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Guia da Saúde

Quando colher erva medicinal: a tabela por parte da planta

O ponto de colheita não é detalhe de acabamento: é a variável que decide quanto princípio ativo existe no material que você vai secar. A Embrapa é explícita — “nas espécies medicinais a produção de substâncias com atividades terapêuticas apresenta alta variabilidade”, e o ponto varia com o órgão da planta, o estágio de desenvolvimento, a época do ano e a hora do dia.

A tabela por parte da planta

A regra geral, na formulação da Embrapa Rondônia, cabe em cinco linhas:

Parte colhidaPonto de colheita
Talos e folhasAntes do florescimento
FloresNo início da floração
Casca e entrecascaQuando a planta está em plena floração ou plenitude de crescimento
RaízesQuando a planta está adulta
Frutos e sementesQuando maduros

A Circular Técnica 70 dá a razão para a primeira linha: colhem-se folhas e ramos antes do florescimento porque “nessa fase há mais princípio ativo concentrado nas folhas”. Quando a planta floresce, ela redistribui recursos — e a folha empobrece.

Para cascas, a Embrapa acrescenta uma precisão sazonal que quase nunca aparece: nos arbustos as cascas são separadas no outono; nas árvores, na primavera.

A hora do dia muda a molécula que você colhe

Este é o dado que separa a horta medicinal da horta de tempero. A Embrapa registra:

“A concentração de princípios ativos durante o dia pode variar muito. Os alcaloides e óleos essenciais concentram-se mais pela manhã, e os glicosídios, à tarde.”

Ou seja: para uma aromática — hortelã, alecrim, capim-limão —, colher de manhã não é hábito de lavoura, é maximizar exatamente a substância que a monografia mede. As três fichas estão em hortelã-pimenta, alecrim e capim-limão.

E a colheita tem de ser com tempo seco, sem orvalho e sem chuva. O motivo é medível: “o acúmulo de água nas folhas pode causar a diluição do princípio ativo dentro da planta”, além de atrasar e comprometer a secagem — o que abre porta para contaminação fúngica. Regar na véspera da colheita é, por isso, contraproducente; o raciocínio completo está em com que frequência regar as ervas.

Três exceções que invertem a regra

1. O alecrim acumula óleo essencial depois da floração. A Embrapa registra que ele “apresenta maior teor de óleos essenciais após a floração, sendo uma das exceções entre as plantas medicinais de um modo geral”. Quem aplica a regra da folha ao alecrim colhe no pior momento.

2. O sabugueiro pede flor velha, não flor nova. A monografia FT072 do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa, para Sambucus nigra L., instrui em três das quatro fórmulas: “utilizar apenas flores velhas”, referenciando a monografia europeia de 2018. É o oposto do “colher no início da floração” que vale para as flores em geral. A ficha da espécie está em sabugueiro.

3. Planta jovem pode simplesmente não ter o princípio ativo. O exemplo da Embrapa é o jaborandi, que “apresenta baixo teor de pilocarpina quando jovem”. Em perenes e anuais de ciclo longo, a concentração máxima só é atingida a partir de certa idade ou fase de desenvolvimento.

A parte errada da mesma planta pode ter o efeito oposto

Duas observações da Embrapa Rondônia que deveriam constar em qualquer guia de colheita e não constam:

  • Sabugueiro: “a casca apresenta diversas camadas, cada uma com propriedades terapêuticas diferentes: a primeira é resolutiva e a segunda, purgativa”;
  • Quinas: os alcaloides responsáveis pelo efeito estão presentes em uma só camada da casca, sem se disseminar para as outras.

E o alerta mais direto: colher fora do ponto pode causar “a predominância de princípios tóxicos, como é no confrei”. Não é perda de eficácia — é mudança de perfil. Esse é um dos motivos pelos quais a coleta em área não cultivada exige outra conversa, feita em pode usar planta medicinal do mato.

O que fazer nos minutos seguintes à colheita

A Embrapa é econômica e clara: “imediatamente após a colheita o material deve ser encaminhado para a secagem”. Enquanto isso não acontece:

  • Não amontoe e não amasse. Cestos e caixas, sem compactar — amontoar “pode acelerar a degradação e perda da qualidade”;
  • Não deixe ao sol. Evite incidência direta sobre folhas e flores; raízes toleram algum tempo ao sol;
  • Não colha planta doente, manchada, suja de terra ou com órgãos deformados;
  • Anote. Momento da colheita, local, condições de secagem — é o registro mínimo de controle de qualidade que a Embrapa recomenda, e é o que permite descobrir depois por que um lote ficou ruim.

O que acontece a partir daí — e o número que a maioria erra — está em temperatura para secar ervas. O passo a passo aplicado a uma espécie, em como secar hortelã.

Perguntas frequentes

Colher fora do ponto estraga a erva?

Nem sempre, e a Embrapa é honesta quanto a isso: na maioria das vezes nada impede que a planta seja colhida antes ou depois do ponto para uso imediato. O problema é a redução do valor terapêutico em alguns casos e, em outros, a predominância de princípios tóxicos — o documento cita o confrei como exemplo.

Posso colher depois da chuva se esperar secar?

Espere a planta secar de verdade, não só o chão. A Embrapa desaconselha colher com água sobre as partes, inclusive com o orvalho da manhã, porque o acúmulo de água na folha dilui o princípio ativo e ainda atrapalha a secagem, favorecendo contaminação por fungo.

Quanto de folha fresca preciso para ter um punhado de folha seca?

A Embrapa registra redução de peso de 20% a 75% para folhas na secagem, variando com a idade da planta e a umidade do ambiente. Nos extremos, 1 kg de folha fresca vira de 250 g a 800 g de folha seca. Flores encolhem mais: a de camomila perde 66% e a de borragem, 90%.

Preciso colher tudo de uma vez?

Não, e escalonar é recomendado. A Embrapa trata o escalonamento do plantio e da colheita como forma de ter material em diferentes épocas do ano e manter homogeneidade do lote. Colher aos poucos também evita amontoar material, o que acelera a degradação antes da secagem.

Fontes

  1. Embrapa Rondônia — Documentos 91: Cultivo, uso e manipulação de plantas medicinais (2004): a tabela de ponto de colheita por parte colhida, a variação da concentração de princípios ativos ao longo do dia com alcaloides e óleos essenciais pela manhã e glicosídios à tarde, o alecrim como exceção por acumular óleo essencial após a floração, o jaborandi jovem com baixo teor de pilocarpina, as camadas distintas da casca do sabugueiro e o confrei fora do ponto com predominância de princípios tóxicos
  2. Embrapa Tabuleiros Costeiros — Circular Técnica 70: Orientações Técnicas para o Cultivo de Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares (2015): a recomendação de colher folhas e ramos antes do florescimento, com tempo seco e no início da manhã, e a advertência de que o acúmulo de água nas folhas pode diluir o princípio ativo dentro da planta
  3. Embrapa Agroindústria Tropical — Documentos 161: Plantas Condimentares: Cultivo e Utilização (2013): as regras de época de colheita por parte da planta, com flores colhidas antes da formação das sementes mas completamente abertas, frutos e sementes pouco antes da maturação, raízes indicadas pela morte da parte aérea, e o teor de umidade de cada parte no momento da colheita
  4. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT072, Sambucus nigra L.: a orientação de utilizar apenas flores velhas nas fórmulas 1, 3 e 4, referenciada à monografia europeia de 2018

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026