De onde vem a dose do chá: a conta é em gramas
Da bibliografia — e ela está impressa ao lado de cada fórmula. No Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, toda fórmula vem seguida de um parêntese com a referência que a sustenta. Contando essas referências uma a uma nas 85 monografias da 3ª edição: 209 fórmulas trazem citação de origem, e 157 delas — três de cada quatro — citam a EMA, a agência europeia de medicamentos. Nenhuma cita “a tradição”.
Quem escreveu a dose do seu chá
| Origem citada nas fórmulas | Quantas fórmulas |
|---|---|
| EMA (agência europeia de medicamentos) | 157 |
| Fonte brasileira (Pereira et al., Carvalho & Silveira) | 28 |
| OMS (monografias da WHO) | 13 |
| Wichtl, Herbal Drugs and Phytopharmaceuticals (manual alemão) | 12 |
| Total de fórmulas com citação | 209 |
Entre as citações da EMA, o ano mais frequente é 2016, com 38 fórmulas, e a mais antiga é de 2007. Ou seja: a gramatura que você mede numa xícara brasileira em 2026 foi, na maioria dos casos, decidida por um comitê europeu ao longo dos anos 2010 — e em alguns casos há quase duas décadas.
Isso não invalida a dose. Torna visível o que ela é: um dado de literatura regulatória, não um saber herdado. Quem chamou a planta de “camomila” e quem descobriu que ela acalma o estômago foi a tradição. Quem escreveu “0,5 a 4 g em 150 mL” foi um documento com autor e data.
A unidade é grama por mililitro, não colher
Toda fórmula do Formulário tem a mesma estrutura de duas linhas: a droga vegetal em gramas e a água em mililitros, com a expressão q.s.p. (quantidade suficiente para). Exemplos literais:
| Espécie | Fórmula | Origem citada |
|---|---|---|
| Camomila (Matricaria chamomilla) | 0,5 a 4 g de inflorescência em 150 mL | EMA, 2015 |
| Alcachofra (Cynara scolymus) | 1,5 g de folha em 150 mL | EMA, 2018 |
| Capim-limão (Cymbopogon citratus) | 1 a 3 g de folha em 150 mL | Melo-Diniz et al., 2006 |
| Gengibre (Zingiber officinale) | 0,5 a 2 g de rizoma | Health Canada, 2008 |
| Macela (Achyrocline satureioides) | 0,5 a 1,5 g de inflorescência em 150 mL | Alonso, 2007 |
Repare que a faixa varia por espécie e por parte usada. É o motivo pelo qual “uma colher” não funciona como instrução: a colher mede volume, e a monografia mede massa. Flor seca de camomila e casca fragmentada ocupam volumes muito diferentes para a mesma grama.
A mesma planta, várias doses — porque são vários usos
O caso mais didático é o do mil-folhas (Achillea millefolium), que tem três infusos na mesma monografia:
- Fórmula 1 — 2 a 4 g de parte aérea em 250 mL, para sintomas dispépticos, cólica e flatulência;
- Fórmula 2 — 1 a 2 g em 250 mL, para cólica menstrual leve;
- Fórmula 3 — 3,5 g em 250 mL, para uso externo, em compressa sobre pequenas lesões de pele.
Três gramaturas, três indicações, três conjuntos de referências. A camomila leva o mesmo princípio mais longe: são quatro fórmulas de preparação extemporânea, todas citando EMA 2015, indo de 0,5 a 4 g em 150 mL até 4,5 a 5 g em 1000 mL — porque a última não é para beber. A distribuição por uso está detalhada em chá de camomila e em camomila.
Conclusão prática: não existe “a dose da camomila”. Existe a dose de cada uso da camomila.
As regras gerais que ninguém lê e que mudam a conta
Antes das monografias, o capítulo de generalidades fixa quatro coisas que valem para todas as fórmulas:
- Material seco por padrão. “Para todas as fórmulas previstas neste documento, quando não detalhado na monografia específica, o material vegetal a ser utilizado deve estar na condição seca.” Se a monografia diz “flor”, entende-se flor seca.
