1,5 a 3 g em 100 a 150 mL para adulto e 1 a 2 g para uso pediátrico acima de 4 anos.

A ficha da espécie, com indicação registrada e contraindicações, está em hortelã-pimenta; o preparo e o número de xícaras, em chá de hortelã-pimenta; quem não pode tomar, em quem não pode tomar hortelã-pimenta. O cultivo que produziu essa folha está em como plantar hortelã, e o vidro em que ela deve terminar, em como guardar ervas secas.

Perguntas frequentes

Hortelã seca ou fresca: qual rende mais no chá?

As doses do Formulário de Fitoterápicos são em gramas de folha seca — 1,5 a 3 g por xícara para adulto. Como a folha perde de 20% a 75% do peso na secagem, a mesma massa de folha fresca contém bem menos material vegetal. Trocar seca por fresca no mesmo peso significa, na prática, tomar uma dose menor.

Posso lavar a hortelã antes de pendurar?

A Embrapa não recomenda lavar plantas antes da secagem, exceto determinados rizomas e raízes. A água retarda o processo e favorece contaminação por fungo. Se a folha estiver muito suja, lave com água de boa qualidade e escorra bem antes de levar ao secador — e conte com uma secagem mais lenta.

Quanto tempo a hortelã leva para secar?

Não há prazo único, porque depende de temperatura, ventilação e umidade do ar. O critério publicado pela Embrapa é o peso constante: pese uma amostra diariamente e interrompa quando o peso parar de cair. Como referência do padrão da Anvisa para material sem indicação específica, são três dias a 45 °C em estufa de ar circulante.

Hortelã seca perde o efeito?

Secar corretamente não elimina o princípio ativo — a Farmacopeia mede o óleo volátil justamente no material seco. O que faz perder é calor demais, sol direto, trituração antecipada e vidro mal fechado. A monografia da hortelã-pimenta exige no mínimo 1,2% de óleo volátil na folha inteira seca, e esse é o padrão a proteger.

Fontes

  1. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume II — Plantas Medicinais (Anvisa), aprovada pela RDC nº 1.026 de 2026 e vigente desde 1º de julho de 2026: a monografia HORTELÃ-PIMENTA, folha, que exige no mínimo 1,2% de óleo volátil em folhas inteiras e no mínimo 0,9% em folhas rasuradas, no máximo 12,0% de água, no máximo 10,0% de caules como matéria estranha e no máximo 15,0% de cinzas totais, com embalagem em recipiente hermeticamente fechado ao abrigo da luz e do calor; e a monografia HORTELÃ-DO-BRASIL, parte aérea, que exige no mínimo 0,8% de óleo volátil em partes aéreas inteiras e 0,6% em rasuradas, no máximo 12,0% de água e porcentagem de caules não superior a 20%
  2. Embrapa Rondônia — Documentos 91: Cultivo, uso e manipulação de plantas medicinais (2004): a orientação de secar as folhas conservando seus talos, porque isso preserva a qualidade, previne danificações e facilita o manuseio; a recomendação de não lavar as plantas antes da secagem; a separação de espécies diferentes; e a redução de 20% a 75% do peso das folhas na secagem
  3. Embrapa Tabuleiros Costeiros — Circular Técnica 70: Orientações Técnicas para o Cultivo de Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares (2015): a secagem à sombra em local ventilado ou em estufa com temperatura controlada e em geral limitada a 40 °C, e a advertência de que aromáticas secas sob sol direto têm aroma e coloração alterados e superfície endurecida
  4. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT049, Mentha x piperita L. (folha): o preparo por infusão de 5 a 10 minutos com folhas secas e rasuradas, a dose de 1,5 a 3 g em 100 a 150 mL de água para adulto e de 1 a 2 g para uso pediátrico acima de 4 anos, e a exigência de embalagem que proteja contra luz e umidade

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026