- Secagem definida. Sem recomendação específica, “a planta fresca deve ser seca a temperatura de 45 ºC em estufa de ar circulante por três dias”.
- Água potável, filtrada ou fervida. Na preparação feita pelo usuário, a água deve ser potável, e o documento manda orientar que seja filtrada ou fervida antes do uso.
- Teor alcoólico em ºGL. Quando a fórmula é tintura ou alcoolatura, a porcentagem citada é volume por volume.
A primeira regra é a que mais desloca a conta em casa: quem usa erva fresca do canteiro está medindo, em boa parte, água.
Por que isso importa mais do que parece
O Formulário reúne 236 formulações para 85 espécies. Cada uma dessas fórmulas é, na prática, a diferença entre uma bebida e uma dose. A mesma monografia que traz a gramatura traz também o tempo de infusão, o número de vezes ao dia, a idade mínima e o prazo máximo de uso — e é o conjunto, não a grama isolada, que define se o uso é seguro.
O que sustenta juridicamente essas fórmulas, e a diferença entre indicação por ensaio clínico e por tempo de uso, está em uso tradicional e uso comprovado. O quadro completo de advertências das 85 monografias está em planta medicinal é segura?. E o índice das espécies já publicadas, cada uma com sua fórmula e sua contraindicação, fica em plantas medicinais.
Quando procurar serviço de saúde
Dose não é regulável por sensação. Se o sintoma que motivou o chá não melhorar no prazo que a monografia da espécie estabelece — em geral uma ou duas semanas — procure serviço de saúde em vez de aumentar a quantidade. Procure atendimento imediato em caso de reação após aumentar a dose: falta de ar, inchaço de lábios ou língua, vômitos repetidos, tontura intensa ou palpitação. Em suspeita de intoxicação, o Disque-Intoxicação da Anvisa atende no 0800-722-6001, 24 horas.
Perguntas frequentes
Por que a monografia não diz 'uma colher de sopa'?
Porque colher não é unidade de massa. A mesma colher cheia de flor seca e de raiz fragmentada pesa coisas muito diferentes, e a densidade da erva rasurada varia com o corte e a umidade. A fórmula oficial fixa gramas por mililitro justamente para que a dose não dependa do talher de quem prepara.
Se eu não tenho balança, o que faço?
Pesar uma vez resolve. Pese a quantidade indicada numa balança de cozinha, veja quanto ocupa na sua colher e use aquilo como referência para a mesma erva. Só não transfira a medida de uma planta para outra: flor, folha coriácea e casca ocupam volumes distintos para a mesma massa.
Erva fresca do quintal serve na mesma quantidade?
Não. O Formulário estabelece que, quando a monografia não detalha, o material vegetal deve estar seco — e que, sem recomendação específica, a planta fresca deve ser seca a 45 ºC em estufa de ar circulante por três dias. Planta fresca é majoritariamente água, então a mesma massa contém muito menos droga vegetal.
Dobrar a dose acelera o efeito?
Não, e é a advertência mais repetida do compêndio: 83 das 85 monografias trazem a frase 'Não utilizar em doses acima das recomendadas'. As faixas publicadas já vêm com margem, e a monografia do mil-folhas descreve o que acontece acima delas — cefaleia, náusea, vertigem e redução do limiar convulsivo.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): as fórmulas das 85 monografias, cada uma com a referência bibliográfica de origem entre parênteses, as quantidades expressas em gramas de droga vegetal por mililitro de água, e as regras gerais de material seco, secagem a 45 ºC por três dias e água potável filtrada ou fervida na preparação extemporânea
- European Medicines Agency — Herbal medicinal products e as monografias do HMPC: a coleção de monografias europeias de plantas medicinais que é a fonte mais citada das fórmulas do Formulário brasileiro
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026